Como é que é?

Assustou-me demais o anúncio terça feira que o presidente Lula desejava uma reunião semanal com os presidentes da Câmara e do Senado para discutir a pauta de votações do Legislativo. E pior, os dois concordaram! Como é que é? O chefe do executivo agora vai participar da elaboração da rotina do Legislativo? E todo mundo acha isso normal?

A democracia moderna foi pautada nos ideais do iluminismo, embrião da Revolução Francesa, que de tão importante marcou o fim de uma era. Surgindo como um contra-ponto ao absolutismo defendia o individualismo, a defesa contra o Estado autoritário. Para tanto imaginou-se um sistema onde as três funções maiores, legislar, governar e julgar fossem conferidas a grupos diferentes. Surgia os três poderes, que deveriam ser autônomos e independentes. O embate entres os três serviria como contraponto a uma tentativa de esmagar um indivíduo pelo poder do Estado. Rosseau já alertava que a ditadura pressupunha o rompimento deste equilíbrio, ou o domínio de um poder pelo outro.

E assim se iniciaram as ditaduras do século XX, com a submissão de um poder (normalmente o lesgislativo) por outro (executivo). O judiciário passava naturalmente ao controle do ditador e estava instalado o autoritarismo. Nada é mais importante para a democracia do que este equilíbrio, e por isso me assusta o silêncio mórbido com que esta notícia tem sido tratada até aqui.

Paranóia? Exagero? Não é isto que a história ensina, e não é isso que estamos vendo hoje (Venezuela e Bolívia). Existe em marcha um surto de autoritarismo, ameaçando a democracia, que já é abertamente questionada na América Latina. E o final desta estória já se conhece. Não é nada boa.

20 anos

Muito interessante o artigo de Carlos Alberto Sardenberg no Globo de hoje como o título de Marx não havia morrido?

O ponto de partida é um e-mail de um aluno do curso de direito da USP que relatava a fala de um professor em sala de aula. O professor “explicava” por que Antonio Ermírio de Moraes é rico e seus empregados são pobres.

Segundo o professor era “por causa da exploração capitalista que ele exerce sobre a mão-de-obra. Por isso é necessário um legislação trabalhista que proteja os empregados e obrigue o capitalista a gastar parte de seus lucros com os direitos trabalhistas”.

É a defesa da tese de Marx segundo o qual o operariado era destinado à opressão e à pobreza até que faça a revolução do proletariado.

O grande problema é a realidade. No século passado vários países fizeram a revolução. Nos que permaneceram capitalistas, a classe operária cresceu, melhorou de vida e conqusitou direitos. Foi gerada uma classe média que se tornou dominante. A idéia é participar do lucro, não eliminá-lo.

Nos países socialistas os trabalhadores continuaram assalariados e o regime revelou-se incapaz de gerar riquezas. E perdeu-se a liberdade.

Há algum tempo que vem ficando claro para mim que o Brasil está pelo menos 20 anos atrasado em relação ao mundo. E não apenas tecnologicamente. Ainda se discute e ,pior, se defende o socialismo que o mundo civilizado já refutou há anos. E que deu errado. Basta perguntar aos operários da antiga Alemanha Oriental. Basta relembrar a festa que fizeram quando o muro foi derrubado e foi possível a entrada no mundo capitalista.

O único consolo é que talvez daqui a 20 anos cheguemos onde o mundo está hoje, com o socialismo sepultado e as conquistas do livre mercado consolidadas. Talvez

Questão de fé

Em outubro de 2004 eu era o engenheiro membro de uma comissão responsável por uma obra do Exército, portanto pública. O recurso tinha acabado de sair e estávamos lançando a licitação para a construção de 3 edifícios de 3 andares e uma casa. A abertura dos envelopes seria em meados de novembro, e computado os recursos chegaríamos facilmente ao empenho nos primeiros dias de dezembro. Em reunião afirmei o óbvio: tínhamos que nos preparar porque ao final do exercício financeiro a obra provavelmente nem teria começado. O chefe comissão disse que era para terminar em dezembro. Com o apoio do responsável pela comissão de licitações argumentei que era impossível sequer começar, quanto mais terminar. Nunca esqueci as palavras do chefe:

