A Infância de Jesus (Bento XVI)

Já é terceiro natal que releio este livro, uma das leituras que pretendo repetir até o fim de minha vida. Acho o título intrigante, pois o único episódio da infância de Jesus retratado é o epílogo, o de Jesus aos 12 anos no templo. Todo o restante do livro trata do nascimento de Jesus. Por que então Ratzinger, que tem enorme atenção ao significado das palavras, não deu o nome de O Nascimento de Jesus ou algo parecido? Eis uma pergunta que gostaria de lhe fazer.

A Infância de Jesus é especial pois nos ensina o que significou o nascimento do Cristo. Bento XVI nos ilumina sobre o ambiente em que este fato histórico ocorreu, seu significado, suas consequências. Junto com o Homem Eterno, do Chesterton, são as duas obras que nos iluminam sobre o papel de início de uma revolução que a encarnação significou para o mundo. Um reino havia sido destronado e ele só pode ser recuperado por uma revolta. Neste caso, uma revolta do espírito.

O pequeno livro de Ratzinger vai nos mostrar o que significa a linhagem de Jesus, as passagens mais enigmáticas do anúncio à Maria, o porquê da manjedoura, o significado da visita dos reis magos, o papel de José como um homem justo, o sim de Nossa Senhora. Sem evitar as questões históricas, o papa emérito nos mostra que há uma conciliação possível entre as sagradas escrituras e os registros encontrados até hoje. Não se pode separar as duas visões, defende ele.

São pouco mais de 100 páginas de puro deleite. Uma leitura, como disse, para a vida inteira.

3 Visitas no Natal

Hoje é meu 47º dia de natal. Meu celular está repleto de mensagens, em sua maioria cartões virtuais, mas que não deixam de cumprir sua finalidade. É prático, mas algo se perdeu na passagem dos velhos cartões por correio para o mundo do whatsapp. Mas voltando ao natal, sempre é bom recordar o significado desta data, que não rugiu por acaso em nosso mundo, mas nos foi dada de presente. Sim, o natal significa o nascimento do Cristo entre nós, mas não é este ponto que gostaria de chamar atenção e sim nas visitas que uma criança na manjedoura recebeu há 2000 anos: os pastores, os magos e os demônios.

Não nos enganemos, a vinda do Cristo foi uma declaração de guerra aos príncipes deste mundo. Um mundo que havia sido usurpado pelo antagonista e que os demônios passeavam sobre a terra. O nascimento daquela criança é o equivalente a uma invasão que atendia uma busca que tinha duas naturezas.

A primeira delas era de natureza poética, no coração do homem comum. O mundo visível não respondia à sua inquietação profunda. Algo estava em falta. Esta busca por um fundamento para a própria existência, por um sentido para a vida, se traduzia na poesia, que tinha sua forma melhor acabada na mitologia. Os pastores que visitaram o menino Jesus são estes homens comuns, que encontraram sua resposta em uma pessoa. Naquele momento, a mitologia chegava ao fim, pois, como lembrava Chesterton, mitologia é busca.

A segunda busca vinha dos filósofos da antiguidade. O menino recebeu também a visita de 3 magos do oriente, Miquéias, Gaspar e Baltazar, mas poderiam ser Platão, Confúcio e Buda. A filosofia também é busca e a grande especulação da antiguidade tinha chegado em perguntas que não conseguiam responder. Os sábios do oriente, em seu caminho, encontraram também a resposta naquela manjedoura. E se admiraram com algo bem diferente do que imaginavam, mas que reconheceram como realidade. É bom repetir este ponto: diante da verdade, os sábios do oriente se ajoelharam.

A terceira visita é pouco lembrada, até porque nunca aconteceu. O grande problema é que poderia ter acontecido. Além de pastores e sábios, outros elementos do mundo antigo perceberam o que estava acontecendo, são eles os demônios. Coube a um deles, chamado Herodes, tentar encontrar este invasor. Não conseguindo, fez o que se espera de um demônio, mandou matar os recém-nascidos porque há sempre uma luta contra a infância por parte destas almas caídas. Herodes intuiu muito bem que aquela criança não viera para negociar a paz, mas para reconquistar um reino.

É disso que também se trata o natal. O início de uma rebelião contra as trevas, pois é a única forma de reestabelecer um reino destituído. Jesus nasceu e morreu fora da cidade, mostrando claramente que não pertence a este mundo, mas o ama o suficiente para sofrer por ele.

Uma observação fortuita sobre a pandemia

Outro dia, em um almoço, uma conhecida, dentista, comentou com minha esposa que seu faturamento tinha subido este ano em relação ao anterior. Fiquei intrigado pois um outro conhecido, também dentista, que possui uma clínica, teve seu movimento reduzido para mais da metade, além de ter ficado fechado por algumas semanas. Como seria isso possível? Qual a diferença?

