John Hughes: um clássico da modernidade

Finalmente lancei a primeira parte dos textos que tinha pensado ano passado, escrito uma parte e só agora retomei. Trata-se dos filmes de “adolescentes” do John Hugues, para mim um dos maiores cineastas americanos.

Como pretendo mostrar nos textos, estes filmes foram muito mais que filmes para adolescentes. Foram uma reflexão sobre a modernidade, suas subdivisões e, sobretudo, como encontrar o amor nessa confusão sem sentido.

https://medium.com/@jotaramone/john-hughes-um-cl%C3%A1ssico-da-modernidade-em-6-filmes-47b4f4dd45a0

5 razões porque Beautiful Girls é um dos meus filmes favoritos

Ontem revi, depois de muitos anos, o filme Beautiful Girls, do Ted Damme. Continua um dos meus favoritos. Eis 5 razões:

  1. Assisti em uma época muito especial da minha vida, em que estava tentando reconstruir minha vida depois de um relacionamento que não deu certo. Eu também me perguntava o que eu tinha feito da minha vida.
  2. A cena do Sweet Caroline é brilhante. 4 amigos estão se atacando, lidando com suas frustrações. Chega a Uma Thurman. Música. Magia.
  3. Nunca vou esquecer da frase do Tom: eu estava protegendo minha família. Amigos podem estar do lado errado da história e se tornarem uma massa.
  4. Natalie Portman nunca esteve tão encantadora. A reação dela ao beijo de Willie foi um exemplo.
  5. A trilha sonora é um caso à parte. Sensacional.

Guardiões da Galaxia, volume 2

AVISO: CHEIO DE SPOILER

Uma pena que o James Gun tenha se revelado ser um tipo tão escroto, pois é um cineasta de mão cheia. Seus dois filmes sobre estes heróis improváveis do universo marvel estão entre os melhores do estúdio.

No segundo Guardiões temos os melhores temas da literatura universal: a afirmação do herói e a redenção.

Além isso, temos os temas da amizade, amor e a divindade.

Ego é um deus com d minúsculo, como ele mesmo afirma. Isso é evidente por sua falta de sabedoria e propósito, como vai se tornando evidente. Seu destino é a solidão, ou seja, falta-lhe o principal, a capacidade de amar.

Quill, por sua vez, tem no coração sua força. De que adianta todos os poderes do mundo se não puder amar? Sim, amizade também é conflito, traição, decepção. Mas qual a alternativa? O amor sempre será um risco se dependermos da forma como os outros reagem. O segredo, é se entregar, mesmo se tiver que perder a vida.

É o caminho de Yondu, o da redenção através do sacrifício Ele cometeu um erro terrível na juventude e passou a vida tentando repará-lo, buscando a aceitação dos capitães. Só no fim, percebe que o caminho é o de amar ao limite, dando sua vida pelo outro. Quill não é apenas o filho que criou para a vida e dificuldade, mas o símbolo de todas as crianças que foi cúmplice involuntário de suas mortes.

Gun conseguiu reunir os elementos de grandes dramas humanos na forma leve de um filme de aventura, com muito humor e boas escolhas. Ajuda a resgatar a aventura como o gênero literário mais adequado a retratar os dramas humanos, como defendia tão insistentemente Chesterton.

Footloose: celebração da liberdade de escolher

Esse fim de semana revi um dos filmes da minha adolescência, Footloose. Aproveitei para apresentar à minha filha.

O filme poderia facilmente ter caído nos esteriótipos. Um pastor intolerante, a mocinha rebelde, o garoto que vem de fora ensinar os caipiras. Felizmente foi na direção oposta.

O pastor é mostrado com sensibilidade, como um homem que ama sua família e sua comunidade, e justamente por causa deste amor passa do ponto. Ele comete um dos maiores pecados para alguém em sua posição: ele retira o livre arbítrio das pessoas.

É a grande tentação totalitária. Para que as pessoas não pequem, ele as impede de pecar. Ele constrói uma rede de proteção sobre toda a cidade. O símbolo dessa rede é a proibição de festas e danças.

