A democracia perde mais um pouco

Dentro do plano do lulismo-petismo de manutenção do poder pelo rebaixamento das instituições do estado, ontem foi a vez da democracia sofrer mais um pouco.

Que esperava uma discussão sobre a TV pública ficou a ver navios. Sob gargalhadas de gente como Ideli Salvatti, Sibá Machado e Mercadante, Romero Jucá fez de tudo até conseguir transformar uma seção do senado em uma reunião sindical. Fez requerimento para impedir a oposição de falar, retirou uma MP (que só podem ser editados em casos de relevância e urgência) por não ter relevância e urgência, e conseguiu, sem oposição, aprovar a matéria.

Fique registrado também o papelão de gente como Ziraldo, que fez de tudo para impedir o debate, inclusive usando sua arte para demonizar a oposição. Com ele, outros artistas endossaram a extrovenga petista que vai nos tungar mais de meio bilhão de reais por ano.

Toda vez que o parlamento não debate uma lei a democracia é atropelada. Mas o congresso é o patinho fio da política brasileira não é? Conheço muita gente boa que afirma que o Brasil seria melhor se fosse extinto. O executivo governa e o judiciário julga. Na prática estamos neste caminho, são cada vez mais raras os projetos de lei oriundos do próprio poder legislativo.

Tudo muito entediante. E nojento.

O triunfo da vulgaridade

Um dos problemas do mundo contemporâneo é a perda da noção da própria limitação. É comum encontrarmos com pessoas que bradam a todo tempo sua felicidade e a vida completa que levam. Logo soltam a pérola “não tenho nada que me queixar”. “Então, é uma você é uma pessoa perfeita?” “Claro que não, mas não existem pessoas perfeitas…”.

E ficamos assim, não existem pessoas perfeitas, logo o ponto em que eu cheguei está bom demais.

Ortega Y Gasset já alertava em A Rebelião das Massas:

A característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõe em toda parte.

É fácil de constatar, basta ver a quantidade cada vez menor de pessoas que lêem qualquer coisa que não sejam de seu interesse profissional ou emocional. Livros de auto-ajuda estão sempre liderando as vendas. Mas livro universais, que nos ligam a nossa tradição, que nos abrem as portas da cultura… ah, estes são colocados de lado. São considerados difíceis de ler e pouco práticos. Melhor ainda se já existir o filme…

Um brasileiro colocado no “limbo” pelo mercado editorial brasileiro por ir contra a corrente ideológica que tomou conta a cultura brasileira (ler O Imbecil Coletivo, Olavo de Carvalho) foi Gustavo Corção. Eu nunca tinha ouvido falar nele. Também pudera, pensador conservador e católico praticante, sem chance de ter algum destaque em um país que não admite que o pensamento esquerdista tenha um confronto de idéias. Pois Corção escreveu um artigo em 1970 tratando do assunto.

Retratava um momento de sua juventude quando tentava explicar matemática para um garoto um pouco mais jovem do que ele. O menino fazia um esforço visível para aprender e pedia para explicar devagar porque ela burro. Um gênio! Pois hoje em dia este mesmo menino exibiria sua dificuldade como uma virtude. Vejam este trecho:

“Era efetivamente genial aquele moço de antigamente. Não segui sua trajetória e não sei se ele hoje amadureceu e desabrochou aquele botão de sabedoria em flor, ou se virou idiota e portanto intelectual. O que pude garantir ao meu amigo não-católico é que antigamente a atitude média dos idiotas era tímida, modesta e respeitosa. E isto que se observava nas ruas, nas aulas particulares, nos salões de bilhar e nos clubes de xadrez, observava-se também na Igreja. De repente, em certo ângulo da história, mercê de algum gás novo na atmosfera, ou de algum fator ainda não deslindado, os idiotas amanheceram novos e confiantes. Já ouvi e li muitas vezes o termo “mutação” surrupiado das prateleiras da genética e aplicado à história, à Igreja, ao dogma e aos costumes. Dois ou três bispos franceses não sabem falar dez minutos sem usar o termo “um mundo em mutação”.

A modernização da comunicação ajudou neste processo. Cada vez mais as notícias são cada vez mais concisas e rápidas. É o fast-food da informação. Não é surpresa que a educação esteja em grau tão baixo no Brasil; a verdade é que muito pouca gente a considera importante.

Um amigo foi a uma formatura de direito (de direito!) no Rio de Janeiro na semana que passou. Havia uma faixa que dizia “Graças a cola estamos aqui!”. Não era a única, haviam outras parecidas. Não são atitudes isoladas, basta prestar atenção. A cada esquina existe um manifesto contra o saber, uma afirmação do direito à vulgaridade.

