As Envoltórias do Homem: Corção, um monstro!

Ainda estou terminando o capítulo único que Gustavo Corção inseriu entre a parte que trata da Idade Antiga e da Idade Média em Dois Amores, Duas Cidades. O que ele coloca nestas páginas é absurdo em profundidade e clareza.

Ele trata essencialmente da relação do homem com o meio, assumindo a posição de que o homem cria o meio e é influenciado por ele, negando o determinismo social. Trata também da psicologia de Freud, e em como ela deixou de ver a envoltória espiritual da vida humana, negando que além do apetite pelos prazeres, o homem tem um forte impulso de ver realizar as suas idéias, uma dimensão da mentalidade humana.

Trata também dos mecanismos que usamos para obter certezas, seja pela observação direta (visão) ou pelos testemunhos (audição). E trata também das certezas errôneas. Basicamente temos nosso interior como fonte de confrontação com as idéias. Se este interior está desarrumado, só aceitaremos idéias que estejam em acordo com este interior. Aceitar algo diferente seria ser forçado a mudar interiormente, a metanóia dos gregos ou mudança por amor dos cristãos. Muitas pessoas estão tão desarrumadas interiormente que não querem confrontar seu interior. O que fazem? Buscam grupos externos de referência, em um processo aglutinador através de slogans ou palavras de ordem. E eu pergunto, não é o que vemos hoje?

Ainda estou na primeira leitura, mas terei que estudar profundamente este capítulo. Corção era um gênio e este livro TEM que ser re-editado. Urgente!

Bergman, silêncio III

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Semana passada assisti o terceiro filme da trilogia de Bergman sobre o silêncio de Deus. O Silêncio (1963), conta a estória de um dia na vida de duas irmãs, a intelectual Ester e a sensual Ana. Diante de um ataque de bronquite crônica de Ester, elas interrompem uma viagem de trem e se hospedam em um hotel em uma cidade não nominada, que vive a expectativa de uma guerra.

Minhas notas iniciais:

  1. Onde está o silêncio de Deus neste filme? Ao contrário dos dois outros filmes, nenhum das personagens formula indagação sobre Deus.
  2. Talvez a solução esteja no entendimento dos dois primeiros mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo.
  3. Se o foco de Luz de Inverno está na relação direta com Deus, O Silêncio tem seu centro na relação entre as pessoas.
  4. Se o padre encontra o silêncio de Deus talvez por sua incapacidade de se comunicar com as pessoas, a situação aqui parece invertida. As irmãs talvez falhem em se comunicar pela ausência de uma preocupação com Deus. Ambas se entregam a seus ídolos (sexo e vida intelectual).
  5. No fundo, as irmãs são iguais. Só muda o foco da atenção delas. Não sabem lidar com o amor entre elas e tudo vira uma oportunidade para agressão e causar dor.
  6. Quem mais fala no filme é o estranho camareiro, que parece se preocupar genuinamente com o sofrimento de Ester.
  7. O filho de Ana está entediado, pois é ignorado pelas irmãs pela maior parte do tempo. Talvez represente o futuro, que é sempre sacrificado quando nos deixamos levar por nossas intemperanças.
  8. Desta vez o filme não tem uma abertura para alguma otimismo. O destino das irmãs parece fadado à infelicidade. O que fica evidente é a falta de comunicação real entre elas. Mesmo quando conversam, se deixam levar pelo ressentimento e não abrem espaço para um entendimento verdadeiro.
  9. Como no primeiro filme, novamente Bergman sugere a questão do incesto. Por que? O que deseja comunicar?

Notas de Sexta

Olá pessoal!

Eis minha lista semanal de 5 coisas interessantes que andei fazendo (inspirado pelo Tim Ferris 5-bullets friday)

Filmes — Assisti a trilogia do Ingmar Bergman sobre silêncio de Deus: Através do Espelho (1961), Luz de Inverno (1962) e O Silêncio (1963).

Uma música que estou escutando —It Make’s no Difference (The Band). A voz do Rick Danko nesta música é algo fora do normal. Emoção pura.

Livro que comecei — 50 Crônicas Escolhidas, do Rubem Braga

No youtube

Comecei a ver a série sobre a Marvel do Bunker do Dio.

Citação que estou meditando

“I don’t argue”

The Barber, da Flannery O’Connor

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Flannery O’Connor e um alerta para a discussão política

Li hoje meu segundo conto da Flannery O’Connor. The Barber (1946) conta a estória de um professor (Rayber) que se envolve em uma discussão política com seu barbeiro sobre a eleição que se aproxima. Como bom intelectual, ele tem uma posição progressista, em torno de um candidato que defende o fim das leis raciais. O barbeiro, de espírito conservador, defende o candidato oposto.

O conto mostra os limites da discussão política e o fracasso de desejar vencer discussões sem tentar entender a outra parte, especialmente quando se imagina em uma posição superior, tanto moral quanto intelectualmente. Ficou para mim o alerta de um antigo professor de Rayber: “eu nunca discuto”.

Ainda vou tratar mais deste conto.