Além de ser uma violência contra a liberdade, na prática é inútil e perigoso. Ariel, a filha, comete um ato de absoluta irresponsabilidade no início do filme que choca até suas colegas. Aos poucos descobrirmos algo de suicida na menina. Provavelmente terminaria morta em algum acidente, que encobriria sua irresponsabilidade.

O pastor, interpretado brilhantemente por John Lithgow, não é um vilão. Não quer poder e controle; quer apenas que não aconteça com os outros o que aconteceu ao próprio filho. É paciente, bondoso. Mas está perdendo a batalha que não tem como vencer, a batalha pelas almas da cidade.

No fundo, ele quer desfazer a lei divina. Por algum motivo, Deus nos quis livre, inclusive para negá-Lo. Se o próprio Senhor nos deixou livre para pecarmos, como pode um pastor querer nos limitar desta forma?

O ser humano tem sua natureza pervertida pelo pecado original. Tem a tendência ao pecado, mas também tem a graça para ajudá-lo a ser bom. O pastor quer ser a própria graça divina, e isso é impossível.

Felizmente ele entende a tempo que precisa confiar, que a liberdade é um bem preciosos demais porque é base para a própria alegria. Sem liberdade somos taciturnos, tristes, incapazes de amar.

Footloose é um grande filme. Em muitos aspectos. Um deles é nos mostrar o problema de retirar a liberdade, mesmo que seja para seu bem _ ou especialmente se for para o seu bem. Nascemos para sermos livres e a tentação de nos proteger de nós mesmos viola profundamente nossa natureza.

De Volta para o Futuro

Terminei ontem de rever a trilogia De Volta para o Futuro, a segunda melhor do cinema. Sério, é perfeita. Entretenimento feito com esmero, sem ofender a inteligência do espectador. Eu tinha uma imagem da adolescência que a parte III era inferior aos outros dois; besteira, fecha com chave de ouro e conclui a grande lição que Marty McFly aprende a duras penas: não se pode viver preocupado com o que vão achar de você. Querem te chamar de covarde? O problema é de quem chama. Como ele sabiamente conclui: ele é um idiota! Quem importa com o que diz um idiota?

No fundo, a trilogia é uma meditação sobre como fatos aparentemente sem importância, que não damos valor na hora, afetam significativamente nosso futuro. Temos que ter atenção no que realmente importa e ajudar-nos uns aos outros, caso contrário corremos o sério risco de crescermos ressentidos e infelizes, sendo apenas um rascunho do que poderíamos ser. É um filme sobre o potencial das pessoas, que muitas vezes permanece irrealizado, sem transformar-se em ato.

Robert Zemeckis nos brindou com um cinema de aventura de primeira grandeza, lembrando que entretenimento também pode ser arte.

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Bergman, silêncio III

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Semana passada assisti o terceiro filme da trilogia de Bergman sobre o silêncio de Deus. O Silêncio (1963), conta a estória de um dia na vida de duas irmãs, a intelectual Ester e a sensual Ana. Diante de um ataque de bronquite crônica de Ester, elas interrompem uma viagem de trem e se hospedam em um hotel em uma cidade não nominada, que vive a expectativa de uma guerra.

Minhas notas iniciais:

  1. Onde está o silêncio de Deus neste filme? Ao contrário dos dois outros filmes, nenhum das personagens formula indagação sobre Deus.
  2. Talvez a solução esteja no entendimento dos dois primeiros mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo.
  3. Se o foco de Luz de Inverno está na relação direta com Deus, O Silêncio tem seu centro na relação entre as pessoas.
  4. Se o padre encontra o silêncio de Deus talvez por sua incapacidade de se comunicar com as pessoas, a situação aqui parece invertida. As irmãs talvez falhem em se comunicar pela ausência de uma preocupação com Deus. Ambas se entregam a seus ídolos (sexo e vida intelectual).
  5. No fundo, as irmãs são iguais. Só muda o foco da atenção delas. Não sabem lidar com o amor entre elas e tudo vira uma oportunidade para agressão e causar dor.
  6. Quem mais fala no filme é o estranho camareiro, que parece se preocupar genuinamente com o sofrimento de Ester.
  7. O filho de Ana está entediado, pois é ignorado pelas irmãs pela maior parte do tempo. Talvez represente o futuro, que é sempre sacrificado quando nos deixamos levar por nossas intemperanças.
  8. Desta vez o filme não tem uma abertura para alguma otimismo. O destino das irmãs parece fadado à infelicidade. O que fica evidente é a falta de comunicação real entre elas. Mesmo quando conversam, se deixam levar pelo ressentimento e não abrem espaço para um entendimento verdadeiro.
  9. Como no primeiro filme, novamente Bergman sugere a questão do incesto. Por que? O que deseja comunicar?

