Paradoxos e hipocrisia

Vejam a distribuição da pirâmide econômica no Brasil.

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Eu me encontro na passagem da faixa verde-escura para a verde-clara, ou vice-versa. Para alguns eu sou classe média, para outros eu sou rico, ou mesmo pobre. Só o que sei é que graças a Deus eu não tenho tudo que quero, e espero nunca ter. Até porque isso é impossível. Por mais dinheiro e poder que alguém tenha, nunca terá tudo e sua frustração pode ser bem maior que a minha. Digo de coração que não tenho a menor inveja de quem tem mais do que eu, e não trocaria de lugar com nenhum deles.

Tem um monte de gente que acha essa distribuição absurda e escreve dia sim e dia também contra o 1% que está no topo. Para gente como Sakamoto, Brum, Safatle, Chauí, e tantos outros, esse topo da pirâmide é o foco de todo mal que atrasa o Brasil. Só que não é contra eles que vosciferam suas entranhas a cada porcaria que escrevem, é contra os que estão abaixo, a turma dos verdes claro e escuro, e que gostam de chamar de classe média. Na cabeça deles, se considerarmos que pensam com um cérebro, o que tenho minhas dúvidas, a classe média são um monte de zumbis sem inteligência e coração conduzidos pelos 1%.

O grande paradoxo é que quando vamos ver, esses marxistas, declarados ou não, pertecem justamente ao 1%. Não é a toa que recentemente a bruxa da filosofia, Madame Chauí, disse que não é a renda que define a classe econômica, mas o pensamento reacionário. Ela não tinha outra escolha. Só assim ela pode se passar por pobre ganhando seu salário de professor titular da USP, que a coloca no topo da pirâmide. Esses hipócritas gostam de dizer que as pessoas são produtos da classe a que pertencem, exceto eles, é claro, que são tão bons e inteligentes que conseguem ficar fora de todo este esquema, como se estivessem a parte da sociedade. De certa forma repetem o erro de Descartes, que para analisar a existência se colocou fora dela, como um observador fora do tempo e do espaço, ou seja, Deus. Eles se acham pequenos deuses que analisam a sociedade de fora a partir de um ponto de vista absoluto e imparcial. Conseguem estar no alto da pirâmide mas ao mesmo tempo não estar.

E fica eu, um bocó, que ganho bem menos do que eles, e que não sou financiado pelo governo, defendendo as liberdades individuais diante do pensamento pseudo-marxista dessas bestas. Bestas bem pagas, que fique claro. Assim temos um mundo em que o Sakamoto usa seu Mac Pro para atacar o capitalismo excludente e atacar empresas por exploração do trabalhador, fingindo que não sabe como foi fabricado seu apple. Fica o José de Abreu defendendo o comunismo ao mesmo tempo que procura um apartamento para comprar… em Manhattan! E o mané aqui fica defendendo o capitalismo, com todos os seus problemas, e de certa forma o direito do topo da pirâmide, do qual eles fazem parte, de ter e usar sua propriedade privada. Que mundo!

Só para terminar, o fato de defender o direito de cada um sobre sua propriedade não quer dizer que concorde com o uso que cada um faz do seu dinheiro e dos seus recursos. Só que liberdade só tem sentido diante da possibilidade de escolher mal; não existe isso de liberdade apenas para o bem, coisa que muita gente não consegue entender. Só existe valor em fazer a escolha certa quando era possível fazer a errada. Só existe mérito de fazer um bom uso de sua propriedade se tiver também a possibilidade de fazer um mal uso. Não acho que a liberdade seja absoluta, como querem os libertários, mas também não concordo que ela deva ser moldada para um resultado desejado pelas patrulhas da consciência alheia.

A polêmica da suástica

Uma das polêmicas da semana foi a do restaurante que colocou alguns garçõns usando diversos símbolos militares, entre eles uma suástica. Parece-me que foi mais ignorância dos proprietários do que outra coisa, mas o acontecido despertou a revolta de muita gente e ficou parecendo que um empresário, essa classe do mal, obrigou seus garçons a usar símbolos nazista, como se ainda existissem coisas assim, especialmente no Brasil.

Achei o episódio em si curioso. Por que não poderia usar uma suástica? Por que o nazismo foi um ideologia baseada no ódio seletivo que gerou milhões de mortos, guerras e extermínio. Pois o comunismo-socialismo fez igual, ou ainda pior. Aliás, a II Guerra, nunca é demais lembrar, começou com uma dupla invasão da Polônia. Nazistas de um lado e comunistas de outro.

