Carta aberta a um amigo esquerdista

Prezado amigo,

Sei que você não está entendendo muito bem o que está acontecendo. Afinal, você não encontra mais ninguém para discutir. Você tem aquela sensação que está do lado da justiça, que ganhou a guerra cultural. No entanto, a esquerda está levando surras históricas em eleições e referendos. De onde estão saindo esses votos?

Em primeiro lugar, não acredite tanto na divisão entre esquerda e direita. Ela tem a grande desvantagem de rotular por igual diferentes tribos. Não dá para classificar no mesmo grupo um conservador cristão, um liberal clássico, um libertário, um fascista ou mesmo um nazista. O fato de serem de alguma forma anti-socialistas não significam que sejam de direita. É até defensável que os nacional-socialistas e fascistas sejam de esquerda. Você definir o que é esquerda e classificar tudo o mais como direita é muito egocentrismo, não achas?

Em segundo lugar, a verdade é que cansamos de discutir com vocês, não tem futuro. O histerismo é muito grande. Ninguém gosta de ser ofendido quando tenta argumentar uma tese. O esquema é sempre o mesmo: vocês dizem A. Nos falamos B e vocês nos acusam de sermos a encarnação do mal na terra. “Olha, eu acho que salário mínimo alto gera desemprego para os piores capacitados”; “Que horror! Você quer que o trabalhador ganhe uma miséria, você é a favor da exploração!”. “Olha, eu acho que enquanto essas moças não tiverem melhor opção, é complicado impedi-las de trabalhar como empregadas domésticas”; “Que horror! Você defende a escravidão!”. “Olha, eu acho que essa questão de cotas é complicada”; “Racista! “. “Eu acho que tenho direito de expressar minha livre opinião.”;”Crime de ódio! Crime de Ódio!”

Sim, parei de conversar de política contigo. Não é porque estou sem argumentos, mas porque desisti e estou te tratando como criança, evitando despertar seu histerismo. Conversamos sobre o tempo e outras banalidades, escuto em silêncio suas provocações e outras asneiras, sorrimos e depois voto contra você. Não se trata de voto envergonhado como andam dizendo, mas voto de quem cansou de tentar argumentar porque você não quer me ouvir. Na prática, você tampa os ouvidos e sai correndo pela sala gritando “não estou ouvindo, não estou ouvindo!”

Não adianta ficar colocando indireta no facebook, compartilhando artigo de jornalista militante, discurso da Lady Gaga. Não mordo mais a isca. Não tenho interesse em discutir na base de palavras de ordem, slogans vazios, abstrações que só existem na sua imaginação. Sabe porquê? Porque se você realmente acreditasse no que prega sua vida seria completamente diferente. No fundo, você gosta de todo o conforto que essa amaldiçoada tradição ocidental cristã te legou e se sente culpado porque tem gente que não tem nada disso. Sua revolta é vazia pois é apoiada em um castelo de cartas, na ilusão que é sempre culpa de alguém a infelicidade de outro. Isso só se sustenta na sua mente.

Seu problema não é de ordem coginitiva ou psicológica. Pensadores como Eric Voegelin, Robert Musil e Karl Klaus identificaram muito bem, seu problema é de ordem espiritual. Você tem uma pneumopatologia que nenhuma discussão política vai resolver. Sua cura passa pelo auto-conhecimento, por sua iluminação interior. Mas você não vai fazer isso, não é? Está muito preocupado salvando o mundo para entender que o que importa é salvar a própria alma. E que esta é a melhor contribuição que você pode fazer para esse mundo que tanto diz amar.

A hipocrisia da velha mídia

Volta e meia a velha mídia resolve abrir espaço para os dissonantes, o que eles chamam de direita, mas que poderiam ser chamados simplesmente de pessoas com alguma capacidade de enxergar além das aparências, gostemos ou não do que têm a dizer.  Fico até imaginando aquele jornalistão progressista pensando “como sou magnâmico, vou dar uma coluna para esse maluco e deixar ele se enforcar sozinho”. 