Bergman, silêncio II

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Assisti o segundo filme da trilogia Silêncio, do Ingmar Bergman. Trata-se de Luz de Inverno (1962). O tema é um dia na vida de um padre que perdeu a fé, e por isso mesmo se torna incapaz de ajudar sua paróquia. O Padre Tomás se angustia com o que ele considera o silêncio de Deus, que não responde suas súplicas. Ele tem um romance com uma professora, motivo de fofoca na pequena cidade em que vive.

Minhas notas:

  1. Por mais que esteja confuso, e seja um pecador, seus sacramentos continuam válidos. É um dos mistérios da Igreja que ela não depende da santidade de seus sacerdotes para prosseguir em sua missão.
  2. Seu coração esvaziado reflete a comunidade ao seu redor ou é o contrário? A Igreja vazia é um símbolo do vazio interior do pobre Tomás.
  3. De todos os personagens, ninguém é mais enfadado com tudo aquilo do que o organista da igreja.
  4. O sacristão deficiente físico, que no início do filme aparece como um incômodo para os demais, no final aparece como o verdadeiro cristão, que a despeito de tudo reflete sobre as escrituras e tenta buscar uma orientação de como interpretá-las corretamente.
  5. O casal que busca auxílio para a depressão do marido com o padre é a representação das pessoas comuns, que sofrem os problemas da existência humana. Recorrendo a platitudes inicialmente, e depois desabafando seus próprios problemas, o padre é incapaz de ajudá-lo.
  6. A esposa é a representação da mulher pragmática, que leva um lar a frente a despeito de todas as dificuldades.
  7. A depressão e o suicídios provocam danos irreparáveis a quem fica. Principalmente os que realmente amam.
  8. Luz de inverno. Ela é rara, mas quando surge ilumina com força. Essa é a metáfora para a resposta de Deus no mundo. Creio que Ele age principalmente através das pessoas. É no outro que vamos encontrar as respostas que procuramos.
  9. Quando Padre Tomás resolve rezar a missa exclusivamente para Marta, que é tratada como ninguém pelo organista, ele se coloca realmente como um instrumento de Deus. Trata-se de um ato de amor.
  10. Não seria a fala do sacristão uma resposta de Deus a Tomás?

Bergman, silêncio

Comecei a ver a famosa trilogia Silêncio, de Ingmar Bergman. Esta semana assisti Através de um Espelho (1961), o primeiro. Minhas primeiras notas:

  1. Que atriz era a Bibi Andersen!
  2. Da mesma forma que Deus não responde, Papa também não conversa com Minus. A última frase de Minus no filme talvez seja a expressão do milagre. O menino fica literalmente iluminado.
  3. Pobre Martim. Ama realmente a esposa, mas não sabe o que fazer. A tragédia do homem comum, que é afastado por quem ama.
  4. Não entendi a imagem de Deus como uma aranha. Dizem que isso se explica no segundo filme. Veremos.
  5. Que diálogo entre Martim e Papa. O escritor se afastou de todos que ama, criando um vazio em suas vidas. Acho que é o próprio Bergman aí.
  6. Minus é explosão de energia, aprisionado.
  7. O escritor que busca algo pessoal para tratar. E encontra no sofrimento da filha.
  8. Os quatro personagens parecem viver esperando um sinal da presença divina, mas são incapazes para se abrir para esta experiência. A ilha no meio do nada é a metáfora para uma existência sem Deus.
  9. Eles jogam a rede, mas nada pescam.
  10. Não se encontra o amor sem se arriscar. É a mensagem da peça dentro do filme.

5 Notas de Sexta

Olá pessoal!
Eis minha lista semanal de 5 coisas interessantes que andei fazendo (inspirado pelo Tim Ferris 5-bullets friday)

Filme da semana — Através do Espelho (1962). Primeiro filme da trilogia do silêncio, do Ingmar Bergman.

Discografia que estou revisitando
The Band. Com perdão do tracadilho: que banda!

Livro que terminei
Power and Glory, do Graham Greene. Um livro absolutamente maravilhoso. O que os mexicanos fizeram com a Igreja no fim da revolução foi imperdoável.

Livro que comecei
Imagens Cintilantes, da Camille Paglia.

Citação que estou meditando

“O que é contra a verdade, não pode ser justo”
Santo Agostinho

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Yuval Harari: algumas considerações

Ontem escutei um podcast do Martim Vasquez da Cunha e Rodrigo Constantino sobre Yuval Harari. Quem me apresentou o historiador israelense foi minha orientadora de mestrado, uma fã. Li Sapiens e depois assisti sua entrevista no Ted Talks. O programa foi interessante pois me permitiu uma visão das idéias principais de Yuval. Na época, fiz uma nota no Evernote sobre o que entendi serem estas idéias e minha reflexão inicial sobre elas.