O nazismo é doutrina morta e enterrada. Se ainda existem alguns idiotas na Europa que ainda se fantasiam e pedem uma volta dessa doutrina demoníaca, são vistos como excentricidades e aberrações; ninguém os leva a sério. Mas com o comunismo é diferente. Basta olhar a nossa volta para ver os símbolos por toda parte: camisas com o rosto do chê, stalin e lenin; partido com o foice e o martelo como símbolo, publicações de exaltação ao comunismo; sindicatos com símbolos comunistas. O comunismo é uma ideologia baseada no ódio que gerou milhões de mortos mas que, ao contrário do nazismo, está muito viva. Teve até líder outro dia sendo devorado por cachorros.

Por que a distinção? Ou esses símbolos do mal são todos proibidos ou nenhum é. Vamos deixar de hipocrisisa. Trocando em poucas palavras: se Fidel pode, Hitler também pode. A diferença é que o primeiro ainda está vido, pelo menos até que o inferno pare de rejeitar sua chegada. E o segundo morreu há mais de meio século. De minha parte tenho desprezo por todos que citei aqui. Já alguns são mais seletivos, preferem seus demônios de extimação.

Raça de víboras.

Sobre o rolezinho

O que me chama atenção nessa história do rolezinho é que tem gente realmente achando que quem frequenta shopping, especialmente aquele do Itaquera, é rico e a classe média do mal, que eles chamam singelamente de classe média. Nem vou entrar no mérito que esse conceito de classe econômica é uma abstração como já foi mostrado pelo historiador marxista, pasmem, E J Thompson. Ele descobriu que não havia nada que ligasse as pessoas pela faixa de renda, que não havia um comportamento ou ideologia comum a essas pessoas e, portanto, a classe econômica como entidade real simplesmente não existe. Seria como dizer que existe uma classe das pessoas canhotas ou das que gostam de pastel de queijo.

Mas, retomando, tem gente achando que são os ricos e descolados que frequentam os shoppings e que há um preconceito contra os pobres que estão invadindo esses verdadeiros templos de consumo porque graças ao imenso sucesso econômico dos governos petistas foram promovidos a uma espécie de classe média boa. Nesse caso, eles costumam se referir carinhosamente como classe C. Essa seria a evidência do sucesso de Lula e Dilma.

Pois essa gente precisa parar de fazer compras em New York, ou voltar para o país, pois vivem na segurança do estrangeiro, e darem um “rolé” pelos shoppings. O que mais se vê lá é classe C, com lojas âncoras do Ponto Frio, Casas Bahia, C e A, tudo bombando com o consumo. Classes A e B? Tudo no exterior ou no comércio online.

E porque a classe C está em massa nos shoppings?

PORQUE É O ÚNICO LUGAR ONDE POSSUEM SEGURANÇA PARA FAZER COMPRAS!

Perceberam o grito? A Classe C vai ao shopping para fugir exatamente dessas gangues que resolveram os perseguir no único lugar que tinham refúgio. E como reagem os intelectuais caviar? Gritam que se trata de preconceito! Que não há nada demais em um bando sair cantando funk e palavras de ordem contra essa sociedade burguesa de consumo. Ah, não roubaram ninguém. Claro que não, né? Não são burros. Enquanto forem um corpo estranho andando pelos corredores, estarão as vistas dos seguranças. O problema é quando se tornarem uma presença normal e não se diferenciar mais uma coisa de outra.

Pobre classe C. Só quer ganhar a vida e deixar de ser assaltada em cada esquina. Ainda tem gente que acha que a maioria das pessoas vítimas da violência são da classe média (a ruim). Uma bogagem, trata-se da classe C (a boa), justamente porque está com a bandidagem intranhada em seu interior. Tudo que querem é um espaço que possam levar os filhos e andar com segurança. Será pedir muito?

Reativando o blog

Mesmo sem postar por quase 5 anos o material desse blog é visitado por mais de 100 pessoas todos os dias, com muita gente ainda comentando.

Quando parei de escrever aqui foi porque não vi esperanças de mudanças para a situação brasileira, pelo menos no curto e mesmo médio prazo. Simplesmente cansei de tratar sempre das mesmas coisas, dos mesmos assuntos.

