I, Tonya

Finalmente assisti o filme que conta a história de Tonya Harding, a patinadora americana que se envolveu em um atentado que resultou em quebrar o joelho de Nancy Kerrigan, sua rival.

Lembro dos acontecimentos na época, mas nunca me interessei muito nos detalhes. O filme é baseado em depoimentos dos envolvidos no que chamam de “incidente”: Tonya, o ex-marido Jeff, o amigo idiota Shawn, a mão dela e outros personagens mais secundários. Apesar de basear em depoimentos, ou talvez por causa disso, o filme deixa a dúvida na extensão do envolvimento de Tonya no episódio. O que resta claro é a responsabilidade de ter se envolvido com  a figura abusiva de Jeff. Será sempre um mistério como muitas mulheres continuam em relacionamentos destrutivos como ela se permitiu, sempre na esperança que a pessoa vai mudar.

Um bom filme, que usa bem o recurso de misturara narração com os próprios atores simulando as entrevistas, o que confere um ar de realismo ao drama mostrado. Fiquei lembrando um periscope que vi com Scott Adams em que ele questiona a importância da família argumentando que basta um dos pais serem ruins para arruinar a vida de uma pessoa. É o que acontece com Tonya.

Baby Doll (1956): retrato da modernidade

Ontem assisti Baby Doll (1956), dirigido por Elia Kazan e texto do Tennessee Williams. Três personagens fascinantes, retratos do mundo moderno.

Um homem fraco, constantemente humilhado, que perde o controle sobre seu destino por falta de capacidade pessoal para lidar com a modernização. Um posso de ressentimento que encontra no uso a violência sua válvula de escape.

Uma mulher que se recusa a crescer e acha que pode brincar de boneca a vida inteira. Ao finalmente encontrar uma adversário que se recusa a fazer seu jogo tem a oportunidade de enfim amadurecer.

Um homem racional, produto da modernidade, mas que diante da incapacidade do estado não pensa duas vezes em assumir a justiça nas próprias mãos. Falta-lhe piedade e empatia para lidar com o mundo.

Um panorama sobre a ruptura de uma antiga ordem para emergência de uma nova, de natureza científica mas desprovida de laços de amizade que constroem uma sociedade.

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Dica da Semana: What Happened to Monday?

mondayFiquei bem impressionado com essa produção original NETFLIX (Onde Está Segunda?, 2017). Trata-se de uma distopia. O mundo está superpovoado e uma mutação devido a manipulação de alimentos provoca um surto de nascimento de múltiplos gêmeos. A solução é instituir um programa de filhos únicos em que os demais irmão são congelados para que os cientistas resolvam o problema de alimentação e eles sejam descongelados no futuro, com o problema resolvido.

Acho impressionante como o fantasma malthusiano continua a assombrar muita gente e volta e meia surja um filme que trata do problema populacional. Confesso que quando viajo de avião, só vejo uma imensidão de espaços vazios, mesmo passando pelo Estado de São Paulo. Talvez o fato de grande parte do mundo ocidental estar vivendo em grandes cidades explique a sensação de um mundo super povoado.

De qualquer forma, o filme é muito bem feito, com grande dose de tensão ao mostrar a luta de sete irmãs gêmeas que conseguem a proeza de chegar aos 30 anos como se fossem uma só. O segrego é que cada dia da semana, só uma pode circular enquanto as demais ficam escondidas no apartamento. Só que algo dá errado e Segunda (cada uma tem um nome da semana) não retorna. Sem saber o que aconteceu, as demais começam a descifrar o enigma.

Sistemas totalitários se constroem com a destruição de laços de solidariedade construídos historicamente, como a família. Não é diferente neste filme, onde a união das irmãs é sua força contra o Estado, e a desunião sua fraqueza. Assistam e descubram o que aconteceu com Segunda.

Cinco motivos para assistir The Good Place

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Terminei a segunda temporada da série The Good Place, do Netflix. Próxima só será lançada em outubro. Por que assistir esta série? Eis meus cinco motivos:

  1. A base da série é a filosofia moral. E sim, pode ser bem divertido.
  2. Reflexões sobre o bem e o mal? Céu e o inferno? Aqui tem uma boa metafísica também.
  3. Reviravoltas. Várias. Melhor ainda se não tentar advinhá-las e se deixar surpreender.
  4. Crítica da cultura pop com piadas inspiradíssimas e sem apelação. Sutileza é o tom.
  5. Personagens memoráveis. E a volta em grande estilo do Ted Danson.

