Gourmetização de tudo

Ontém eu fui em uma cafeteria aqui em Bogotá e experimentei um café feito pelo tal método sifon, que ressalta a acidez e perfume do café.

Parecia uma experiência química, até com aula do funcionário da cafeteria. Acende o fogo e a água ferve em um recipiente, elevando-a para um recipiente superior onde se mistura com o café. Depois se desliga o fogo e ela desce, passando pelo filtro.

Sim, vivemos a época da gourmetização de tudo e não sei muito o que pensar disso tudo. Só sei que me divirto pacas. Sim, é mais caro, mas tenho a consciência que não estou pagando só pelo café.

Não precisamos ter opinião sobre tudo, principalmente pelo que não conhecemos. Muitas vezes queremos apenas curtir. Não podemos nos levar a sério demais.

Nike revolveu lacrar: seu direito. Assim como as consequências

Colin “Copérnico” vinha de duas temporadas medonhas quando resolveu iniciar seu protesto. Depois de duas temporadas fantásticas, com um superbowl e uma final de conferência perdidas no detalhe, todas por uma bola, ele caiu absurdamente. Pessoalmente acho que foi o mesmo que aconteceu com outros QB que tinham o forte no jogo corrido. Os times aprenderam a anular as infiltrações e evidenciaram suas limitações no que deve ser a melhor qualidade de sua posição: o lançamento. Não é o primeiro que isso aconteceu, nem será o último. Essa tática não funciona contra Russell Wilson, por exemplo, porque este é capaz de lançar e muito bem.

Ou seja, era um jogador que tinha chegado em uma barreira. Pergunto-me se teria feito o que fez se ainda estivesse no topo. Não temos como saber. O fato é que não trocou o sucesso por um ideal, como a Nike tenta vender com sua propaganda, obra de marqueteiros cada vez mais ideológicos, mas de alguém frustrado que encontrou no lacre uma forma de se manter em evidência.

A Nike tem todo o direito de fazer sua aposta, mas o consumidor também tem todo o direito de fazer sua escolha e boicotar a marca. Lacre, nos dias de hoje, tem consequências. Ainda bem. O mundo fica melhor quando a pele está em jogo.

O TSE e o julgamento bizarro

Distante dos acontecimentos no Brasil, curtindo um fim de semana no interior da Colômbia, não posso deixar de comentar rapidamente o julgamento que indeferiu a candidatura do Senhor Luis Inácio.

Não me lembro de alguma vez ter escutado algo parecido. Um tribunal superior eleitoral reunir-se para decidir se um condenado, que cumpre pena, pode concorrer ao cargo máximo de um país. É uma degradação absurda. Nem era para um juiz decidir sobre isso. O funcionário que recebe o pedido de candidatura deveria, de ofício, já meter o carimbo de indeferido. Onde já se viu bandido candidato? Pior que a gente sabe que esta porcaria de causa ainda vai subir para o supremo, onde os ególatras metidos a deuses do Olimpo vão promover mais um espetáculo televisivo. Imagino que será novamente indeferido, mas ainda terá uns 3 ou 4 votos a favor do absurdo.

Aliás, registre-se que ontem um ministro do STF, alegando o cumprimento de um bilhete escrito por uma dupla de sub-funcionários da ONU, votou pela candidatura do corrupto comprovado e a Sra Rosa Weber deu um voto que ninguém entendeu, que o candidato poderia fazer campanha só não poderia ser candidato, ou alguma esquisitice do gênero.

Volto a repetir, nada é tão nefasto para o país hoje do que os ministros que foram colocados no supremo. Não é de hoje que quando precisam julgar com juízes dos tribunais superiores tomem um banho. Nossos ministros, em geral, não tem estatura, nem moral e nem técnica, para ocuparem as cadeiras que ocupam. Eles transformaram um instituição confiável em motivo de chacota e vergonha para os brasileiros de bem, que sim, são maioria.

Difícil superar esta âncora que mais de 20 anos de presidentes de esquerda criaram para o país. A maior de todas.