A situação não mudou muito mas começo a ver reações isoladas que mostram que uma nova intelectualidade pode estar surgindo, à margem da universidade, como só assim poderica acontecer. Esse para mim é um dos maiores acertos do Olavo de Carvalho; não há salvação para o Brasil antes de recuperar a alta cultura brasileira. É preciso primeiro que as idéias corretas comecem a circular para só então se formar homens práticos para colocá-as em execução. Todos os homens práticos da atualidade, os políticos, estão tomados pelas idéias revolucionárias e sua distinção se dá apenas nas práticas. Alguns se entregam completamente a qualquer meio para atingir seus fins; outros possuem limites morais e éticos. E essa é a maior distinção entre PSDB e PT, por exemplo. Por isso a prioridade de curto prazo deve ser retirar o PT do poder o mais rápido possível, mas não nos enganemos. Nada disso vai resolver os problemas brasileiros, apenas vai dar mais tempo para que se formem os políticos com as idéias corretas na cabeça, como abertura econômica, liberdade de consciência, dignidade da pessoa humana, fundamento moral transcendente, etc.

Essa etapa não pode ser pulada, é preciso que entendamos isso. O Brasil não tem como melhorar na atual geração, apenas pode evitar piorar. Sem alta cultura, sem travar a guerra das idéias, ficaremos alternando entre manter a situação ou piorar ainda mais. Não se formam homens de ação sem os pensadores que os precedem. Os comunistas sabem bem isso e por isso tomaram as universidades ainda na década de 70, debaixo das barbas dos militares. Por isso dominaram as redações dos jornais. Por isso tomaram as telenovelas. Vejam, eles começaram esse processo na década de 60 e só foram chegar ao poder de fato e de direito em 2002. Foram 40 anos de projeto até sua realização. E tudo começou com a ocupação dos espaços na cultura.

Felizmente a internet abre uma potencialidade incrível para que as idéias circulem. Hora de ocupar espaço. Justamente o que pretende esse blog.

Bom 2014 a todos e bom combate!

Memórias de uma guerra cultural

The Sword of Imagination _ Russell Kirk

Memoirs of a Half-Century of literacy conflict


Quando a década de 50 começou nos Estados Unidos, a imagem era do triunfo do liberalismo, entendido como a crença no racionalismo e no progresso através da escolha de corretos modelos políticos, econômicos, social, educacional, etc. Lionel Trilling publicava The Liberal Imagination, um conjunto de ensaios literários que mostrava sobretudo que não havia mais idéias conservadoras ou reacionárias em circulação. Apesar de liberal, ele reclamava dessa situação pois impedia que os liberais fossem forçados a examinar suas próprias idéias e aperfeiçoá-las.

Neste contexto surge um jovem intelectual que desde cedo demonstrou uma inclinação pelas idéias conservadoras. Com o tempo, Russell Kirk tornou-se a principal voz de um novo conservadorismo, ou simplesmente um renascimento do conservadorismo, iniciando um movimento que culminaria na eleição de Ronald Reagan e a colocação de conservadores no poder.

A história dessa guerra cultural, ou conflito literário, e de sua própria vida, Kirk conta em terceira pessoa em The Sword of Imagination, suas memórias. O retrato que fez de si mesmo é de um homem de idéias, que entrou no debate no pior momento possível, defendendo idéias consideradas ultrapassadas e que não encontrariam eco nem entre os republicanos, a direita política americana. Metodicamente, Kirk atuou em duas grandes vertentes para virar este jogo considerado perdido.

Primeiro, resgatou e apresentou para a América nomes como Samuel Johnson, Edmund Burke e Toqueville. Em 1953 publicava, com surpreendente sucesso, The Conservative Mind: From Burke to Santayana, demonstrando principalmente que determinadas idéias, e disposição, eram perenes pois eram expressão de uma ordem moral duradoura, que não competia ao homem criar, mas descobri-la.

Segundo, chamou atenção para uma retomada da defesa do conservadorismo que acontecia em trabalhos isolados por várias mentes inspiradas, como Eric Voegelin, Leo Strauss e outros. Através de seus artigos e conferências, estabeleceu um canal para que estas vozes se comunicassem e um debate conservador passasse a existir. 
Ao término da década de 50 as bases já estavam formadas para uma transformação de mentalidade que chegaria ao americano médio apenas décadas depois e que encontrariam no ex-ator e governador da Califórnia o canal de expressão do descontentamento com as promessas do liberalismo. Nas palavras de Kirk:

ordinarily the passage of some three decades had been required for a body of convictions to be expressed, discussed, and then at length incorporated into public policy _ or else to be rejected.