O que eles nunca esperam é que o maluco vai ser ouvido, como aconteceu como o Olavo nos anos 2000, que falou do Foro de São Paulo insistentemente no Globo, e mais recentemente na Veja (Hasserlman e Constantino) e na Jovem Pan (Tognoli). Não significa que sejam de direita ou que estejam certos, mas cometem o crime de falar o que os donos das redações não gostam de escutar e, pior, encontram platéia. A coisa é tão surreal que esses considerados malucos são vítimas do próprio sucesso. Sendo ainda mais claro: eles recebem espaço para fracassarem e não para darem certo. É espantoso! 

Quando eu vi a Hasserlman entrevistando o Olavo de Carvalho na TVeja, tive o sentimento que a loira não duraria muito. Curiosamente Tognoli perde o emprego logo após colocar o Delcídio no ar, falando de toda sujeira do poder. Raquel Sheherazade só sobreviveu porque se calou, até mesmo no twitter. Só é permitido o sucesso se replicar a ideologia esquerdo-progressista, essa é a lição.

Essa é a noção de liberdade da velha mídia, a liberdade de concordar comigo. Quer falar diferente? Até pode, mas desde que ninguém escute ou que seja ridicularizado. O que não pode é ser levado a sério.

Raça de hipócritas.

O 15 de novembro

O 15 de novembro

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Há um número pequeno, mas crescente, de pessoas que lamentam o 15 de novembro. Será uma simples insatisfação com o momento atual? Não sei, desconfio de respostas simples. Só sei que quando vejo a imagem de D. Pedro II, vejo uma imagem trágica, de um homem de bem que foi vítima de seus próprios erros e acertos.
 
Nossa cultura é tão doente que até hoje não fomos capazes de produzir um livro ou filme que romanceie os acontecimentos que levaram à República, o que impede a formação de um imaginário sobre o que aconteceu. Sem imaginário, não há reflexão e ficamos presos aos lugares comuns, sem ter a menor idéia do que significou a data. Comparem com a quantidade de filmes de Hollywood sobre o 4 de julho, Dia D ou a Guerra Civil.

Desconfio que estamos presos a mentiras criadas pela própria República para se justificar. Sei que há pencas de livros de história, mas sem ficção eles são quase inúteis, versões para escolher a sua. Não acredito em ciência social que não comece pela literatura ficcional. Primeiro temos que ter o sentimento das possibilidades, tentar entender o espírito da época. Depois vamos aos livros de história. É muito mais fácil entender os livros sobre a revolução industrial depois de ler Dickens (e entender que Marx foi um charlatão).

A República foi um erro? Não tenho a menor idéia, faltam esses conhecimentos básicos que me permite refletir sobre esse acontecimento. Na base da opinião, acho que foi nosso grande erro histórico e civilizacional. Mas trata-se apenas de uma opinião sem fundamento, um puro achismo. Vale quase nada. E é assim que temos que tratar as opiniões sem fundamento, um mero palpite. Para começar a refletir com seriedade é preciso levantar a opinião dos sábios. O que dá um trabalho danado.

 

A crise no Rio de Janeiro

A crise no Rio de Janeiro

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É um lugar comum na economia que quanto mais se adiar medidas para controlar o orçamento, maior será o sacrifício a ser feito. Sabemos disso por experiência comum. Quando se perde parte da renda familiar, é preciso fazer ajustes ao novo orçamento. Quem continua a gastar como antes, termina endividado no cheque especial e cartão de crédito. Ao invés de deixar de comprar uma nova televisão, a tanto tempo planejada, terá de abandonar um curso universitário ou tirar o filho de uma escola. Possivelmente o sujeito ainda vai reclamar da injustiça da vida.

Quando foi feita a nova partilha do petróleo, o Rio de Janeiro já tinha que ter colocado o pé no freio. Não fez, continuou gastando como se o futuro fosse o verão de suas praias famosas. O segundo alerta veio com a lava-jato. Não era muito difícil adivinhar que a Petrobrás teria sérios problemas. Novamente ignorado. Tudo era o Rio 2016. Agora veio o tsunami.

Não sei dizer se as medidas anunciadas são acertadas ou não, mas um fato que deve ser aceito o quanto antes é que o estado está realmente falido. Se fosse uma empresa, estariam todos na rua. Como não é, ainda se preservam os empregos, mas a conta tem que ser paga. Aumentar impostos é inútil porque já está no limite da curva de Laffer que diz que não se pode aumentar a arrecadação indefinidamente com o aumento dos impostos. Há um ponto onde a atividade econômica começa a diminuir, ou ir para a clandestinidade, e a arrecadação cai junto com o aumento dos  impostos. Nós, brasileiros, já passamos desse ponto.