Thanos e seu simbolismo

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Apesar do título fazer referência aos Vingadores, Guerra Infinita é um filme sobre Thanos, o vilão cósmico que deseja eliminar metade das criaturas vivas pois acredita que o universo está desequilibrado, sem recursos para sustentar uma população tão grande, uma espécie de Malthusianismo cósmico. Ele acredita na racionalidade de sua solução e se coloca como aquele que tem coragem suficiente para implementá-la. Na maioria das vezes é simpático, bem articulado e sempre fala em nome do universo. Não surpreende que muitos o considerem interessante, que seu discurso “faz sentido”, pois ele ecoa, em muito, aqueles que tem o mundo como idéia, ou seja, que acham que o mundo é aquilo que acreditam ser, um produto de suas imaginações e não a realidade que se impõe.

Thanos é um símbolo de uma mentalidade que tomou conta do mundo a partir da modernidade, mas que encontra sua raiz nos movimentos gnósticos quem marcaram os primeiros séculos do cristianismo. Reduzindo bastante, o gnosticismo acredita que o mundo é uma criação imperfeita e tomada pelo mal. O homem é prisioneiro neste mundo e pode transformá-lo em um paraíso, bastando para isso o conhecimento de seus mecanismos. O gnosticismo foi considerado herético pela Igreja pois, na prática, nega a queda do homem. O mundo não seria um problema por causa do uso que o homem fez dele, mas porque foi criado de maneira imperfeita por Deus. A Igreja entendeu que o gnóstico queria simplesmente tomar o lugar de Deus para corrigir a criação.

Este é justamente o núcleo da motivação de Thanos. Thor percebeu muito bem e no início do filme diz a ele: você nunca será um deus. Mesmo concentrando todo o poder do universos, como o titã louco quer fazer, seu pensamento se baseia na maior ilusão de todas, o de tomar o trono de Deus. Essa mentalidade, que tanto anima as ideologias da modernidade, só é capaz de gerar o inferno, com muito sofrimento humano. “Mas as mortes são aleatórias, não distingue ricos e pobres!” dizem aqueles que justificam tudo em nome do igualitarismo. O filme acerta até nisso, pois como mostrou a experiência totalitária, o poder absoluto leva ao mal aleatório. Ninguém sabia quem Stálin mandaria matar a seguir. Poderia ser seu maior inimigo ou seu maior amigo. A morte se torna impessoal e por isso mesmo, aleatória.

Os heróis da marvel sabem que o homem é imperfeito e não possuem ilusões de um paraíso terreno. Tudo o que querem é lutar contra o mal, evitar ao máximo seu efeito destruidor. Para isso estão dispostos a qualquer sacrifício, como ir para o planeta de Thanos para evitar que a guerra se travasse na Terra. São humanos, e falhos. Por vezes deixam se levar pela hybris, como acontece com Peter Quin, o Starlord, e pagam caro por isso. Erram, sofrem, buscam a redenção. Essa é a epopéia de qualquer herói e por isso funcionam tão bem. No entanto, possuem um ponto em comum, recusam o pensamento utilitarista. Não aceitam trocar uma vida por milhões pois sabem que cada vida é um valor em si mesmo e aceitar uma troca destas significaria perder a alma, algo muito mais valioso do que a vida. Por isso Visão tem que viver; por isso o Doutor Estranho troca sua jóia pela vida de Tony Stark, que mal conhece.

Guerra Infinita apresenta o maior vilão da Marvel, alguém que representa o caos ordenado, o assassinato levado por uma mente fria e calculista, com pretensões científicas. Enfim, a mentalidade revolucionária de origem gnóstica. Não acredito que possa ser representado inteiramente por uma pessoa, mas seus traços estão presentes em gente e instituições que mostram uma máscara humanitária, de preocupação com o mundo, que precisa ser corrigido, mas que haverá um pequeno custo a pagar. Um custo que não será pago por eles, mas por nós que não acreditamos em suas pregações. Geralmente com nosso sangue pois o deles é precioso demais.

A Segunda Realidade em Hollywood: Florence Foster Jenkins

A Segunda Realidade em Hollywood: Florence Foster Jenkins

Não é segredo  que a vitória de Trump nas eleições de 2016 foi um duro golpe para Hollywood. Da mesma forma que no jornalismo e na academia, a desproporção em favor dos liberais (como os americanos chamam a esquerda) é muito mais acentuada lá do que na média da população. O ator Mark Wahlberg, uma exceção, disse ano passado que Hollywood vivia numa bolha e não tinha noção da realidade do país. Mas, é verdade? Vive realmente Hollywood em uma bolha? Vive uma realidade à parte?