Lembrei que as duas clínicas tinham um perfil bastante distinto. A primeira, da conhecida, fica no Gama e é voltada principalmente para a população de baixa renda. A segunda clínica, em Sobradinho, atende mais o perfil de classe média alta. Pode ser um indicador que as pessoas de baixa renda tocaram normalmente suas vidas durante a pandemia, enquanto que as de melhor condição, como era de se esperar, tomaram seus cuidados e se isolaram em casa, evitando sair mesmo que para o dentista.

Uma questão então me ocorreu. Há uma animosidade de parte da população em relação aqueles que estão desrespeitando as orientações das autoridades sanitárias, especialmente nos municípios, de distanciamento social. Mas quem exatamente está reclamando e quem está desrespeitando? Por este caso que acabei de narrar, os brasileiros irresponsáveis seriam justamente os mais pobres, para horror da classe média alta. Será?

É curioso que justamente as pessoas que mais aproveitavam as maravilhas da vida moderna, restaurantes, bares, viagens, sejam justamente os que mais se privaram destas delícias. Não estou aqui discutindo se com ou sem razão, se deveríamos ficar em casa ou não, mas que parece claro que foram elas que mais obedeceram estas recomendações. Nada de ir ao shopping, restaurantes ou aquela sonhada viagem de férias, especialmente para o exterior. Já seria o suficiente para deixá-las de mal humor.

Mas eis que passam a ver pelo noticiário que as pessoas mais humildes estão fazendo tudo que elas se privaram. Os bares da periferia estão cheios, shoppings lotados, comércio na 25 de março bombando e agora, pasmem, aeroportos lotados. O que esta gente pensa que é? Como ousam? Enquanto tomo meu vinho Catena em casa fazendo selfie, tem gente irresponsável tomando Brahma em buteco e comendo torresminho!

Estarei exagerando em pensar que parte, eu digo parte, da revolta dos virtuosos é pura inveja de quem não quis fazer o mesmo sacrifício que eles fizeram? Quem tem um fundo de esnobismo nessa revolta toda? Não vou firmar posição aqui, mas fico, sinceramente, com esta sensação.

O Papagaio e o Executivo

Um executivo, que tinha medo de voar, pediu para aeromoça um copo de água para se acalmar.

Passaram 15 minutos e nada. Ao seu lado, viajava um papagaio, que mal humorado pediu uma dose de whiskey, sendo prontamente atendido.

Novamente, pediu educadamente um copo de água.

O papagaio novamente, com ofensas, pediu mais gelo para sua bebida. Rapidamente a aeromoça providenciou seu pedido.

Finalmente, o executivo se irritou:

__ Escuta aqui, sua idiota, me traga esse copo de água agora! Incompetente!

A aeromoça se irritou e foi no comandante, reclamando de dois passageiros que a tratavam mal.

O comandante mandou que atirasse os dois pela porta da aeronave.

Enquanto caia, o executivo percebeu o papagaio que voava tranquilamente ao seu lado.

__ Para quem não sabe voar, você é bem folgado!

Moral da estória: quem não tem asas, não fala o que quer.

Os 4 filósofos que moldaram 2020

Sabem aquela estória que filosofia não tem utilidade prática, que só trata de abstrações?

Pois o Bispo Barron nos dá uma AULA sobre como a filosofia é importante ao mostrar como se leva gerações para que idéias que poucos leram de fato terminam moldando o comportamento da maior parte das pessoas gerações depois.

Sabem o caos dos protestos nos EUA e Europa? Podem ser rastreados até chegar em 4 filósofos, dois alemães do século XIX e dois franceses do século XX. Estamos falando de Marx, Nitzsche, Sartre e Foucault.

Ainda escrevo um resumo deste vídeo:

Covid: a briga é por ter razão

O debate público sobre o covid é uma miséria só. Vejo muita pouca gente tentando entender o fenômeno e tirar conclusões razoáveis sobre ele. O que sobra, o tempo todo, é uma briga insana para mostrar que tem razão.

Em uma situação normal, diante de um fenômeno novo, a pessoa forma uma primeira opinião, geralmente falha em muitos aspectos pela falta de informações, preconceitos pessoais, idéias pré-concebidas. Como tempo, diante dos fatos, e das posições contrárias, esta opinião vai sendo reformulada e depurada dos erros. Pelo menos era esta a concepção de Sócrates sobre a filosofia.

Só que o inimigo aqui é o mesmo da antiga Grécia, os philodoxos, os amantes da opinião. Nesta deformação, tão comum dos dias de hoje, as pessoas se apaixonam pela própria opinião e passam a defendê-la, custe o que custar. Não querem saber a verdade, mas estarem certas, pois satisfazer o próprio ego é o que importa.

