Reflexões de uma pandemia – 9

Os parâmetros da discussão estão mudando: ainda bem!

Até uns 3 dias atrás, as redes sociais em peso pediam que os governos fizessem a quarentena total e irrestrita. Hoje olhando pelo twitter, vejo uma mudança de panorama.

Cada vez mais aparecem vozes contra essa abordagem, alertando para o caos econômico que se seguirá. Há um falso dilema entre vidas e dinheiro; a coisa é bem mais complexa do que isso. É muito bom que os pontos de vistas sejam colocados livremente na discussão pública.

No caso do Brasil, temos um fator que nos diferencia de todo mundo ocidental rico: as favelas. Enormes concentrações populacionais que vivem de empregos informais ou de baixa qualificação, justamente os mais afetados pela quarentena geral.

Os histéricos não querem pensar nisso, mas o que eles esperam? Que estes milhões de brasileiros fiquem meses dentro de casa esperando a crise passar, sem renda? Que vão ficar quietos entendendo a gravidade da situação?

Se for por esse caminho, temo por um grande caos social com milhões saindo de casa para quebrar tudo que virem pela frente. Nessa hora, nem Witzel e nem Doria vão se colocar na frente da turba enlouquecida. Talvez a abordagem do governo seja mais conservadora do que a maioria imagine.

O caldo vai entornar e os mesmos que são exaltados nas mídias pela postura “corajosa” de fechar a economia estarão se escondendo do povo revoltado. Há de existir um meio termo entre fazer nada e fechar tudo. Para o bem de nosso país.

Reflexões de uma Pandemia – 8

Notas Breves

1

Depois de 2 dias de queda, mortes aumentaram novamente na Itália. Governo parece estar trabalhando na extensão da quarentena até 31 de Julho. Acho que isso é impossível. Haverá revolta desobediência civil e/ou revolta. Podem anotar.

2

Trump parece mirar na outra direção. Quer relaxar as regras depois de 15 dias. Será que vai adotar a estratégia de várias paradas com intervalos?

3

Recebi um texto no whats que fala de algo bem real. Essa pandemia ataca primeiro as pessoas que costumam fazer viagens internacionais e quem tem contato com elas. Em outras palavras, os mais ricos. Explica a reação?

4

As epidemias costumam atingir prioritariamente os com piores condições de higiene, ou seja, os mais pobres. Esta tem um padrão diferente. Será que tem a ver com o nível de reação.

5

Depois que a pandemia se torna local, os mais pobres são mais afetados por questão de exposição e saneamento. Ou seja, deixa por si, os mais pobres vão lotar as emergências primeiro.

6

As decisões de EUA e Inglaterra foram muito baseadas no estudo do Imperial College. Já temos dados suficientes para conferir se este modelo está correto? Parece que já tem estudo que o confronta.

Reflexões de uma pandemia – 7

Histeria cedendo?

Começo a observar alguns sinais que a histeria está cedendo nas redes sociais. Não sei se é porque o pessoal mais apavorado está se tranquilizando com as medidas duras dos governos ocidentais (mesmo que não funcionem), ou se começamos a nos acostumar com o cenário que nos encontramos.

Há uma absurdo de desinformação. Infelizmente viram neste gigantesco drama uma forma de se livrar de alguns governantes incômodos, que tiveram a audácia de vencer nas urnas não só a esquerda sectária de sempre, mas uma classe muito particular, dos que se julgam muito inteligentes para poder serem classificados. Estes são os mais histéricos de todos; não sei se por cálculo por falta de coragem mesmo. O fato é que investem no caos para poder dizer que estavam com a razão.

A possível cura com o remédio para malária mostra bem isso. Se confirmar as propriedades de melhora com esta medicação será um duro golpe para os amantes do caos. Entre uma possível cura rápida e uma pandemia com mortos aos milhares, eles mostram muito bem o que preferem.

Reflexões de uma pandemia – 6

Hoje foi o primeiro domingo de quarentena. Muito ruim ficar longo dos amigos; reunir para tomar um bom vinho, bater papo. Demorará um bocado para sairmos de nossas tocas e nos confraternizarmos novamente; teremos que ter muita resiliência.

Começa a aparecer notícias de violência doméstica. Um roteirista da Globo cometeu suicídio; tinha depressão. Essas estórias serão comuns. O governo tem que pensar nisso também; organizar uma reação a estas externalidades do confinamento.