Eric Voegelin e a segunda realidade

O cientista político Eric Voegelin (1901-1985) estudou a fundo o problema da segunda realidade, tomando emprestado um termo criado pelo romancista Robert Musil. Ele identificou o fenômeno em que determinadas pessoas, incapazes de aceitar o mundo em que viviam, seja por revolta ou por tédio, criavam um mundo paralelo baseado em algumas premissas simples, que não poderiam ser contestadas. Peço ao prezado leitor que repare no termo tédio. Voltaremos a ele, em breve.

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Eric Voegelin

O mundo, tal como se apresenta, é a segunda realidade. As pessoas que não conseguem aceitá-lo sobrem de uma doença no nível espiritual, uma doença da alma (pneumopatologia). São doenças que não podem ser tratadas como psicológicas. O método de fazer a pessoa aceitar sua situação real pode ter consequências trágicas, como se verá.

 

O doente escolhe ou cria uma segunda realidade para viver, normalmente mais excitante e que confere um sentido a sua existência. Este fenômeno foi muito melhor descrito na literatura do que por cientistas sociais, que em geral não conseguem enxergar as coisas do espírito. Assim temos obras como O Homem Revoltado, de Camus, o Julien Sorel de O Vermelho e o Negro, e Raskolnikov em Crime e Castigo. Todos exemplos de segunda realidade. Mas é em Dom Quixote que Voegelin mostra o mecanismo em ação.

A Segunda Realidade em Dom Quixote

Don Quixote, entediado com o mundo em que vivia, criou uma segunda realidade em que é um cavaleiro andante. Sancho Pança, seu fiel escudeiro, vive na primeira realidade e enxerga os moinhos de vento enquanto Don Quixote vê gigantes. Sancho tenta fazer uma mediação entre as duas realidade, sem muito sucesso.

donquijoteysanchoEm uma de suas expedições, Don Quixote vai parar em uma corte, onde já sabem quem ele é. Esta corte, entediada, resolve participar do jogo e finge acreditar que ele realmente é um cavaleiro famoso. Ou seja, ela mergulha nas segunda realidade. Um estranho fenômeno então ocorre; a corte se diverte tanto com a segunda realidade que tem cada vez menos desejo de retornar à primeira. Ela mesma começa a acreditar na estória que criou.

A rendição à segunda realidade é simbolizada também pelo próprio Sancho, que acaba por acreditar nas recompensas prometidas por Dom Quixote, como ser governador de uma ilha. Ele descobre que acreditar na segunda realidade é muito mais interessante que viver na primeira.

Então temos o cura. O despropósito de Dom Quixote o atinge pessoalmente. Ao mesmo tempo que consegue ver corretamente a loucura do cavaleiro, falta-lhe a compaixão necessária para lidar com a situação. Como o irmão do filho pródigo, quer ter razão e provar seu ponto. Ele não aceita a felicidade de Dom Quixote e não descansa até mostrar a ele sua loucura. O cura age como o psicólogo moderno, tentando fazer o doente tomar consciência de sua situação. O problema é que a doença é espiritual, algo muito além da ocupação do nosso bom médico.

Dom Quixote finalmente aceita a realidade, mas cai em profunda melancolia e morre. O retorno à primeira realidade não resolveu o problema que o fez negar o mundo na primeira vez. Temos então, na pena de Cervantes, os tipo: Dom Quixote, Sancho, a corte, o cura. Voltemos a Hollywood.

Florence Foster Jenkins

O filme de Stephen Frears conta a estória, baseada em fatos reais, de Florence, uma rica herdeira, patrona da música em New York da primeira metade do século XX. É interpretada por Marylin Streep, um dos símbolos da alienação de Hollywood apontada por Wahlberg.

Apaixonada por música, pianista na infância, ela sofre de sífilis desde os 19 anos, contraída do primeiro marido. Em consequência, perdeu o movimento de uma das mãos e não pode se dedicar ao instrumento, canalizando sua atenção para o patronato. Mas não foi suficiente. Ela toma aulas particulares de canto, sob aplausos de toda uma rede que a protege e a impede de ver sua incrível falta de talento. Há um motivo bem prático para manter a farsa. Ninguém quer que ela se desiluda com a música e feche seu generosos talão de cheques.