Foram três décadas (50 a 80) para que este corpo de idéias conservadoras chegassem ao homem comum e ele pudesse eleger um governo autenticamente conservador com a vitória de Reagan sobre Carter. Nesse período houveram governos republicanos de Eisenhower e Nixon, mas de maneira nenhuma podem ser chamados de conservadores autênticos. Para Kirk, faltava-lhes a capacidade imaginativa necessária para conceber as diversas situações humanas e decidir com clareza, capacidade que se manifestou em Reagan, mas que faltou em seu sucessor George Bush, abrindo caminho para o retorno de um governo liberal em 1992 com Clinton.

The Sword of Imagination é uma grande meditação sobre o poder das idéias em uma sociedade e como a imaginação é fundamental para a política. Se a política é a arte do possível, é preciso que se consiga imaginar o possível para realizá-lo. A falta desta capacidade em homens no poder leva a decisões trágicas como a intervenção no Vietnã e o borbardeio do Iraque na Guerra do Golfo, punindo ainda mais uma população que era oprimida pelo próprio governo.

É também uma reflexão sobre a necessidade de compreender as idéias opostas e saber dialogar com elas, coisa que o próprio Trilling advogou mas que foi incapaz de exemplificar quando se deparou com o ressurgimento de idéias conservadoras, como criticou Kirk. Muitos de seus debatedores, liberais de várias correntes, são descritos com simpatia e sempre buscando as bases comuns. Ao mesmo tempo, ele critica os homens sem idéias, sejam de que lado estejam, como Eisenhower, Bush, Lyndon Johnson e Jimmy Carter.

Um livro para os conservadores entenderem de onde vem certas convicções e para os liberais sinceros entenderem que ser conservador não é uma deformação de caráter, mas um impulso que possui razões honestas para existir, mesmo que estejam erradas. E que idéias tem consequências, mas que exigem um período de maturação para se revelarem no campo político. Considerando que só agora no Brasil certas idéias começam a circular, será preciso uma boa espera. Enquanto isso, vale o lema: a política é a arte do possível. E talvez o possível hoje seja um esquerda menos canalha do que a que temos no poder.

O caso da Portuguesa e nós como sociedade

O Campeonato Brasileiro não acabou, declarou o presidente do STJD. Talvez tenha razão, talvez nem tanta, mas o fato é que o episódio da escalação de um desconhecido jogador por um time tradicional, mas de pouca relevância atual, revela muito mais sobre o que somos como sociedade do que efetivamente sobre o esporte e explica porque estamos onde estamos.

Não vou aqui entrar em briga de torcida e rejeito qualquer discussão tola com torcedores do Fluminense, até porque duvido que exista um clube, uma diretoria, uma torcida, que não se comportasse da mesma forma, talvez de forma ainda pior, se fosse com eles. O Fluminense não é nenhuma exceção no panorama esportivo, ao contrário, revela o padrão comum do futebol brasileiro. Por incrível que pareça, a participação do clube em dois episódios no passado pode até prejudicá-lo hoje. Mas não é esse o assunto que me dispus a escrever. Interessa-me mais a ligação do episódio com nós, os brasileiros reais, que agem na história.

Chamou-me atenção a quantidade de pessoas que tiraram o regulamento não sei de onde e esfregaram na cara dos seus detratores. Está tudo aqui. Não vê? É no artigo X, sub-item XYZ. O Fluminense _ e repito, poderia ser qualquer outro time _ não tem nada a ver com isso. Quem errou foi a Portuguesa e deve pagar. Se não aplicarmos a lei como será o futuro? Questão de justiça.

Essa é uma das palavras que toda vez que é pronunciada publicamente me acende um sinal de alerta em algum lugar. Justiça. Ela se tornou um termo tão amplo, e vazio de significado, que pode significar qualquer coisa. Podemos dizer realmente, sem nos envergonharmos, que seria justo o rebaixamento de uma equipe que superou com dignidade tantas dificuldades, inclusive erros grosseiros de arbitragem, para conseguir uma vitória que praticamente valeu como um título, conseguir chegar na última rodada disputando um amistoso? Ah, mas está escrito! Está na lei! E o que não está escrito neste país que tem lei até para saleiro em lanchonete? Que não se pode levar dinheiro trocado para comprar pão porque um grupo de luminares decidiu que somos incapazes de comprá-los por unidade? Que estamos prestes a decidir que apenas um partido político vai poder receber financiamento privado? Acho difícil que algum brasileiro não tenha em algum momento infringido alguma norma. Vou contar uma coisa para vocês, os gregos, que apesar de antigos eram sábios, fizeram todo um gênero literário apenas sobre o conflito entre as normas escritas e a justiça. Chamava-se tragédia. Leiam Antígona e entenderão do que estou falando.