__ Na minha vida aprendi uma coisa e espero que você aprenda também: temos que ter fé!

Naquele momento soube que não havia mais argumentos possíveis, contra a fé não se discute. Mas aprendi uma lição: quando em uma discussão de natureza técnica, ou financeira, alguém levanta o argumento da fé e porque você venceu o debate, embora não leve o prêmio.

Foi divulgado pelo IBGE finalmente o PIB do ano passado. 2,9%. Pela segunda vez superamos apenas o Haiti (que está em guerra civil) na América Latina. Não vou ser tão duro, existem dois resultados absolutamente inverossímeis que ninguém acredita (14% de Cuba e 10,5% da Venezuela). Vá lá, o venezuelano é até possível por causa do petróleo, embora os institutos daquele país já não sejam mais confiáveis, mas o cubano…

Pois a média do primeiro governo de Lula foi de 2,6%. O do primeiro governo de FHC foi de 2,57%. A diferença é que o crescimento mundial nos últimos 4 anos é o maior desde o fim da II Guerra. E estamos perdendo a onda, se já não a perdemos. E qual é a reação do governo:

O IBGE vai mudar a metodologia para cálculo do PIB! Não é uma canalhice? A culpa, vejam só, é do IBGE! Não dá nem para comentar um absurdo destes. E o presidente? Vejam o que ele afirmou hoje sobre o Brasil:

“vive um momento de solidez que pode significar um atrativo enorme para as pessoas de outros países que acreditem que o Brasil é um porto seguro para os seus investimentos.”

O que no governo FHC era fracasso econômico agora é momento de solidez. Até aí ainda estava no petismo normal. Mas o pior ainda estava por vir:

O ministro Paulo Bernardo (Planejamento) disse ter conversado, pelo telefone, com Lula. Achou-o otimista. E instou os jornalistas a seguirem o exemplo do chefe. “Vocês são jornalistas de pouca fé”, disse o ministro.

E estamos reduzidos a isto. Uma questão de fé!

Estudo OEA sobre violência no Brasil

O Globo:

Os 556 municípios brasileiros com maiores taxas de homicídio de jovens, o equivalente a 10% das cidades do país, concentram 81,9% das vítimas de assassinato de 15 a 24 anos. De 1994 a 2004, o número de mortos nessa faixa etária subiu 64,2%, totalizando 175.548 óbitos. É o que mostra estudo divulgado ontem pela Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI).

O Estudo mostra que está havendo uma interiorização do crime. Mas é possível ver uma tendência nos dados apresentados. As cidades que se destacam no número de homicídios, por exemplo, situam-se nas fronteiras físicas do país ou nas fronteiras econômicas. Estar áreas tem em comum a ausência do Estado. Mais um dado que contraria os teóricos da criminalidade fruto dos problemas sociais. O principal fator para explosão da violência é que o Estado não está fazendo sua parte. Não prende, quando prende não julga, quando julga não condena, quando condena não cumpre a pena. É muito convite junto ao risco do crime. Muita coisa tem que dar errado para que acabe cumprindo uma pena, que em geral pode ser bem reduzida.

A interiorização é ainda mais preocupante porque mostra que o problema é federal, coisa que nenhum governo quer assumir. É melhor deixar a bomba estourar nas mãos dos governadores.

Pois os governadores, em sua grande maioria, não possuem recursos suficientes para um combate efetivo, e mesmo se possuíssem não seria o suficiente. O principal incitador da violência é o tráfico de drogas, que é assunto federal em qualquer país por suas conexões internacionais, menos aqui.

