Nota do PPS

O PPS se posicionou à favor da liberação do aborto. Está em seu direito e aplaudo por assumir sua posição. Todos os partidos políticos deveriam seguir o exemplo. Mas não posso deixar de comentar a nota do partido.

Primeiro o partido considerou uma “interferência indevida da igreja nos assuntos do Estado” a decisão de excomungar os políticos mexicanos que votaram a favor do aborto no parlamento daquele país.

Não é. A excomunhão não tem nada a ver com estado. É uma questão interna da Igreja e da fé católica. Nenhum direito civil dos parlamentares mexicanos está ameaçado. Segundo o dicionário Houaiss a excomunhão é a “penalidade da Igreja católica que consiste em excluir alguém da totalidade ou de parte dos bens espirituais comuns aos fiéis“. A Igreja considera que a posição contrária ao aborto é um bem espiritual que deve ser seguido por seus fiéis. Como líder religioso o Papa pode excomungar quem não esteja de acordo. Ninguém é obrigado a ser católico, é porque quer. Observem que a excomunhão nem exclui uma pessoa da Igreja, apenas atesta que ela não segue em parte ou na totalidade um bem espiritual comum.

Uma parte do texto diz o seguinte:

“Para o PPS, bem como para grande parte da população brasileira, soou estranha a declaração do papa de condenação aos que pretendem abolir a legislação punitiva ao aborto, chegando ao ponto de admitir a excomunhão de políticos que votarem pela sua legislação”

Primeiro esse “grande parte da população brasileira”, da onde o partido tirou isso? Duvido que chegue a 5% da população os que sabem desta excomunhão. E olhe lá. Vai ver que este grande parte é a meia dúzia que se reuniu para fazer esta nota.

O partido saúda a visita do papa, “que traz conforto espiritual a milhões de católicos brasileiros“, mas alerta que isso não pode trazer prejuízos às “conquistas humanistas seculares” do povo brasileiro.

Agora embolou tudo. Mais uma vez o aborto é referido como um avanço “humanista” da sociedade. Mas o delírio do PPS é ainda maior, é uma “conquista humanista secular” do povo brasileiro. Acho que acordei no país errado. A maioria da população brasileira é contra o aborto, que conquista secular é esta?

O que fico intrigado é que reconheço que existem bons argumentos para defender a liberação do aborto, apesar de não concordar com eles. Se a estratégia é abrir guerra contra a Igreja e apoiado em opiniões deste nível, vou até dormir tranqüilo pois não aprovam o aborto num plebiscito nem por milagre.

E olha que milagreiro no Brasil tem muito…

Números

Temporão voltou a falar do número mágico de 1,1 milhões de abortos segundo um instituto americano. Também já tratei aqui no blog, o instituto é no mínimo suspeito já que é ligada a uma rede de clínicas de aborto. Só que o ministro acrescenta que este número seja 5 vezes maior. Da onde esse pessoal tira esses números? Se ele dispões de estatísticas levantadas que o divulgue como deve ser feito e não fique chutando números.

Uma Lástima

O governo brasileiro está fazendo tudo o que pode para transformar a visita do papa em um espetáculo de grosseria e vulgaridade. Só não consegue porque do outro lado existe um homem que se preparou e estudou durante toda sua vida para exercer a sua função.

Coube ao Ministro da Saúde o papelão maior até aqui. Já comentei neste blog de sua entrevista no Roda Vida. Nela saiu-se muito bem, apesar de não ter concordado com seus argumentos em defesa da “discussão” sobre a legalidade do aborto.

Por que “discussão” está entre aspas? Porque ao ler o JB de ontem fiquei estarrecido com a idéia que Temporão tem deste debate.

Para início de conversa foi taxativo. O aborto não é questão que envolva filosofia e religião, é saúde pública. Então estamos gastando dinheiro sem necessidade. Dengue? Taca fogo! Um bom incêndio controlado resolve qualquer epidemia como provaram os europeus na Idade Média. Resolve o problema de saúde. É claro que vão morrer alguns milhares ou milhões, mas isto é questão de filosofia. Ou de religião.

Depois ainda sai com mais uma pérola. A discussão é machista. Disse que se homem engravidasse o problema já estaria resolvido. É um dos piores argumentos que já escutei em toda minha vida sobre o assunto. E vindo de um ministro de estado, devidamente preparado para o cargo, é mais revoltante ainda. Tem mil maneiras melhores de defender o aborto como um direito de escolha da mulher do que usando um palavreado de bar da esquina como este. Nenhum dos mil convenceu-me até hoje que um ser humano pode ter direito de escolha sobre a vida de outro.