ONU não é instituição filantrópica

Infelizmente, em pleno 2018, a maioria dos brasileiros continua acreditando que a ONU é alguma instituição filantrópica que está aí para fazer caridade e promover o bem da humanidade. Se já teve este propósito um dia, não sei, mas hoje está bem longe disso. Ela pode até estar empenhada em fazer o bem, mas é um bem muito particular, fruto de um entendimento de mundo de uma parcela bem reduzida da sociedade, os intelectuais progressistas.

A agenda da ONU é a agenda do PSOL. Temos que acabar com a equação que ONU = BOM. Ela não está acima do bem e do mal e não é critério de julgamento. Pouca coisa causou tanto mal para a humanidade, por exemplo, quanto a UNESCO. Ela não quer educar de verdade, quer formar o cidadão do mundo, pronto a viver dentro dos critérios que ela tem estabelecido para o planeta.

A ONU tem muito mais a ver com controle do que com liberdade. Quando as pessoas pararem de dizer amém a cada uma de suas resoluções no campo cultural e questionar seus princípios, talvez não sobre nada que preste. Ela é mais uma das idéias de Kant que deram muito errado. Ela pode até ter sido concebida com as melhores intenções, mas hoje é um organismo que procura gerar o caos para vender sua ordem. Ela é um mecanismo que hoje está nas mãos de loucos.

Política: mantenha uma distância segura

A política anda tão contaminada, e de nível tão baixo, que é quase impossível se ocupar dela e não ser contaminado espiritualmente. Por isso há grande sabedoria naqueles que sempre disseram que não se deve ser completamente alienado, mas também não pode se deixar envolver completamente. Ela contamina até as mais altas inteligências. Aliás, talvez contamine ainda com mais força estas altas inteligências.

Vejo a cada dia pessoas que pensavam com bom senso, moderadamente, se perdendo e se tornando exatamente aquilo que se opunham. Vejo a vaidade como o grande mal a ser vencido no coração de quem se dedica seriamente a uma atividade intelectual. Sim, pois a medida que vamos aprendendo, ganhamos também um impulso terrível de nos acharmos melhor do que os outros simplesmente por ter conhecimento. Há algo de profundamente gnóstico nisso tudo. Uma consciência livre entende o problema de se acreditar que entende como o mundo funciona e sabe qual é a solução porque tem conhecimento, porque “lê livros”. A coisa mais importante que aprendi com o Padre Sertillanges é que sem humildade, não há conhecimento. E nem se deve dedicar a uma vida de estudos.

Nos últimos dias tenho deixado de seguir gente no twitter que pouco agrega, que vive para fazer militância. Estou procurando desintoxicar minha TL pois sinto que já começo a ser afetado pela virulência da discussão política. Antes, não a tínhamos porque não havia direita para discutir com a esquerda. Hoje temos discussão, mas no nível lamentável. É melhor? Sim. Acredito que com o tempo a coisa vai melhorar pois os falsos sábios vão se revelando a cada dia.

No mais, tenho Chesterton como exemplo. Comprou todas as guerras intelectuais de seu tempo, sempre de forma combativa, mas sem jamais ofender um opositor. Aliás, era capaz de mostrar todos os erros do sujeito, elogiá-lo pelo que acertou e terminar como amigo. Isso praticamente se perdeu. Confundimos combatividade com agressividade. Falta caridade. Falta espírito cristão.

Espero que ao fim deste período eleitoral tenhamos separado o joio do trigo e que pelo menos alguns dos virulentos façam a necessária auto análise e reformem seus comportamentos. Por enquanto, estão dando vexame.

Tenho procurado uma distância segura da política para que possa avaliar de forma geral os acontecimentos, mas sem me deixar contaminar por eles. É difícil, nem sempre encontramos com clareza este lugar, e muitas vezes somos tentados a mergulhar no estrume.