Tudo isso se agrava com a suspensão de missas e cultos. Os neopagãos acham que isso é besteira, que dá perfeitamente para viver sem. Não conseguem compreender o efeito que a prática religiosa tem em muita gente para acalmar e nos fazer controlar nossos demônios. Para muitos é o culto que os afasta da violência, da bebida, das drogas. A ausência destes momentos tem um efeito devastador para eles. E para suas vítimas.

Estamos vivendo um longo sábado santo. Aquele que Deus desceu à mansão dos mortos e ficamos sós, na amargura da ausência. Nossa esperança é que a ressurreição veio e como os viajantes para Emaús descobriremos que o Cristo esteve sempre entre nós.

Mais do que nunca, a humanidade precisa do Cristo.

Reflexões de uma pandemia – 5

Dormi mal a semana toda por causa do coronavirus. Ontém adotei uma tática diferente: cortei as notícias as 20:00. Nada de twitter, nada de saber o que está acontecendo.

Resultado? Dormi bem, como há tempos não acontecia.

Adotei esta rotina. Li rapidamente as notícias, e a histeria do twitter. Gente insistindo na importância de salvar a economia; gente insistindo em parar tudo agora e salvar as pessoas. Não tenho a menor idéia de quem está certo; é uma escolha de perde-perde. Não vou entrar nessa. Até porque tenho uma posição privilegiada em relação à maioria; minha renda é mantida independente do que eu produzo. Fica fácil para mim dizer que deve funcionar apenas as atividades essenciais e azar de taxistas, motoristas de uber, autônomos, etc.

Enfim, agora são 20:13 e é a última vez que trato deste assunto. Vou ver um filme, tomar um vinho e me alienar um pouco. Mais do que tudo, é questão de saúde mental. Temos uma maratona para percorrer e é só o começo.

Reflexões de uma pandemia – 4

Altos e Baixos

À medida que vai ficando claro que a pandemia vai durar por um longo tempo, a coisa vai se encaminhando para uma estranha rotina. Sabemos que o perigo está nos rondando, que por mais que tenhamos cuidado podemos nos contaminar por um único descuido; mas não é só isso, há os efeitos colaterais, pois pode nos faltar o socorro por um outro problema qualquer, como uma doença crônica, um acidente; já que os recursos estarão esgotados por conta da pandemia e, mais ainda, haverão as consequências terríveis da paralisação econômica que pode levar perfeitamente a uma convulsão social de difícil previsão e um colapso do tecido social que marca a nossa sociedade. Tudo isso no curto espaço de um ano.

Sempre imaginei o que pensava um inglês médio durante a II Guerra Mundial, vivendo aqueles longos 5 anos até a derrota final do regime nazista. Quando Churchil fez seu discurso, todos sabiam que seria um longo período de provação; que levaria alguns anos para serem felizes novamente, sem ressalvas, sem a tensão de ter uma ameaça permanente sobre suas cabeças. O grito da vitória em 1945 foi não só pela derrota de Hitler, mas pela certeza que poderiam aproveitar cada momento de alegria sem temer o que aconteceria no dia seguinte, sem a sensação incômoda que o inimigo estava à espreita, que poderiam ser golpeados a qualquer momento. Não, a alegria do dia da vitória é que tudo tinha acabado; os mortos estavam mortos, mas os vivos ganhavam finalmente um futuro sem amarras, sem considerações estatísticas sobre o dia de amanhã.

Estamos, de certa forma, em 1940. Procuramos alguma notícia boa, um fio de esperança, mas vamos nos dando conta que o inimigo é muito mais poderoso do que supúnhamos, e que muito nos será exigido. Alguns ainda teimam, fingem que não há nada demais, mas também estão com medo __ é perceptível. Dizem que na aparente tranquilidade de um avião, apenas 2% passam o vôo inteiro sem sentir um fio de medo. A grande maioria finge, e reza para todos os seus deuses a cada turbulência, a cada solavanco. Estamos um pouco assim. Muito fingimento, mas um medo real, o receio da incerteza de tudo que está por acontecer neste inesquecível ano de 2020.

Nunca mais seremos os mesmos.

Reflexões sobre uma pandemia – 3

O dia hoje foi dedicada a uma discussão sobre a China. Parece que usar o termo “gripe chinesa” gera manifestações violentas. No caso dos Estados Unidos, da esquerda.