Por fim resolveu, no dia da chegada do papa, criticar a decisão de Bento XVI de apoiar os bispos mexicanos que excomungaram políticos daquele país que lutam pelo direito de abortar. Alguém deve lembrar ao prezado ministro que trata-se de um chefe de estado, e um ministro criticar suas decisões durante uma visita oficial é uma grosseria diplomática sem tamanho. Não vejo o governo brasileiro criticar Fidel Castro nem de longe, quanto mais em visita. E olha que o ditador cubano faz aborto de seres humanos na idade adulta!

Por fim, na conversa oficial entre os dois chefes de estado o presidente levou a primeira companheira. Não lembro de ter visto o nome desta mulher na cédula eleitoral. Educadamente, o papa comentou que este fato é inédito em sua vida. Uma coisa que aprendi a duras penas é que quase tudo (e estou sendo bondoso) que é inédito por aqui não costuma ser boa coisa. É claro que tratava-se de um troco do presidente brasileiro pela audácia do papa em defender a posição da igreja em sua chegada ao Brasil. E isto de um homem que diz que pessoalmente sempre foi contra o aborto…

Quer saber? Está mais do que na hora do parlamento brasileiro aprovar um plebiscito sobre o tema. Quero ver essa gente na televisão. Quero ver a cara de Temporão, Lula, e tantos outros na telinha defendendo suas posições. E deixem a população expressar a sua. Aproveitem as eleições municipais do próximo ano. Só não vale pergunta manipulada.

Primeiras palavras do papa

Há algum tempo que tenho reparado no medo que nossos políticos têm de assumir uma posição pública sobre qualquer assunto polêmico. Semanas atrás, ao ser questionado, o Ministro da Saúde recusou-se a assumir uma posição na questão do aborto. Apesar de argumentar sempre a favor, recusou-se a posicionar-se desta forma.

O próprio Geraldo Alckmin, candidato da oposição, recusou-se a tomar partido na mesma discussão durante a campanha eleitoral. Não tinha motivos para isso. Todos sabem que é um fervoroso católico. Mas os marketing político diz que não se deve assumir posição nestas horas. Todos têm medo dos “progressistas”. Sim, pois esta questão já foi associada ao progressismo. Ser a favor da legalização do aborto é ser um ser superior na humanidade.

Nas últimas eleições americanas o candidato democrata também posicionou-se em cima do muro. Disse que como pessoa tinha uma posição mas como futuro presidente tinha outra. Bush, com todos os seus defeitos, foi firme. Disse que era a favor. Isso vindo de um republicano, e não é qualquer um! As pesquisas indicaram que foi um dos seus melhores momentos do debate. Mesmo não concordando com a posição de seu presidente, os americanos reconhecem sempre a coragem de se posicionar em temas polêmicos.

O nosso presidente saiu-se da mesma maneira que o candidato derrotado nos Estados Unidos. Disse que como pessoa sempre foi contra, mas como presidente tinha que pensar na questão da saúde pública e posicionou-se a favor. Não sei como alguém pode ter um moral mutante, para cada tipo de ocasião. Maquiavel defendia que o governante não estava obrigado a seguir a moral comum. Teria seus próprios parâmetros morais.

Criou-se então uma saia justa para a chegada do papa. Um ambiente para forçá-lo a não tocar no assunto e não contrariar nosso monarca. Pois vejam o que disse o papa logo na chegada:

Estou muito feliz por poder passar alguns dias com os brasileiros. Sei que a alma deste povo, bem como de toda a América Latina, conserva valores radicalmente cristãos que jamais serão cancelados. E estou certo que em Aparecida, durante a Conferência Geral do Episcopado, será reforçada tal identidade, ao promover o respeito pela vida, desde a sua concepção até o seu natural declínio, como exigência própria da natureza humana; fará também da promoção da pessoa humana o eixo da solidariedade, especialmente com os pobres e desamparados.

O respeito que tenho pelas pessoas públicas sempre aumenta quando vejo assumirem posições firmes. Posso não concordar com elas, mas as respeito. Bento XVI em uma frase falou para quem quis escutar. A Igreja Católica é contra o aborto e a eutanásia. Mas o que mais deixa os progressistas revoltados é o trecho seguinte:

A Igreja quer apenas indicar os valores morais de cada situação e formar os cidadãos para que possam decidir consciente e livremente; neste sentido, não deixará de insistir no empenho que deverá ser dado para assegurar o fortalecimento da família…

O papa insiste que a posição de sua Igreja é de norte moral, mas a decisão de seguir os preceitos de sua fé é um ato consciente e livre. E isso irrita profundamente nossos progressistas. Muitos defendem que estas questões não dependem da vontade da pessoa, como disse nosso guia: o sexo é uma necessidade natural do indivíduo. Assim como o crime é quase uma culpa da vitima. O criminoso normalmente é um pobre coitado que foi oprimido pela sociedade cruel.

Pois o papa entende que nós fazemos nossas escolhas morais, e que devemos arcar com as conseqüências delas. O que estou de pleno acordo. E torço para que nossos políticos tomem posições firmes sobre o que acreditam. Posso discordar, mas sem dúvida vou respeitá-los um pouco mais.