Resgatei a nota do evernote e divido com vocês:

Entrevista no Ted Talks: 2016

Idéias:
1. Nos acostumamos com a idéia que a felicidade seria garantida com a globalização econômica e a liberalização política. Esse modelo é uma mentira pois não pode coexistir as duas coisas.
2. A política tem que se tornar global para se tornar compatível com a globalização econômica. Não há como retornar a economia para o nível nacional-local.
3. Os problemas atuais são globais.
4.Os dois grandes problemas da humanidade hoje são:
–  mudanças climáticas
– ruptura tecnológica
5. A tecnologia é a grande ameaça ao emprego e não a competição entre os países
6. Não existe uma narrativa cósmica para a existência do homem. O grande objetivo da humanidade deve ser vencer o sofrimento.
7. Toda identidade é falsa pois é baseada numa ficção (mito, religião ou ideologia)
8. É necessário um governo global para lidar com essas ameaças.
9. Esse governo não se parecerá com uma democracia dinamarquesa. O provável é que se pareça mais com o antigo império chinês, onde uma governança forte terá que impor a solução dos problemas globais. É um preço que se deve pagar pois a alternativa causará mais sofrimento.
10. A grande divisão da política atual, portanto, é entre globalismo e nacionalismo. Conceitos de direita e esquerda estão ultrapassados.
11. Vivemos a melhor época da história.
12. Abandonar as narrativas míticas é sinal de progresso.
13. Não há uma visão clara de como deve ser a governança global, mas ela é necessária.

Meus comentários
1. Yuval ignora o aumento do poder centralizado no último século. Parece que os governos se tornaram mais democráticos e liberais e o fracasso atual se deu pelo enfraquecimento dos governos e não por sua excessiva intervenção.
2. Será mesmo que a globalização econômica não pode conviver com o local? Por que é preciso um nível superior aos estados para regular a economia? Não se pode retomar as negociação bilaterais?
3. Não estou convencido que os problemas principais são globais.
4. Não estou convencido do problema das mudanças climáticas. Em Sapiens, Yuval argumenta que toda mudança climática e ecológica, mesmo na pré-história, foi causada pelo homem.
5. Não estou tão seguro que a tecnologia permitirá ao homem criar vida (e se tornar Deus)
6. Estamos chegando ao ponto que não será mais possível a substituição de emprego? Até agora sempre foi possível abrir novos caminhos. Mas o ponto é válido e a dúvida é real.
7. Sobre o objetivo do homem ser vencer o sofrimento, isso remete a palestra do Peter Kreeft sobre o sentido do sofrimento. Não é possível retirar o sofrimento deste mundo.
8. Mitos, religião e a própria ideologia possuem mais de verdade do que mentira. Acho que Voegelin está correto neste ponto de considerar estas narrativas como símbolos compactos da transcendência.
9. Não é possível concordar com Yuval e ao mesmo tempo crer na transcendência. Seu mundo é material e não há nada mais. Ele propões o fim da religião.
10. Ele não sabe direito como será o governo global, mas defende que é necessário. Isso me parece perigoso.
11. Algumas soluções podem ser necessárias ao nível global, mas é preciso um governo para impor-las? A que preço?
12. Para quem acredita no materialismo, não há dúvida que vivemos na melhor época da história. Viva o progresso!
13. Abandonar as narrativas é abandonar a verdade. Corresponde a rebaixar o homem ontologicamente, se isso for possível. Pois me parece que Yuval propõe, novamente, disfarçada, uma religião da humanidade.
14. Dificilmente eu encontraria um pensador que tivesse uma oposição tão diferente da minha quanto Yuval. Acho que concordo mais com Marx do que ele.

5 Notas de Sexta

Olá pessoal!
Eis minha lista semanal de 5 coisas interessantes que andei fazendo (inspirado pelo Tim Ferris 5-bullets friday)

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Filme da semana
Depois de 30 anos assisti novamente The Goodfather (O Poderoso Chefão). Filmaço.

Disco que estou revisitando
Life Before Insanity (2000), do Gov’t Mule. Que disco. Uma lástima que Alen Woody tenha nos deixado tão cedo. Que baixista!

Vídeos que estou assistindo no youtube
Achei uma coleção que é um tesouro. Trata-se de Catholic Novels, pelo padre Roberta Lauder. Em vídeos curtos, ele apresenta livros de tema católico, que utiliza em seu curso de literatura no St John’s College. Já comecei o primeiro, Power and Glory, do Graham Greene.

Curso que comecei
Crônica, teoria e prática, do Rodrigo Gurgel. Meu terceiro curso online com ele.

Citação que estou meditando

Eu leio um livro para ver se me livro
Adélia Prado

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Lista de vídeos para assistir

Aproveitando os últimos dias para assistir vídeos do youtube que estava na minha lista de “assistir depois”. A lista tinha mais de 40, muitos colocados há uns 2 ou 3 anos. Em geral, palestras.

Fiz uma limpa de vídeos que não estavam mais disponíveis, de assuntos que perdi o interesse e ficou pouco mais de 30. Comecei a assistir e já são 29 restantes. O último foi do Mateus Leme, tradutor de Tremendas Trivialidades, do Chesterton, tratando do livro.

No processo, descobri uma preciosidade. Palestras de 15 minutos de um padre do Broklin, Robert Lauder, sobre literatura católica. Cada vídeo ele trata de um livro. Estou devorando-os e me forcei a dar uma parada. Poder e Glória, Brideshead Revisited, Diário de um Pároco de Aldeia, The Moviegoer, minha lista de leitura só aumentando!