Em tempo: claro que estou falando dos que se declaram de direita, pois a esquerda faz tempo que não tem pensamento independente nenhum. Limitam-se a repetir slogans e por isso mesmo tem cada vez menos discussão interna. As discussões dentro da direita são a prova que mesmo que errando muito, não seguem bovinamente palavras de ordem de engenheiros sociais. Ainda bem.

A Grande Guerra e suas causas

Terminei de ler hoje A Grande Guerra que Acabou a Paz (The War that Ended Peace: The Road to 1914), da historiadora Margaret MacMillam. Parece difícil acreditar, mas a Europa que virou o século XX estava tomada pelo otimismo. Desde a derrota de Napoleão que o continente atravessava um período de paz e prosperidade e havia uma sensação que a guerra era um assunto superado, coisa do passado bárbaro. Graças a ciência e o comércio, o futuro era da realização plena da humanidade.

Tudo isso ruiu em uma década. Como foi possível? Como os líderes europeus permitiram que o assassinato de um herdeiro de um império decadente se transformasse em um conflito entre nações e muito rapidamente em uma guerra mundial? O que aconteceu para que as crise, como acontecera por três vezes nos Balcãs nos anos anteriores, desta vez arrastasse a Europa e o mundo para uma carnificina jamais vista?

Através de 700 páginas, MacMillam nos mostra todos os líderes e países envolvidos no caminho que levou ao conflito. Seu principal argumento, e me parece válido, é que foram tantas personagens e interesses envolvidos que não dá para apontar um culpado único. Analisando cada causa, cada uma intricada com outra, fica difícil perceber como poderia ter sido diferente, mas ao mesmo tempo ela evitar cair no fatalismo de que a guerra era inevitável. Não era. Os estadistas da época puderam decidir entre a paz e a guerra, e optaram pela última. A conclusão que a historiadora chegou é que faltou imaginação aos personagens para perceber o que significaria aquela guerra e coragem para resistir a pressão e mais uma vez optar pela paz, como fizeram por diversas ocasiões durante a década que antecedeu a guerra.

No fim, valeu a advertência melancólica do ministro de relações exteriores britânico, Edward Grey, que tanto trabalhou para manter a liberdade de decisão da Inglaterra até o último minuto (o que pode ter sido um dos fatores para a guerra), feita no dia que em que decidiram pela guerra:

Apagaram-se as luzes sobre a Europa e talvez não voltaremos a vê-las em nosso tempo de vida.

Flannery O’Connor e um alerta para a discussão política

Li hoje meu segundo conto da Flannery O’Connor. The Barber (1946) conta a estória de um professor (Rayber) que se envolve em uma discussão política com seu barbeiro sobre a eleição que se aproxima. Como bom intelectual, ele tem uma posição progressista, em torno de um candidato que defende o fim das leis raciais. O barbeiro, de espírito conservador, defende o candidato oposto.

O conto mostra os limites da discussão política e o fracasso de desejar vencer discussões sem tentar entender a outra parte, especialmente quando se imagina em uma posição superior, tanto moral quanto intelectualmente. Ficou para mim o alerta de um antigo professor de Rayber: “eu nunca discuto”.

Ainda vou tratar mais deste conto.

Lista de vídeos para assistir

Aproveitando os últimos dias para assistir vídeos do youtube que estava na minha lista de “assistir depois”. A lista tinha mais de 40, muitos colocados há uns 2 ou 3 anos. Em geral, palestras.

Fiz uma limpa de vídeos que não estavam mais disponíveis, de assuntos que perdi o interesse e ficou pouco mais de 30. Comecei a assistir e já são 29 restantes. O último foi do Mateus Leme, tradutor de Tremendas Trivialidades, do Chesterton, tratando do livro.

No processo, descobri uma preciosidade. Palestras de 15 minutos de um padre do Broklin, Robert Lauder, sobre literatura católica. Cada vídeo ele trata de um livro. Estou devorando-os e me forcei a dar uma parada. Poder e Glória, Brideshead Revisited, Diário de um Pároco de Aldeia, The Moviegoer, minha lista de leitura só aumentando!