O que fazer? Se a solução não está nas receitas, só pode estar nas despesas. Antes, uma consideração.

O Rio poderia ter sim mais receitas. Seu potencial turístico é enorme, muito mais do que é explorado hoje. Mas a falta de estrutura, preparação das pessoas e, também, a violência urbana, impede que esse potencial se realize. Como qualquer coisa na vida, para ganhar é preciso sacrificar, para ter mais receitas é preciso investir. A educação é sofrível, a formação de recursos humanos para o turismo insuficiente e deficiente, a violência, bem, essa nem precisa dizer, apesar de muitos cariocas conviverem muito bem com a violência, desde que não atrapalhe a praia.

Enfim, para melhorar as receitas é preciso investimento no lugar certo. Para isso, é preciso estancar a sangria. É preciso diminuir o gasto público. O lado bom é que tem muitas áreas onde o dinheiro é colocado sem eficiência, com retorno altamente questionável. O lado ruim é que essas áreas são vacas sagradas, onde tirar qualquer real significa enfrentar sindicatos, jornalistas, artistas e todo o happy people que votou 50 nas últimas eleições. Infelizmente não há liderança capaz de explicar à população que certos gastos são na verdade desperdícios. A opção é sangrar todo mundo, a começar pelos funcionários do estado.

Em tempos difíceis é que se necessita mais de uma liderança autêntica, justamente o que o Rio não tem. Por isso vamos todos sangrar, literalmente e metaforicamente.

O debate público, no Brasil, é impossível. E o problema começa na linguagem.

O debate público, no Brasil, é impossível. E o problema começa na linguagem.

De uns tempos para cá tenho me evitado a tentação de debater publicamente certos assuntos. O principal motivo para essa posição é a impossibilidade de discutir a maioria dos temas que se colocam. Por que isso acontece? Para entender o problema temos que recorrer ao entendimento dos símbolos.

O símbolo é a forma de compreender a realidade. Nós pensamos por símbolos, e o mais básico deles é símbolo linguístico. Um pouco de teoria mostra que o símbolo tem duas partes, o significante e o significado. O significante é o termo que usamos para designar o símbolo. Por exemplo, a palavra “mesa”. O significado é a que o significante está remetendo. Ou seja, o objeto ou conceito real do símbolo. No caso da palavra mesa, o objeto especial que entendemos quando se usa esse termo. A figura abaixo ilustra o conceito de signo.

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O que tudo isso tem a ver com o debate público? Tudo. Para que se possa discutir uma assunto, é preciso que ambas as partes tenham a mesma compreensão do signo, ou seja, entendam o mesmo significado para cada significante. Lewis Carroll colocou o problema da discussão moderna no diálogo entre Alice e Humpty Dumpty:

Quando eu uso uma palavra, _ Humpty Dumpty disse em um tom um tanto superior _ significa justamente o que quero que signifique, nem mais, nem menos.

Alice ainda retruca dizendo que a questão é  se podemos usar a mesma palavra para significar  coisas diferentes. Humpty responde dizendo que a questão é qual deve ser o mestre, e isso é tudo. Ou seja, sem concordância do significado dos termos, a discussão nada mais é que uma disputa de força que não tem nada a ver com o assunto em questão. Isso tudo não é novo, Aristóteles já dizia que a discussão só era possível entre spoudaios, os homens maduros.

O que temos hoje no Brasil é uma disputa de poder entre pessoas que não têm a menor concordância sobre os conceitos que estão usando. Para agravar, temos um outro problema de significantes sem significados, ou seja, os símbolos ocos que Voegelin tanta falava. Qualquer discussão séria em um ambiente desses é impossível. E não tenho a menor intenção de ficar disputando poder com quem quer que seja.

Por isso que estou me controlando e evitando entrar nesse espiral de loucura. Só quando encontro pessoas sinceramente dispostas a entender o que está acontecendo é possível discutir alguma coisa. A discussão pública no Brasil é um grande teatro onde sobram palhaços e mágicos.

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10 Breves reflexões

10 Breves reflexões

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1

Outro dia, perguntaram-me: como eu poderia estar lendo um livro escrito no século XVI? Tratava-se de Shakespeare. Meu dileto amigo errou o foco de seu espanto. Eu não sou relevante; Shakespeare é. Deveria ter perguntado o que tem num livro do século XVI para ser lido até hoje.