O caso afronta o bom senso do princípio ao fim. Tivesse a Portuguesa lutando pelo resultado e colocado um jogador irregular em campo, eu não teria absolutamente nada a dizer. Mas não foi isso que aconteceu e não se pode ignorar as condições concretas e particulares. A Portuguesa jogou um simples amistoso sem a menor expectativa de ganhar qualquer vantagem. Não havia nenhuma vantagem possível de ser ganha, o que revela que tratou-se de um descuido do clube e não um ação que visava fraudar uma competição. Puni-la com os 4 pontos é não distinguir os dois casos, é tratá-la como um clube que tivesse feito o mesmo com propósitos ilícitos. É tratar de forma igual duas situações diferentes. Se isso não cabe na definição de injustiça, conheço pouca coisa que caiba. São Tomás de Aquino ensinava que as normas são sempre gerais e que as situações humanas são particulares e concretas. Saber aplicar as normas gerais na situação real é onde se encontra a sabedoria.

Uma sociedade não pode ser melhor do que os indivíduos que a constituem, ensinava também o velho Platão. Mais que isso, ele acreditava que uma sociedade justa só poderia ser produto de indivíduos capazes de se amarem, de se colocarem no lugar do outro e fazer a pergunta de ouro: e se fosse eu no lugar dele? Você que bate no peito para dizer que a Portuguesa deve ser punida com o rebaixamento por um erro honesto, que não visava nem obteve nenhum benefício, até porque era impossível, consegue por um momento tirar sua camiseta de torcedor e se colocar no lugar da Portuguesa e dizer sinceramente que ela deve ser punida tão severamente? Para salvar sua cabeça vale colocar a do próximo em uma bandeja? Não se trata de ter pena da Portuguesa, mas aplicar a ela os princípios que gostariamos que fosse aplicados a nós, quando cometermos um erro de mesma natureza. Sim, está escrito. Mas nenhuma lei é perfeita e temos que ser capazes de julgar as particularidades. Não ter essa capacidade, achar que quando for a meu favor a lei deve ser aplicada doa a quem doer, é criar um impedimento para o funcionamento harmônico de qualquer sociedade. 

Se retirarmos todas as camadas de informações e formos na essência do problema, chegaremos a um ponto claro: a Portuguesa não visava e não obteve nenhum benefício com seu erro; além do fato que nenhum benefício era possível. Puni-la com o rebaixamento é aplicar uma pena desproporcional a qualquer dolo, contrariando princípios básicos não só do direito, mas do também do bom senso. Ao dizer que o problema é da Portuguesa e não tenho nada a ver com isso, estou fazendo uma declaração contundente sobre o meu papel na sociedade e da consideração que tenho com o próximo. Se a lei estiver do meu lado, independente do mérito, sinto muito, azar o seu. Uma sociedade que acredita que um dispositivo legal é superior a qualquer consideração ao próximo está fadada ao fracasso e não vai passar disso. A grande verdade é que muitas vezes para sermos justos temos que ter coragem de aceitar nossas responsabilidades com o próximo e não usar a lei como salvação para nossos erros.

Removidas as aparências, o que resta é um clube se defendendo de uma acusação mas sendo julgado por outra, como tantas vezes aconteceu na história e uma vez ficou registrada em uma célebre apologia. O crime da Portuguesa não foi escalar um jogador irregular, mas se impor em uma primeira divisão sem ter uma torcida que justifique; de ocupar o noticiário e o horário nobre com poucos se interessando pelo seu destino. Aí entra também uma grande hipocrisia. Se é assim, é melhor acabarmos logo com esse negócio de rebaixamento e fazer um campeonato com apenas os 20 times comercialmente mais vendáveis, como fazem os americanos com suas ligas profissionais. Mas não vamos abrir outro tópico de discussão.

Que não se façam com a Portuguesa o que não gostaríamos que fizesse conosco. Talvez seja essa a essência do que seja justiça. Temos sempre que pensar bem na hora de evocá-la. Podemos ser suas próximas vítimas.