Sim, a vulgaridade é muito mais ampla do que uma simples questão de etiqueta ou de gosto. A vulgaridade está na própria expressão cultural, na rejeição do crescimento intelectual.

Uma das razões do desmoronamento da estrutura social que vemos todos os dias é o triunfo da vulgaridade, o não reconhecimento da própria limitação. O homem moderno não vê o sábio com admiração, mas com a vontade de diminuí-lo, de mostrar que no fundo é tão ignorante quanto ele e assim mostrar que a busca da sabedoria é uma inutilidade completa.

Quando Sócrates afirmava que “só sei que nada sei” não era um convite à ignorância, mas exatamente o contrário. Era o reconhecimento que deveria constantemente buscar a sabedoria e se reformar internamente. Jesus trouxe a mesma mensagem ao afirmar que a verdade estava em nós mesmos.

Esta busca exige trabalho e dedicação. Exige mais ainda, exige combater a vulgaridade que ameaça aflorar de nossos corações a cada momento. É o homem especial de Gasset, aquele que muito exige de si mesmo e que sabe reconhece instâncias superiores à nossa própria existência.

Começou

Estamos em março, abril vem aí. Época em que o leão apresenta suas garras. É doloroso saber que mesmo com a extorsiva tributação sobre o consumo ainda constatarei o quanto da minha renda foi tungada diretamente na fonte. A cada dia o espaço para manobra é menor e maior é a sonegação. Como não quero hipotecar minha honra para o estado faço tudo de acordo com a lei. Pelo menos me restará o consolo de não dar a este monstro a oportunidade de me reprimir no campo da moral.

O pior em saber que a carga de impostos chega a inacreditáveis 40 e poucos por cento do PIB é ver a destinação. O que não se perde na corrupção é perdido na extraordinária ineficiência da máquina burocrática estatal. Uma máquina baseada em estabilidade no emprego, pouco tempo de contribuição e aposentadoria generosa. É preciso sustentar os brasileiros que são mais iguais do que outros, na expressão de Orwel.

Triste sina do brasileiro. Impostos de Suécia, serviços de país africano.

Não por acaso a constituição de 88 completou 20 anos há pouco tempo; ela está na origem da cada vez maior carga tributária que avança como um câncer sobre tudo que produz (e não) no Brasil. Atribuiu ao estado o papel de salvador da pátria, com atribuições sobre tudo que se faz ou deixa de fazer no reino tupiniquim.

Pior é não ver saída, não ter esperanças. Triste.

Sobre a deportação de brasileiros

O blog Building Bridges trata da questão da deportação dos brasileiros na Espanha na semana que passou, embora deportação não seja exatamente o melhor termo. Leia aqui, em inglês.

Reproduzo o comentário que fiz no próprio post:

O caso não é realmente para uma análise simplista e a atitude do governo brasileiro de aplicar “reciprocidade” não ajuda em nada. Era um caso que o correto seria utilizar o corpo diplomático brasileiro e não partir para o “olho por olho”.

As relações entre as nações têm um pouco das relações individuais também. Existem exageros, até mesmo erros. Uma boa negociação não faz mal a ninguém, é o que faltou neste caso.

É fato que está havendo uma diáspora brasileira, o que deveria tomar mais atenção de nossas autoridades. Por que tantos brasileiros estão fugindo do país? Como evitar este fluxo? Claro, sem prendê-los aqui dentro!

O caso incitou o velho ufanismo brasileiro, um pouco incitado pela mídia e por alguns boçais do governo. É sempre uma oportunidade para o populismo mais rasteiro uma “humilhação” de brasileiros em um país do primeiro mundo. Veja que tem que ser do primeiro mundo, só aceitamos ser humilhados por nações do terceiro…

É fato também que muitos que se mudam para os países ibéricos vão sem a menor condições de se manter; a prostituição é uma das atividades mais visadas. Já tive oportunidade de sentar ao lado de uma paraense em um vôo Brasília-Belém. Ela estava vindo de “férias” pois morava em Lisboa. Quando perguntei o que fazia lá, ela deu uma risada e disse que não podia dizer ali, em público.

Aquecimento Global, algumas considerações

Não sou louco de afirmar se a humanidade está provocando um aquecimento global que nos levará ao apocalipse ou não; isso é coisa para cientistas, e ao que parece eles ainda estão longe de qualquer consenso.

O que acho muito estranho é que a mídia amplifique os arautos da destruição e silencie sobre as discordâncias. Cada vez mais o Aquecimento Global fica parecendo uma nova religião que está surgindo, com dogmas e proibição da discussão.