Bergman, silêncio II

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Assisti o segundo filme da trilogia Silêncio, do Ingmar Bergman. Trata-se de Luz de Inverno (1962). O tema é um dia na vida de um padre que perdeu a fé, e por isso mesmo se torna incapaz de ajudar sua paróquia. O Padre Tomás se angustia com o que ele considera o silêncio de Deus, que não responde suas súplicas. Ele tem um romance com uma professora, motivo de fofoca na pequena cidade em que vive.

Minhas notas:

  1. Por mais que esteja confuso, e seja um pecador, seus sacramentos continuam válidos. É um dos mistérios da Igreja que ela não depende da santidade de seus sacerdotes para prosseguir em sua missão.
  2. Seu coração esvaziado reflete a comunidade ao seu redor ou é o contrário? A Igreja vazia é um símbolo do vazio interior do pobre Tomás.
  3. De todos os personagens, ninguém é mais enfadado com tudo aquilo do que o organista da igreja.
  4. O sacristão deficiente físico, que no início do filme aparece como um incômodo para os demais, no final aparece como o verdadeiro cristão, que a despeito de tudo reflete sobre as escrituras e tenta buscar uma orientação de como interpretá-las corretamente.
  5. O casal que busca auxílio para a depressão do marido com o padre é a representação das pessoas comuns, que sofrem os problemas da existência humana. Recorrendo a platitudes inicialmente, e depois desabafando seus próprios problemas, o padre é incapaz de ajudá-lo.
  6. A esposa é a representação da mulher pragmática, que leva um lar a frente a despeito de todas as dificuldades.
  7. A depressão e o suicídios provocam danos irreparáveis a quem fica. Principalmente os que realmente amam.
  8. Luz de inverno. Ela é rara, mas quando surge ilumina com força. Essa é a metáfora para a resposta de Deus no mundo. Creio que Ele age principalmente através das pessoas. É no outro que vamos encontrar as respostas que procuramos.
  9. Quando Padre Tomás resolve rezar a missa exclusivamente para Marta, que é tratada como ninguém pelo organista, ele se coloca realmente como um instrumento de Deus. Trata-se de um ato de amor.
  10. Não seria a fala do sacristão uma resposta de Deus a Tomás?

Bergman, silêncio

Comecei a ver a famosa trilogia Silêncio, de Ingmar Bergman. Esta semana assisti Através de um Espelho (1961), o primeiro. Minhas primeiras notas:

  1. Que atriz era a Bibi Andersen!
  2. Da mesma forma que Deus não responde, Papa também não conversa com Minus. A última frase de Minus no filme talvez seja a expressão do milagre. O menino fica literalmente iluminado.
  3. Pobre Martim. Ama realmente a esposa, mas não sabe o que fazer. A tragédia do homem comum, que é afastado por quem ama.
  4. Não entendi a imagem de Deus como uma aranha. Dizem que isso se explica no segundo filme. Veremos.
  5. Que diálogo entre Martim e Papa. O escritor se afastou de todos que ama, criando um vazio em suas vidas. Acho que é o próprio Bergman aí.
  6. Minus é explosão de energia, aprisionado.
  7. O escritor que busca algo pessoal para tratar. E encontra no sofrimento da filha.
  8. Os quatro personagens parecem viver esperando um sinal da presença divina, mas são incapazes para se abrir para esta experiência. A ilha no meio do nada é a metáfora para uma existência sem Deus.
  9. Eles jogam a rede, mas nada pescam.
  10. Não se encontra o amor sem se arriscar. É a mensagem da peça dentro do filme.