2

A cada eleição espanto-me com a capacidade das pessoas em serem hipócritas e exigir dos candidatos o que elas próprias não fazem.

3

Vejo pessoas comuns atacando e defendendo a tal PEC 241. O que dificilmente vejo é quem leu a PEC. Defender e atacar o que não se conhece. Eis a modernidade.

4

Na escola sobram professores dando aula de literatura. Difícil é quem ensine realmente a ler.

5

Somos um país de analfabetos funcionais. Não há nada mais significativo para nos descrever do que isso. E deixamos essa constatação completamente de lado ao tratar das coisas públicas. Até mesmo ao tratar da educação. Somos um povo que não sabe ler discutindo a pertinência de ensinar filosofia.

6

A maioria das greves só consegue provar que boa parte dos trabalhadores é dispensável. Não creio que seja uma estratégia muito inteligente.

7

99% do que professores, funcionários e alunos das universidades públicas falam publicamente é a mais pura hipocrisia. O 1% que sobra é burrice mesmo. Você reconhece quem tem alguma razão pela quantidade de pedras que recebe.

8

Não há nada que me desperte mais medo que um político que desperte a paixão. O maior elogio que podemos fazer a um político é tolerá-lo.

9

Em eleições, perdi muito mais que ganhei. E jamais votei positivamente; sempre foi contra alguém.

10

Não se vota em candidato; vota-se contra um pior. Esse é o verdadeiro voto consciente.

Uma teoria da violência?

Uma teoria da violência?

Outro dia presenciei um assalto, coisa de trombadinhas, na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana. Uma cena normal no Rio de Janeiro, mesmo no horário de uma da tarde e dos pivetes terem saltado de um ônibus, arrancado a bolsa de uma mulher, e retornado para o coletivo, rindo. Todos que assistiram a cena, eu, pedestres e passageiros de ônibus, olharam tudo anestesiados, sem ter o que fazer.

Antes que digam que se trata de Rio de Janeiro, e se trata mesmo, não podemos esquecer que essa cena ocorre em toda grande capitais do país; mesmo a de médio porte. A única vez que um pivete me assaltou foi em João Pessoa, em 1987, também durante o dia na principal avenida da cidade. De certa forma o Rio é uma visão ampliada dos problemas do Brasil. Ignorar que, em maior ou menor grau, somos todos Rio, como se diz na gíria da moda, é fechar os olhos para os próprios problemas.

Eduardo Matos de Alencar, em artigo recente na excelente revista Nabuco, faz uma reflexão sobre a lógica da violência nas grandes cidades e questiona se é possível uma teoria geral sobre a violência, o nirvana de todo intelectual. Ele resume as teorias existentes em três grandes grupos. A violência como um fenômeno econômico, uma escolha racional entre custos e benefícios (escassez financeira); a violência como resultado de características individuais negativas, de valores morais que não foram desenvolvidos na pessoa (insuficiência cognitiva); e a violência como um produto da circunstância, de acontecimentos que superam a disposição do agente (circunstância aleatória que preme o indivíduo). O problema é que nenhuma dessas explicações dá conta de indivíduos que agem por gosto, praticam a violência porque querem, independente de benefícios econômicos, história individual ou circunstâncias. A teoria não consegue explicar a frase: “roubei por prazer”.

brasil2bdominado2bmarianoUma teoria geral só seria possível se olhássemos para a essência do ser humano, ou seja, para uma antropologia filosófica que desse conta de evidenciar as razões que nos levam a ser violentos. Para Eduardo Matos coube a René Girard, com sua teoria do desejo mimético, apresentar um caminho para percorremos. Para Girard a essência do homem seria o desejo mimético, a vontade de imitar o próximo. Queremos algo não pelo seu valor em si, mas por quem alguém que temos como modelo, muitas vezes inconsciente, também quer. O problema é que quando o modelo está demasiadamente próximo cria-se uma tensão, podendo gerar uma competição violenta pelo bem, especialmente quando o mecanismo se extende ao modelo e passam a se influenciar um ao outro. O mais importante é que o objeto acaba perdendo a importância em relação à disputa em si. A violência nasce dessa reciprocidade. Para Girard, essa violência só consegue se aplacar pelo mecanismo desenvolvido pelas religiões arcaicas do bode expiatório. Só a partir do sacrifício de um inocente, que recebe todas as culpas pelo conflito, que a sociedade pode continuar existindo sem se deixar consumir pela violência.