E novamente se fala em campanha de desarmamento. Tem índices por aí que indicam que diminuiu a criminalidade com a campanha de recolhimento de armas de 2003. Desconfio. Obviamente as mortes por disparo acidental, normalmente por crianças, podem ter efetivamente diminuídas. Mas é muita ingenuidade acreditar que um bandido venda sua arma para o governo.

PS: procuro sempre usar o termo bandido porque de uns tempos para cá ele ficou meio politicamente incorreto, o que é um grande motivo para usá-lo. Bandido é bandido em qualquer parte do mundo civilizado. Aqui é uma vítima da desigualdade social. Parece que os bandidos somos nós.

Mais violência

Vocês conhecem Bernado Cataldo Neto? Pois este senhor foi condenado em 1997 por estuprar uma menina de 14 anos. Foi condenado a 14 anos de prisão. Duvido quem encontre um país (decente) que condene a 14 anos o estuprador de uma menor. Mas isto não é o pior. Devido ao nosso regime de “progressão da pena” ele foi solto após cumprir metade da pena.

Foi preso na segunda-feira novamente. Estuprou uma menina de 3 anos! 3 anos! É a idade da minha filha. Pois além de ter a filha estuprada a família ainda é obrigada a conviver com o fato que o bandido deveria estar cumprindo sua pena na prisão (por menor que fosse).

Enquanto isso as ONGs de proteção aos menores faz pressão no congresso contra a redução da maioridade. Será que ninguém percebe a contradição? Estão se lixando para o menino João Hélio ou esta pobre menina. O que querem é continuar mamando no dinheiro público para supostamente fazer o papel que o Estado deveria fazer. Defendem que em vez de colocá-los na prisão devem ser cuidados com “amor e carinho”.

Pois a pressão das ONGs está fazendo efeito. O Senado recuou ontem na questão e adiou a votação da matéria. A mesma coisa aconteceu na Câmara com novas leis contra a impunidade. Infelizmente devemos esperar mais uma tragédia para a questão andar.
E não vai demorar muito.

Escritórios



Esta foi noticiado no blog do Cláudio Humberto, que por sua vez reproduzia post do blog Acerto de Contas. Este último é escrito por um jornalista e um doutor em finanças, ambos pernambucanos, e hospedados no Jornal do Comércio. Não há palavras para comentários e é um dos casos que reproduzo na íntegra os colegas pernambucanos.

Reparem nas duas fotos. Na imagem de cima, trabalha em seu humilde escritório de 2×3 metros um dos homens mais ricos do mundo, segundo a revista Forbes. Trata-se de Steve Balmer, sócio fundador da poderosa Microsoft. Na foto de baixo, vista panorâmica do gabinete do prefeito do Recife, João Paulo (PT), com seus 1.100 metros quadrados e que foi reformado recentemente ao custo nada singelo de R$ 1,2 milhão, oriundos dos nossos impostos.

Vamos fazer uma rápida comparação entre esses dois profissionais:

Steve Balmer não é tão conhecido como seu sócio, Bill Gates. Faz mais o estilo ‘low profile’ – que em bom português significa discreto. Até por isso poucos o conhecem, mas quem teve esse privilégio atesta que ele é a verdadeira mente por trás da Microsoft. Administra uma empresa com 63 mil felizes funcionários espalhados por todo o mundo, com faturamento de US$ 10 bilhões a cada três meses – cerca de R$ 84 bilhões ao ano.

O prefeito do Recife, João Paulo, tem personalidade oposta. É o chamado ‘arroz de festa’ – aparece em tudo quanto é evento e não pode ouvir duas latas batendo que já cai no passo do frevo. João Paulo comanda 35 mil servidores municipais mal remunerados e administrou, em recursos ordinários do Tesouro Municipal, R$ 1,3 bilhão em 2006.

Moral da história: nem todo mundo tem o escritório que merece.

Em tempo: nesta não faço distinção de partido político. Por acaso o prefeito é petista, mas a grande maioria dos políticos brasileiros adotam escritórios parecidos. Como com políticos assim uma nação pode dar certo?