 

(13 de dezembro de 2013)

Retomar?

Há 4 anos que deixei de escrever neste blog. Para minha surpresa, até hoje ainda existem leitores e volta e meia recebo inscrições de seguidores. Isso me deu o que pensar.

Devo retomá-lo? Não é uma decisão tão simples quanto parece, envolve uma série de medidas e tentar lembrar o que me fez parar de escrever aqui. Vou pensar nisso nos próximos dias.

 

Toffoli e Marco Aurélio Mello

Ano passado, Marco Aurélio Mello deu uma entrevista sobre o aborto de anencéfalos. Uma das perguntas, e a reposta, foi a seguinte:

Mas o STF está preparado para discutir esses assuntos?
Meu tempo na corte dura mais oito anos, quando completarei 70 anos. E tenho certeza de que ainda estarei aqui quando essas discussões acontecerem. A tendência é de uma abertura cada vez maior do Supremo em relação a esses temas. Mesmo porque outros ministros, alguns com visões mais conservadoras, se aposentarão antes de mim.

Este resposta em incomodou de imediato. Marco Aurélio estava esperando que alguns ministros se aposentassem para que sua tese prevalescesse, um expediente que achei vergonhoso. Se tem convicção da sua interpretação da constituição na questão levantada, deveria acreditar que conseguirir convencer os adversários, emprego o termo na forma de quem discorda em uma discussão, e não torcer para aposentadoria.

Pois um deles se “aposentou” do tribunal e da vida, mas isto é outra estória.

Toffoli acabou de anunciar que não se sente impedido de julgar o caso Battisti. Para quem não lembra, o caso encaminhava-se para a extradição do criminoso quando Marco Aurélio pediu vistas. O que pretendia? A questão não era desconhecida, pelo contrário, era até bastante debatida; por que pediu vistas ao processo?

No dia seguinte, li que o ministro recém empossado poderia votar no processo. Alguns blogueiros já demonstravam o que seria uma manobra de Marco Aurélio para vencer a disputa, ganhar tempo para que Toffoli pudesse votar e dar o voto salvador para o terrorista italiano.

A esta altura, o fato de Toffoli votar não muda a pretensa intenção de Marco Aurélio. Retomando a resposta sobre o aborto de anencéfalos, faz todo o sentido o pedido de vistas. Se isso aconteceu de fato, o ministro praticou uma canalhice completa, uma atitude nojenta e vil, que depõe contra qualquer condição de ética que possa ter. Usar a morte de um colega para garantir a libertação de um assassino, apenas para atender sua vaidade, é algo de monstruoso.

Marco Aurélio Mello terá protagonizado um dos atos mais abjetos que um homem público jamais cometeu neste país. Deveria ir para a lata de lixo da história. Pode fugir da justiça dos homens, mas terá que se ver com a justiça divina pela cumplicidade moral com um terrorista e pelo preço que cobrou sua vaidade.

G1 diz que Micheletti e Zelaya se recusam a negociar. Como?

Vejam o que saiu no G1, com destaque no Noblat:

Presidentes interino e deposto se negam a negociar uma solução. Zelaya permanece refugiado na Embaixada brasileira em Tegucigalpa.

Do G1:

A crise política em Honduras continua sem solução, já que o presidente interino do país, Roberto Micheletti, e o presidente deposto, Manuel Zelaya, se negam a negociar. Enquanto nenhum dos lados cede, Zelaya permanece refugiado na Embaixada brasileira em Tegucigalpa, capital hondurenha.

Na sexta-feira, o governante interino afirmou que a melhor solução é o país escolher um novo presidente. Micheletti afirmou que está disposto a renunciar, mas descartou completamente a volta de Zelaya. Por outro lado, o presidente deposto só aceitar negociar se retornar ao poder do país da América Central.

Comento:

Vejam o tamanho da impostura. Zelaya só aceita a sua volta ao poder. Micheletti, por sua vez, diz que aceita renunciar para a escolha de um novo presidente. Como assim se recusam a negociar? Como assim nenhum deles quer ceder? Micheletti está sedendo simplesmente a presidência, desde que, como manda a constituição, não seja para Zelaya.

O que falta para a imprensa brasileira escrever manchetes em acordo com o que a própria matéria diz? O lead deveria ser: “Micheletti aceita renúncia, Zelaya mantém-se inflexível”, ou coisa semelhante. Uma vergonha.