O resultado é este estado miserável de debate, especialmente na mídia. Todos querem dizer que sempre tiveram a razão e de nada adianta um debate nestas condições. Cada vez mais temos opiniões divergente, acusações de lado a lado, e uma insegurança na forma de tratar o covid que chega a ser criminoso. Quem perde são as pessoas comuns, que ficam reféns destes vaidosos. Isso sem contar os que estão ganhando bastante dinheiro com o pânico que se instalou.

Tudo isso me entristece bastante.

Temor a Deus: um esboço

Por muito tempo tive dificuldade em entender a insistência no antigo testamento em temer a Deus. Como ter medo de um Deus que é amor? Isso não fazia sentido.

A paternidade nos ensina muitas coisas. Uma delas é que não existimos para agradar nossos filhos, para sermos amiguinhos no sentido de coleguismo. Uma pai ou mãe é amigo de seus filhos quando age com responsabilidade, impondo limites e sim, exercendo a punição quando preciso.

Quantas vezes em minha infância fiz algo errado e imediatamente tive medo de ser pego por um dos meus pais? Foi a partir destas recordações que entendi. Eu tive medo de meus pais não por eles serem pessoas ruins, longe disso, mas deles perceberem como eu era falho. Essa era a essência do temor aos meus pais. Nunca deixei de amá-los quando castigado, mesmo que por vezes fosse uma injustiça. O temer normal que os filhos sentem em relação aos pais também é um reconhecimento da autoridade, da percepção que eles sabem mais.

O mesmo acontece em relação a Deus. Temos medo de que Deus, vendo nossos pecados, não nos perdoe. O antigo testamento diz claramente que o temor a Deus é o principio da sabedoria. Vejo isso como o primeiro passo, a humildade em nosso coração. Começamos nossa obediência pelo medo do castigo, só então começamos a compreender que aquelas regras tem uma razão de ser e entramos no amor de Deus. Não podemos iniciar pelo Novo Testamento; precisamos passar pelo antigo.

Qualquer pessoa normal na minha idade olha para o passado e entende porque nossos pais fizeram certas coisas e somos gratos. Eles foram responsáveis e nos ajudaram a sermos pessoas melhores. O mesmo acontece em relação a Deus. À medida que vamos compreendendo, e esta estrada é infinita, aprendemos a amá-Lo. Eva é a representação do que acontece quando não O tememos. Nos tornamos soberbos e queremos ser deuses. Queremos comer o fruto da árvore do bem e do mal, ou seja, queremos definir o que é bem, avocando uma prerrogativa divina. O amor começa pela obediência e não pela revolta.

A partir dessas idéias gerais, comecei a entender porque temos que temer a Deus. Não é para evitarmos de amá-Lo, mas justamente para conseguirmos fazê-lo.

Leituras de Natal: O Homem Eterno (Chesterton): Capítulo 8

Série Leituras de Natal.

Todo sábado e domingo, um capítulo de O Homem Eterno, de Chesterton.

Capítulo 8: O Fim do Mundo

No capítulo 7, Chesterton descreveu como a melhor forma de paganismo (Roma) venceu a pior (Cartago).

O Império Romano foi a união de todos os paganismos em uma civilização universal. O grande problema é que a mitologia é o devaneio de uma mente jovem, uma relação um tanto infantil com a realidade. Quando o homem se torna realmente maduro, percebe que tudo era uma estranha ilusão e passa a buscar respostas verdadeiras, ou seja, uma religião.

Por isso mitologias não são teologia e, portanto, não são religiões. O que aconteceu depois da consolidação de Roma é que esta civilização foi perdendo seu contato com terra, sua origem pastoril, para se urbanizar e formar as plebes. Uma característica da mitologia é que, ao contrário do que pensam alguns, sua origem não é erótica, mas sim seu final. Ela tende a se tornar perversa no final, quando as pessoas começam a se cansar e se tornam pessimistas.

O declínio de Roma, e de todo paganismo, acontece quando as pessoas começam a se cansar desta perversidade. A plebe romana começou a se revoltar contra o abuso dos patrícios, algo que nunca ocorreria em Cartago. A decadência do paganismo era como um fim do mundo que nunca chegava. E foi só então que aconteceu algo realmente extraordinário.

Surgiu, vindo do oriente, uma estranha seita. A antiguidade era acostumada a todas estas seitas malucas, então uma que dizia que Deus estava morto e por isso podiam comer de seu corpo e beber seu sangue, não teria nada demais. Só que a atitude destes seguidores, formados por gente muito pobre, homens e mulheres, era diferente. Eles eram solenes e alegres ao mesmo tempo. Eram muito sério nesta crença e não hesitavam em morrer pelo que acreditavam. Em pouco tempo foram crescendo a ponto de se tornar algo realmente novo na história humana. E com este novo surge o ódio à Igreja de Deus.