Na última semana mais de 500 cientistas especialistas em clima reuniram-se em Nova Iorque para discutir sobre o assunto. Estes cientistas afirmam que não há consistência na afirmação de que o homem é o responsável por um aumento constante de temperatura que levará à catástrofe. Em artigo de Margaret Tse, no Mídia sem Máscara, ela resume o que se constatou:

– As conseqüências do aquecimento moderno são positivas para a humanidade e para a vida selvagem;

– Que as previsões de aquecimento no futuro não são confiáveis;

– Que os custos para se tentar deter “o aquecimento global” excedem os benefícios hipotéticos em fator maior que 10;

– Que os cientistas dissidentes foram chamados de “céticos” e grandemente ignorados pela mídia, censurados por governos e demonizados por ambientalistas. A verdade é que o falso “consenso” de cientistas foi alardeado por cientistas chapa-branca e aliados políticos com motivos manipuladores;

– Que as pesquisas e revisões atuais da literatura científica revelam que os céticos são a maioria dentro da comunidade da ciência do clima; que suas vozes foram suprimidas devido à enorme publicidade que se deu ao Painel Intergovernamental de Mudança Climática das Nações Unidas, entidade cuja agenda tem como plataforma de apoio a teoria de que a catástrofe do aquecimento global se deve à ação humana.

Em resumo este pessoal, que seguramente sabe muito mais do que nós leigos, afirmam que o clima do planetas está historicamente em constante mutação por fatores alheios ao ser humano.

Existe muitas pessoas se beneficiando da teoria do Aquecimento Global. Cientistas “engajados” estão conseguindo verbas inimagináveis para pesquisa no assunto. Quanto pior o prognóstico, melhor o financiamento. Além desses, uma série de políticos abraçaram esta bandeira como uma forma de ganhar projeção, como exemplifica bem Al Gore. A junção dos dois fatores tem provocado uma frente poderosa.

Mas qual seria o problema em pesquisar melhor o assunto? Na dúvida não é a melhor saída? A questão é que dinheiro não dá em árvore e ao que parece esta sendo empregado uma soma considerável que sem o argumento político não se justificaria. Este dinheiro seria empregado melhor em outras linhas de pesquisa. Além disso há um impacto de uma série de medidas, de eficácia bastante questionáveis, na economia mundial. Tudo isso sem que a participação dos representantes da população. Os parlamentos estão sendo colocados de lado nesta estória, está tudo sendo decidido em fóruns muito restritos como os gabinetes governamentais e conselhos multi-nacionais.

Não está sendo esclarecido à população o custo dos programas e os objetivos que se propõe a atingir. Estão vendendo o Aquecimento global como uma verdade e não é. Não há consenso científico à respeito; pior, cada vez mais o ceticismo é exercido por gente mais gabaritada.

São só apenas algumas reflexões que tenho tido após alguma pesquisa. Abaixo dois textos que li recentemente sobre o tema:

Água fria no “aquecimento global”, por Thomas Sowell
Conferência Internacional sobre Mudança Climática em 2008, por Margaret Tse

Uribe, o grande vitorioso

A 20ª Cúpula do Rio mostrou ontem a diferença entre um estadista e bufões. Rompendo finalmente o silêncio da semana Uribe falou o que precisava falar e deixou sem ação Chávez e Corrêa.

Lembrou que o conceito de soberania envolve território e população. Abrigar guerrilheiros que atacam sistematicamente um vizinho também é uma violação; foram mais de 40 ações iniciadas em território equatoriano. Afirmou que não avisou o Equador porque seria o mesmo que inviabilizar a operação tamanha a legação entre este país e as FARCs. Acusou Rafael Corrêa de ter recebido dinheiro das FARCs em sua campanha e Hugo Chávez de colaboração com a guerrilha.

Os bufões se calaram e aceitaram selar a paz que eles próprios ameaçaram. Basta ver as fotos dos apertos de mão entre Chávez, Corrêa e Uribe. Apenas um tem o olhar determinado de quem veio cumprir uma missão, os outros dois parecem cachorros sem dono.

O Brasil se destacou pela ausência. Para quem brada querer exercer a liderança na América Latina o papel ontem foi um verdadeiro vexame. Cadeira no Conselho de Segurança da ONU? Para que? Um país que se omite na hora de encaminhar uma solução diplomática entre dois países na sua esfera de influência. A atitude dos Estados Unidos foi simples e mostra a diferença entre discurso e autoridade. Colocou seu incondicional apoio a uma democracia que enfrentava uma guerrilha. Tivesse o Brasil feito a mesma coisa a crise tinha morrido no nascedouro. A imprensa tenta vender o papel do Brasil como mediador neutro, balela, o que houve foi omissão. O governo brasileiro percebeu que enfrentar a Colômbia era um projeto sem futuro, como não pode apoiá-la pelas ligações com os grupos de esquerda, preferiu se esconder.