Examinando a correspondência da teoria mimética com outros campos da existência como a biologia, psicanálise e sociologia, chama atenção a percepção do mecanismo culpa/vergonha. Existem duas formas, defende Eduardo, de lidarmos com nossos erros: assumir a culpa ou sentir vergonha. No primeiro, assumimos a responsabilidade e se tivermos um mecanismo adequado de arrependimento, podemos continuar em frente. No segundo, o indivíduo sente que está sendo humilhado e que na verdade não tem culpa do que está acontecendo, acumulando revolta que acaba por explodir em algum ponto. Coube a um psiquiatra norte-americano, James Gilligan, apontar que existe uma constante no relato dos indivíduos violentos nas penitenciárias americanas: uma idéia de desrespeito ou honra ferida, o resultado de uma sequência de humilhações, cuja causa era atribuída à vítima. A principal consequência é a morte do “self”, a anulação do eu, tornando o indivíduo imune a considerações morais sobre seus atos.

Eduardo Alencar nos alerta que o papel que a vergonha e a culpa desempenham na produção da violência é causa necessária, mas não suficiente. Há mecanismos que dissipam a vergonha e humilhação como a capacidade de sentir culpa, para que a humilhação não apareça de maneira tão devastadora e incontornável e que o indivíduo possua meios não-violentos de salvar ou resgatar a sua autoestima.

O problema que vivemos hoje é que a modernidade, no seu espírito de revolta contra Deus, acentuou de maneira extraordinária o ressentimento. Especialmente nas áreas urbanas, os mecanismos que lidavam com o aplacamento dos esquemas de humilhação como a família, igreja ou outras associações estão ruindo fruto de uma expansão desorganizada e desordenada. A morte de Deus geram um vazio existencial que impede que a pessoa sinta culpa e, portanto, assuma responsabilidade pelos castigos que sofre ao longo da vida. Tudo se torna ritual de humilhação gerando uma forma de alimentação mútua com o ressentimento. Marc Angenot denominou ideologia do ressentimento a visão de mundo que se desenvolve a partir da vergonha e humilhação. O futuro para o ressentido não é uma abertura ou emancipação, mas um acerto de contas rancoroso com o passado. A modernidade liberta o homem dos grilhões da cultura para o jogar nos grilhões do desejo mimético.

Conservadores: alegria!

Conservadores: alegria!

Alguns conservadores tem o péssimo hábito de cultivar o mau humor. O atual papa, que confesso não ter muita simpatia, disse algo logo no início de seu papado que guardei: o cristão tem que ser, sobretudo, alegre. O Nobel de Dylan mostrou essa face ranzinza de muitos, inclusive de alguns por quem tenho a mais absoluta admiração, diga-se. Parece que a arte já foi consolidada, e nenhuma forma  moderna é válida. Só vale o que se chama de clássico.

Esse artigo de Fernando Escorsim coloca o ponto com mais propriedade.

Apenas retomo o que aprendi com Peter Kreeft e Mortimer Adler: para julgar temos primeiro que entender. Não estou convencido que:

1. composições musicais não possam ser literatura;

2. as composições de Bob Dylan não sejam dignas de ser chamadas de boa literatura.

Como já disse aqui, pouco conheço de sua obra. Passei a última semana estudando, e apreciando, o disco Blood on Tracks. Uma maravilha. Vejam esses versos:

 

People see me all the time and they just can’t remember how to act

Their minds are filled with big ideas, images and distorted facts

Even you, yesterday you had to ask me where it was at

I couldn’t believe after all these years, you didn’t know me better than that

(Idiot Wind)

 

Sundown, yellow moon, I replay the past

I know every scene by heart, they all went by so fast

If she’s passin’ back this way, I’m not that hard to find

Tell her she can look me up if she’s got the time

(If You See Her, Say Hello)

 

I was in another lifetime one of toil and blood

When blackness was a virtue and the road was full of mud

I came in from the wilderness a creature void of form

Come in she said, I’ll give you shelter from the storm

(Shelter From The Storm)

 

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