Já no Brasil, de liberais e da direita que deseja ficar bem com os primeiros. Seja lá o que isso signifique. Ou seja, politizaram a pandemia.

Já eu estou mais preocupado em fazer minha parte. Lavar mãos, alcool gel na rua, evitar aperto de mão, distância social. É chato para caramba, mas vamos levando.

Fico pensando nas tais 20 semanas. Em algum ponto vamos entrar em uma rotina; em algum ponto vamos começar a relaxar. Não dá para viver tenso e atento a cada detalhe por tanto tempo.

É uma corrida de longa duração. Não adianta usar tanta energia no início e ficar sem gás ao longo do percurso.

Ah, tem também o tal remédio da malária. Funcionará realmente? Ter um remédio existente, mesmo que com efeitos colaterais fortes, já testado, disponível, parece bom demais para ser verdade.

Reflexões de uma Pandemia – 2

1

Hoje li um pouco sobre a gripe espanhola. Assustador. Nossos antepassados emendaram uma guerra mundial com uma pandemia mortífera, com milhões de mortos.

2

Nós brasileiros não temos a comunidade como um valor. Somos nós, família no máximo, e o Estado. Não temos dimensões intermediárias. No drama que apenas começamos a viver, teremos que aprender a cuidar uns dos outros. Como muitas vezes acontece, aprenderemos pela dor.

3

Leio em algum lugar que a média dos mortos na Itália é de 88,5 anos. E que 70% dos mortos são homens. Esse virus tem um alvo.

4

Então os mais jovens podem ficar tranquilos? Sair pelas ruas? Aí que vem o senso de comunidade. Todos convivemos com idosos, sejam parentes ou amigos. Temos que nos proteger não por nós, mas por eles. O Ministro Mandeta foi bem claro, nada é mais importante nesta pandemia do que proteger os nossos idosos. Temos que fazer nossa parte.

5

Por sinal, os idosos costumam ser bem teimosos. Já viveram muito, acham que resistem a tudo. Que é bobagem nos preocuparmos tanto com gripe. Vejo no trabalho. Muitos foram dispensados e insistem em ir trabalhar. No fundo, não querem se ver como dispensáveis.

6

Nem começou a nossa epopéia e os abutres já comemoram. Alimentam-se com tragédias. Arriscamos superar uma para cair em outra pior ainda. Logo agora que o mundo começava a se endireitar.

7

Um palpite: a União Européia começou a morrer.

Reflexões de uma Pandemia – 1

Se entendi bem o que o Ministro Mandeta disse hoje no Jornal Nacional, a expectativa é de termos 50% de infectados. É pior que eu imaginava. Significa que mortes são inevitáveis e a luta é para salvar uma parte, prolongando a curva para reduzir a pressão sobre o sistema de saúde.

Há uma sensação que os governos escondem algo de nós. De minha parte, eu vejo os números da Itália e não vejo como correspondente ao grau das medidas de isolamento. Estamos tratando como se estivesse no pico, mas e não estiver? E se a pandemia só conseguir ser controlada quando todos forem infectados?

São muitas perguntas de tirar o sono. Não consigo pensar com clareza e tenho quase nenhuma certeza do que está acontecendo. Aliás, quase ninguém tem; mas tem uma turma que finge saber das coisas, seja de um lado ou de outro.

É possível que os governos saibam que não há muito a fazer e que essas medidas mais duras são até certo ponto inúteis. Eles, relutantes a início, estão fazendo porque precisam mostrar que estão fazendo mais do que realmente esperar que a crise de dissipe por si só. Eles sabem que não há muito o que fazer, mas a tentativa de pelo menos salvar a economia tem um custo político muito alto que não dá para pagar.

Estamos em um trade off macabro. Gente sensata, mas em pânico, grita que entre a saúde e a economia temos que salvar a saúde. Mas e se a economia for a única coisa que podemos salvar? O tempo dirá se temos realmente uma opção. Nossa esperança é ser uma Taiwan ou Japão. Mas será que eles realmente estão salvos da pandemia ou a pancada ainda vai bater?

Essas reflexões não possuem fundamento nenhum. São apenas tentativas bem grosseiras de organizar algumas opiniões, puro palpite. Não sei se alguém de fato está entendendo o que está acontecendo.

Só nos resta rezar para não sermos sorteados nessa loteria macabra de mortes.