Aliás Celso Amorim, mais uma vez, foi patético. Condenou a troca de ofensas entre presidentes. Troca? Que troca? Uma das características das crise foi o silêncio de Uribe. Ouve sim, ofensas por parte de Chávez e, em menor grau, de Corrêa. E usando o que se chama de “linguagem de botequim”.

Não é a toa que o povo colombiano confia cada vez mais em seu presidente.

Engraçado

Pela blogosfera se sabe que foram feitas várias manifestações de apoios à Uribe em Bogotá, inclusive que o apoio popular chegou a mais de 80%. Sobre isso silêncio na mídia. Quando vejo na Uol, o site noticia protestos contra Uribe. Abro a notícia e vejo que trata-se de um protesto de 30 manifestantes do partido comunista do México! Qual a relevância? Por que o silêncio sobre o apoio ao presidente colombiano e destaque para meia dúzia de gatos pingados em um país que não tem nada a ver com o conflito. Aliás talvez nem em Caracas se encontre 30 manifestantes para criticar os colombianos. No Brasil é certo de encontrar, basta em qualquer sala de aula de humanas na UFRJ ou na USP…

Artigo de Jefferson Péres

O artigo de Jefferson Péres na Folha de hoje é um dos mais lúcidos que já li vindo de um esquerdista. É um dos casos de gente que se pode até discordar, mas nunca perder o respeito, e neste artigo foi muito bom para refletir um pouco sobre coisas que ainda não tinha pensado.

Basicamente tratou do confronto entre socialismo e capitalismo que se instalou a partir do Manifesto Comunista de Marx (1848). Segundo Jefferson,  “a análise marxista, excessivamente reducionista, foi parcialmente correta no diagnóstico, falha na terapia e um grande fiasco no prognóstico“.

Marx fez um diagnóstico sobre o capitalismo de seu tempo. Na época existia um vazio jurídico, não havia legislação trabalhista, seguro social, proteção ambiental. Era realmente o capitalismo selvagem onde a acumulação do capital era baseado no menor custo de produção possível. Era “um modelo condenado ao desaparecimento, porque socialmente cruel e politicamente insustentável“.

O grande erro do marxismo foi acreditar que o capitalismo não evoluiria, que se manteria estático. Este erro, para um dialético, é imperdoável segundo o senador do PDT.

O erro dos seguidores de Marx foi acreditar que o remédio receitado, o socialismo, seria viável sem o colapso do capitalismo, que supostamente ocorreria nos países mais desenvolvidos. Aí estaria o grande fiasco de Marx no prognóstico.

Segundo Péres, o capitalismo do tempo de Marx era a própria negação da economia de mercado. O socialismo acabou sucumbindo diante da evolução do capitalismo e sua nova dinâmica. ” Ora, o sistema de mercado só funciona bem dentro de um marco institucional, interno e internacional, solidamente estabelecido. Vale dizer, precisa de paz, de regras claras e de segurança jurídica, tudo que não havia na época do velho capitalismo e do seu corolário, o neocolonialismo. ”

Considera que no velho capitalismo o mercado foi anulado pela omissão do estado, no socialismo real pela sua hipertrofia.

O pensamento de Péres se distancia nesta frase do liberal e do conservador. Está aí o germe da social-democracia, onde o estado teria um papel de equilíbrio no mercado, atuando para corrigir e evitar as crises. Já aqueles acreditam que papel do estado estaria mais na segurança das regras jurídicas estabelecidas democraticamente pelo parlamento, sua participação como agente econômico seria o mínimo possível.

Não creio que tenha sido o estado o grande ator a modificar o capitalismo. A legislação trabalhista saiu do confronto entre trabalhadores e empresários e foi negociada nos parlamentos nacionais. Foi mais um consenso da própria sociedade do que intervenção do estado. É claro que estou falando dos países onde estas legislações surgiram. No Brasil foi obra realmente do estado, e até hoje estamos pagando por regras que não foram estabelecidas por negociação entre as partes interessadas, no caso, trabalhadores e empresários.

O próprio Jefferson lembra que o capitalismo ainda não se reformou por completo, e sua transição encontra-se em nível diferente nas várias partes do globo. O Brasil ainda teria de “fazer um contínuo aperfeiçoamento do arcabouço institucional, para remover o entulho que impede o pleno funcionamento da economia de mercado. ”

Péres conclui que o Brasil precisa se livrar da “sucata mental” que impede a leitura do mundo de hoje e principalmente do de amanhã.

É  um texto de um homem lúcido, que apesar de algumas discordâncias pessoais, reconheço como um político de respeito e me dá uma esperança que nem só de canalhas é constituído nosso congresso e até mesmo nossa esquerda.

O senador mostrou como se constrói um debate democrático e se deve fazer política.