Ainda An Affair to Remember: notas de um filme metafísico

  • Os dois personagens estão tomados pelo ennui, o tédio existencial de quem conseguiu o que queria mas não um sentido para suas vidas.
  • Nickie, como diz a avó, sempre conseguiu as coisas fácil demais. Está prestes a se casar com uma milionária e passar uma vida sem preocupações.
  • Terry vai pelo mesmo caminho. Aparentemente teve uma infância difícil, mas vai se casar com um homem rico e terá segurança.
  • Nenhum dos dois estão felizes. Nickie queixa-se do tédio no navio, de não ter nada para se ocupar.
  • Ambos inicial um jogo de sedução, mais para se ocuparem do que por qualquer outro motivo.
  • Isolados do contexto de seus casamentos, daí a importância do navio, baixam suas guardas e se permitem ser honestos, o que gera uma camaradagem, origem do verdadeiro romance.
  • O processo culmina na ilha, quando a presença da avó e do ambiente familiar, reconectam ambos com suas origens, com as coisas que realmente importam. Saem as ilusões do mundo e fica um homem e uma mulher com suas falhas, e que se apaixonam.
  • A segunda parte da viagem é a rendição, em que ambos aceitam a inevitabilidade de largar os confortos materiais (nos dois casamentos) e viverem uma aventura, o romance. Chesterton já dizia que a essência do romance é a aventura, o medo misturado em confiança que o verdadeiro amor pode gerar.
  • Até aí, o filme poderia terminar no desembarque e fim das relações antigas. Só que vai além; os amantes não querem apenas o romance, querem ser dignos dele. Já sabem o que desejam, mas querem estar a altura do amor que nutrem um para o outro. Por isso os seis meses para “ajeitar a vida” são tão essenciais e confundem os críticos. Estes dizem que não faz sentido os seis meses para duas pessoas maduras como Nickie e Terry. Não faz sentido porque entendem o mundo apenas em sua realidade material, ignorando os aspecto espiritual. Eles se enganaram por tempo demais, vivendo a custas dos outros. Agora eles precisam tornarem-se auto-suficientes, mesmo que pobres.
  • Por isso Terry não conta do acidente, outro aspecto que parece inverossímil para os críticos. Ela não quer ser um fardo, ela precisa retomar sua autonomia, o que implica em superar sua dificuldade física. É preciso entender que durante este processo, são duas pessoas frágeis, que precisam se fortalecer.
  • Poderiam fazer isso juntos, mas o risco é grande de arruinar um relacionamento por não estarem ainda prontos. Não se trata de duas pessoas maduras que se encontram, mas de duas pessoas que se iludiram por muito tempo, que estavam à  beira do vazio existencial.
  • Quando se encontram, na cena final, já são pessoas autônomas. Com toda dificuldade, assumiram as rédeas de suas vidas e estão construindo suas histórias. Ainda resta um resquício de ironia e desconfiança em Nickie. Em nenhum momento passa por sua cabeça perguntar diretamente porque ela não compareceu ao encontro. Ele retoma, momentaneamente, o joguinho do início da viagem de navio. Falta-lhe ainda a confiança. Por fim, cai em si. Percebe seu erro, se arrepende e se coloca aos pés de Terry. Ambos estão prontos agora. Prontos para renderem-se ao outro.
  • Romance? Isso é uma estória de conversão! Uma conversão dupla, e por isso deve confundir tanto os críticos. Eles trocam o mundo da aparências (e do materialismo) pelo mundo da essência (da verdade), ou seja, o mundo do espírito, que é o que realmente importa. O instrumento para a conversão é o amor que sentem um pelo outro, a honestidade entre eles.
  • Como se chama uma estória de conversão, com base no amor e confiança, em que se marca um encontro no ponto mais alto de uma cidade para se unirem? Pois é. An Affair to Remember não é um romance, é um filme matafísico (o outro nome de religioso). Está disfarçado de romance. Como o cristianismo.