Blog do Cláudio Humberto:

Os diplomatas estão envergonhados com a subserviência do governo Lula ao da Bolívia, que ameaça expulsar 35 mil famílias brasileiras da região de fronteira. Em vez de ameaçar com a expulsão de bolivianos que vivem no País ilegalmente, o secretário-geral Samuel Pinheiro Guimarães enviou a La Paz o embaixador Oto Agripino Maia, entre 23 e 27 de abril, para pedir que a expulsão das famílias se faça de forma “humana, ordenada e cooperativa”. A expressão está em comunicado distribuído pelo Itamaraty às embaixadas, destacando que o governo brasileiro também “registrou o acatamento irrestrito da soberania boliviana e dos seus mandamentos”. Oto Maia, que tem ótimo conceito entre os colegas, mas se submeteu a esse triste papel, é subsecretário-geral das Comunidades Brasileiras no Exterior.

Pois é. E a imprensa em geral considerou Lula como um gênio das relações internacionais pela forma equilibrada e responsável como tratou a Bolívia. É muito fácil evitar conflitos quando se cede a todas as exigências. O grande problema é que além de contrariar os interesses nacionais, cria uma expectativa por novas pressões. Cria-se um ciclo. Como acreano só tenho um medo: que Morales resolva exigir o meu estado de volta. Por que se exigir…

Eleições na França

A França vai hoje às urnas eleger seu novo presidente. A disputa está entre Sarkozy, representando a direita, e Royal a esquerda. O comparecimento do primeiro turno foi de 85% mostrando que quando os candidatos conseguem despertar o interesse do eleitor, não precisa obrigá-lo a comparecer. O que dizer de nosso sistema que mesmo com o estado empurrando não chegou a este comparecimento?

A reportagem do Globo é dessas peças freqüentes da mídia engajada, o que fica patente nas opiniões dos franceses retratadas na matéria. São três opiniões à favor de Royal acentuando seu caráter humanista e duas pró Sarkosky, só que defendendo-o com argumentos machistas ou reacionários, como se todo o eleitor francês que vote nele seja por estes dois motivos.

E dentre estes três chamou-me a atenção a de um ’empresário’ que se diz eleitor histórico da direita e que passou a votar na esquerda ao conhecer o… Brasil! Segundo ele o que viu nas terras tupiniquins o encheu de revolta contra os efeitos do… liberalismo!

Ora, se tem uma coisa que nunca deu as caras por aqui foi justamente o liberalismo. Como pode ser classificado de liberal um modelo em que o estado tunga anualmente 50% do que é produzido no país e se mete até na educação sexual que os pais dão a seus filhos?

Só faltou a Heloísa Helena falando do modelo neo-liberal de FHC e Lula…

Teoria Geral do Estado

Brilhante artigo de João Ubaldo Ribeiro no Globo de hoje intitulado Teoria Geral do Estado. Faz uma análise crua do estado brasileiro atual.

Começa afirmando que o atual presidente “encarna uma perigosíssima combinação de inteligência, esperteza e ignorância, ruim para ele e péssima para nós“.

Ubaldo questiona se não seria nosso modelo de estado totalitário na medida que intervém em tudo, desde nos forçar a votar para um governo que só se respeita por conveniência, a nos ensinar a falar a própria língua?

Não, afirma. Somos mais complexos. “O fato humilhante de que nos (des)governam por Medidas Provisórias e por uma burocracia diabólica, nos aproxima do totalitarismo.” Acrescenta que é de convicção geral que se rouba em todas as áreas de atividade no Brasil, e nisso inclui além das altas autoridades, as pessoas comuns que por exemplo, que colocam valor alterado na nota fiscal do almoço para tungar a empresa para qual trabalha.

Segundo Ubaldo somos um híbrido ainda não sedimentado. Existe um estado úbere, onde “mamam bacorinhos selecionados, cada um com um bocão maior do que o outro.” Temos um estado saco-sem-fundo no qual contribuem os que pagam impostos.

E aí que vem a sua crueza. Ao contrário do que se acredita, os barões não pagam impostos, repassam. E também “ao contrário do que se julga, os que recebem bolsa família e outras caridades apenas pensam que mamam, porque estão pagando impostos em tudo que compram e o resto é pago não pelos barões, mas por eles mesmos…

A transferência de renda que existe é da classe média que “no dizer de alguns compositores, jornalistas e palpiteiros gerais, devia ser toda fuzilada” para o governo entrando na classe dos pseudo-mamantes.

E conclui que o nosso modelo de estado é o estado úbere e o estado esmoler.Alerta para o perigo de um plebiscito juntamente com o bolsa-família nos levar a um imperador, o maior desde Nabucodonossor.

ps: se você não sabe o que úbere, eu também não sabia. Depois de uma consulta ao dicionário: abundante, fecundo.