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Florence e St Clair

Está criada, então, a segunda realidade, em que Florence é uma talentosa cantora amadora de ópera. Não se trata apenas de interesse financeiro. Como St. Clair, o segundo marido e principal mediador da segunda realidade, afirma ao pianista Cosmo, a vida de Florence é muito mais divertida e excitante. Novamente aparece o tédio como uma das razões para a segunda realidade. Como a corte em Dom Quixote, uma sociedade se forma em torno de Florence, pronta para bajular e aplaudir.

Cosmo é o Sancho Pança da estória. Ele tem perfeita consciência da inadequação da patroa, mas recebe muito bem para manter a farsa. É curioso que ele mesmo é um músico comum, sem talento especial, como exclamam atônitos  os pianistas que aguardavam para um teste em que foram preteridos, sem serem ouvidos, por Cosmo. Florence não só era incapaz de cantar, mas não tinha ouvido para distinguir a boa música da trivial. O mesmo acontecia com a corte que a bajulava.

O padrão se repete. Quanto mais a segunda realidade dura, mas as pessoas acreditam nela. É o que acontece com a loira fútil, que não se aguenta na primeira apresentação de Florence, caindo na gargalhada, mas que aos poucos aceita seu papel e termina condenando o mesmo comportamento  nos soldados que assistem ao espetáculo do Carnegie Hall. A rendição de Sancho se repete em Cosmo, que balbucia após o terrível espetáculo: “eu toquei no Carnegie Hall!”

O cura reaparece como o jornalista do Post, que pretendendo defender a verdade objetiva e faz uma crítica devastadora à Florence e sua corte. Também falta-lhe compaixão e quer apenas ter razão. Ele se julga melhor do que os outros, o que é sempre um grave pecado. Que o cura seja agora um jornalista, mostra a transição da classe intelectual no tempo.

A crítica do jornalista faz Florence retornar à primeira realidade, em que é apenas um velha senhora deformada e sem talento. Como Dom Quixote, ela não suporta a melancolia e morre. O despertar destas pessoas tem consequências trágicas. Como dizia T. S. Eliot, “o homem não é capaz de aceitar tanta realidade“.

Hollywood e o Oscar

O mergulho da segunda realidade de Florence e Dom Quixote se repete em Hollywood e sua corte. Artistas e profissionais do cinema abraçaram a visão liberal do mundo como poucos indivíduos o fazem, e chegam ao extremos de ignorar completamente a realidade econômica, a condição humana e a religiosidade do homem comum. Na segunda realidade de Hollywood, criticar um presidente significa um ato de coragem, milionários defendem o comunismo, abandonar Deus é um progresso e a paz é um problema simples de resolver. Por isso, Wahlberg está certo quando diz que Hollywood perdeu a sintonia com o povo americano. Em sua maioria, atores e diretores, não possuem idéia da realidade do americano comum e só o enxerga por esteriótipos.

89th Academy Awards - Oscars Awards Show

A corte

Tudo isso culmina no Oscar, que é também um mecanismo farsesco de auto-referenciação. Não se premia os melhores, mas uma visão de mundo. Não quer dizer que não vença também filmes conservadores, mas esse conservadorismo tem que estar de alguma forma escondido para que a corte não o perceba. O que, convenhamos, não é muito difícil de fazer levando em conta o nível de compreensão desse pessoal.

 

Hollywood é Florence Foster Jenkins. Ela acha que está representando a américa. Não está e cada vez mais o divórcio é escancarado. Vejam o exemplo de Marylin Streep. Uma atriz talentosa? Sem dúvida!, mas não o suficiente para ter 21 indicações, colocando-a em uma espécie de patamar superior de qualidade, acima de todas as demais. Foi aplaudida de pé no Oscar deste ano. Como Florence e sua corte.

A questão que fica é o que acontecerá ao fim de tudo. Hollywood sobreviverá ao choque de realidade? Terá o mesmo destino de Florence e Dom Quixote? Talvez já esteja acontecendo. Cada vez mais quem realmente tem algo a dizer está migrando para a televisão e a internet. A segunda realidade está se desfazendo e o público das redes sociais seja o novo cura.
Finalizando, fico a pensar se não estamos cometendo o mesmo erro do cura e do repórter. Será que não estamos muito preocupados em ter razão? Será que mais importante do que fazer a pessoas cair na realidade não seria fazê-la ver que a realidade merece ser amada para só então desfazer o feitiço? De que adianta salvar um paciente matando-o?