De volta

Foi uma semana ausente, por motivos profissionais.

Estive isolado, sem acesso à internet, sem ver televisão ou ler jornais. Bom para pensar um pouco.

Hoje dei uma rápida olhada nas últimas notícias. O mesmo de sempre, muita podridão, falta de vergonha, de pudor.

Tem horas que dá vontade de voltar para a alienação, a doce alegria da ignorância.

Não sei bem o por quê, mas continuo. Lendo, meditando, escrevendo. Tentando entender um pouco este mundo estranho, onde o mal parece sempre prevalecer sobre o bem. Especialmente em um país onde se perdeu a compostura e se afunda cada vez mais na lama em que se meteu.

Amanhã volto com corda total.

Fala o ministro da defesa…

O sr. vai se inteirar disso?
Não me diz respeito.
Que atitudes o sr. vai tomar contra a ex-diretora Denise Abreu?
Não vou tomar nenhuma atitude a esse respeito.
Mas isso envolve a Anac.
Não envolve a Anac coisa alguma. Isso envolve exatamente a venda judicial. Isso foi conduzido pelo Poder Judiciário. É tudo da área deles.
O sr. não vai avaliar a participação da Anac?
Não vou avaliar coisa nenhuma.

Era melhor nem dar entrevista, né?

Editorial da Folha

O terçado (facão) é um símbolo poderoso da violência primitiva e desumanizadora em várias áreas do mundo, como boa parte da Amazônia e da África. Ele voltou à cena no lamentável episódio de Altamira (PA) em que saiu ferido, felizmente sem maior gravidade, Paulo Fernando Rezende.

A agressão exige repúdio unânime, sem evasivas, e investigação célere

. É imperativo identificar e responsabilizar criminalmente o agressor, ou agressores.

O engenheiro da Eletrobrás coordena o inventário da bacia do rio Xingu, onde a empresa prepara a construção da controversa usina hidrelétrica de Belo Monte.

Comparecera como convidado para expor as características do empreendimento à platéia de cerca de mil pessoas do Encontro Xingu Vivo para Sempre. De boa vontade, portanto.

O mesmo não se pode dizer das centenas de índios, muitos deles do grupo étnico caiapó, que chegaram armados com bordunas e terçados.

Não há lugar, neste caso, para relativismo antropológico: quem aceita participar de um debate se compromete a esgrimir apenas palavras.

Seria no mínimo ingenuidade, beirando a má-fé, pretender que os caiapós -que têm longa história de contato com brasileiros de origem européia- desconheçam essa regra elementar de convívio.

Não há como escapar: os índios estavam ali para repetir a cena de 19 anos atrás, noutro debate sobre a mesma hidrelétrica (chamada ainda de Cararaô), quando uma índia chegou a encostar seguidas vezes o facão no rosto do então presidente da Eletronorte, José Antônio Muniz Lopes, mas sem no entanto feri-lo.

Os organizadores, é evidente, têm responsabilidade parcial na agressão. Sabedores do precedente, não poderiam aceitar facões no recinto de discussão.

Pior figura fez Roquivam Alves da Silva, do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), que se atreveu a falar em “guerra” contra Belo Monte logo após a apresentação do engenheiro.

Começa mal, em resumo, a retomada do diálogo com movimentos sociais da região sobre a usina e a melhor forma de construí-la.

O impacto ambiental do projeto sofreu redução apreciável; basta mencionar que a área de inundação diminuiu em dois terços. Os empreendedores alegam que as terras indígenas não serão mais afetadas.

Os caiapós podem discordar, mas devem abster-se de tentar impor seu ponto de vista pela força. Ao reincidirem na violência contra interlocutores, devem sentir sobre si todo o peso da lei.


Não há muito o que acrescentar. O Editorial está quase perfeito, trata-se de uma escolha que a sociedade deve fazer entre ter energia para promover o desenvolvimento econômico ou voltar ao tempo do arado. E ao estado cumpre proteger brasileiros. TODOS. Não apenas os que são mais brasileiros do que os outros. Como bem sacou Reinaldo Azevedo há três tipos inimputáveis no Brasil: crianças, idiotas e petistas. Índios devem seguir a lei.

Folga

Hoje é dia de folga.

Depois de uma semana com duas provas é tempo de relaxar um pouco, o que, no Brasil, significa NÃO ler noticiário político. Ainda mais quem está no campo oposto ao atual governo.

Amanhã volto à carga.

Um pouco mais sobre Raposa-Serra do Sol

Globo:

Professor do Departamento de Antropologia da Universidade Brasília (UnB), Stephen Baines desenvolve uma pesquisa sobre etnologia indígena e Estados nacionais, na qual analisa casos de Brasil, Canadá e Austrália – que enfrentam debates comuns, tais como a demarcação e a exploração das terras destinadas aos índios. Para o professor, não existe nenhum modelo que possa ser copiado pelos brasileiros, pois as diferenças entre as condições de cada país são enormes.

Isso posto, observa: os aborígines da Austrália têm território maior que o dos índios brasileiros; em 1999 o Canadá destinou a indígenas área contínua quase cem vezes maior que a da polêmica Raposa Serra do Sol e isso não causou problemas; e em todas as terras indígenas abertas à mineração empresarial houve problemas ambientais e culturais. Baines acredita que qualquer decisão no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a homologação da Raposa atentará contra a Constituição e assegura: “Os rizicultores são os invasores.”

O pensamento de Baines mostra bem o que pensa a maioria dos antropólogos brasileiros sobre o tema e é uma série de equívocos.

Se em todas as terras indígenas abertas à mineração ocorreram conflitos, por que então se insistir em colocar as reservas indígenas sobre áreas ricas em minérios? Não faltam terras na Amazônia para tanto. O que ele não explica é que se a quantidade de terras por índio fosse aplicada ao contingente de 1500, o Brasil seria pequeno. O índio hoje está recebendo mais terra do que jamais possuiu, mesmo antes da chegada dos portugueses.

O antropólogo também “esquece” que a principal questão levantada pelas Forças Armadas não é o fato da reserva ser contínua, mas ser contínua em uma faixa de fronteira, o que é muito diferente. Soma-se ainda o fato de o Brasil ter assinado uma declaração que impede o poder público de circular livremente sobre estas terras.

Afirma que qualquer decisão do STF será contrária à Constituição. Mas não é justamente o STF quem diz o que é constitucional ou não? Pode-se criticar suas decisões, mas eles são os defensores da magna carta. Ainda acho que uma decisão deles tem mais respaldo do que a de um antropólogo da UNB.

Por fim chama os rizicultores de invasores. Não é verdade. Estão na área há muito tempo, levados pelo próprio governo. São importantes para a economia de Roraima e para a própria sobrevivência do Estado. São cidadãos brasileiros, como os próprios índios, e que precisam ser protegidos pelo estado.

O que estes antropólogos não contam é que a maioria dos índios querem se integrar ao restante do Brasil. Não querem viver à margem da sociedade, sem seus benefícios, isolados em reservas para manter intocada sua cultura. Cultura é algo dinâmico, que se desenvolve a cada dia, incorporando novos valores, extirpando alguns. Ela não é estática no tempo como se pretende fazer com os índios, muitas vezes contra sua própria vontade.

Não há sentido manter vivo um passado apenas para deliciar os estudos de alguns antropólogos.