Viver o século

É comum escutarmos que temos que viver nossa época, seguir os padrões da sociedade em que vivemos. O famoso zeitgeist que dizia Nietzsche. Mas devemos mesmo? Temos que viver o século?

Em seu pequeno livro de Conselhos para a Direção do Espírito, Alphonse Gratry diz que não. Ele entende que estamos sujeitos a dois movimentos, um providencial e regular referente as coisas eternas e perenes, que valem para todas as épocas, que nos conduzem para junto de Deus e outro caprichoso e perverso, é o que denomina século. Este segundo é o modismo, a tentativa de se firmar contrariando toda sabedoria acumulada pela humanidade.

Para ele “romper com o século não é romper com a humanidade, é unir-se à humanidade e, ao mesmo tempo, a Deus”. Chama atenção também para a necessidade de silêncio para se contrapor à algazarra do mundo.

E você, o que acha?

STF perdeu o medo e resolveu retornar o país para o status quo

Nos últimos anos tivemos um alento ao ver corruptos ricos indo para a cadeia, sendo condenados em várias instâncias. Não é segredo para ninguém que a CF de 88 foi feita para impedir que isso aconteça. Como nem tudo é perfeito, ela deixou algumas poucas brechas, que foram exploradas pelo MP e um juiz corajoso o suficiente para enfrentar as raposas.

Pois o STF encontrou uma tecnicidade que não está escrito em lugar nenhum para anular tudo e voltar o país para a estaca zero.

É a revolta das elites. Quem somos nós para querer que fosse de outra forma? Não entendemos que o Brasil não foi feito para nós e sim para gente como boa parte dos ministros que estão na corte suprema.

O Brasil não tem solução.

Parece que até Deus largou mão e desistiu da gente.

Brasília e seus direitos

Brasília é uma cidade peculiar. Existem direitos que são quase que exclusivos de seus moradores.

Um exemplo é o direito de estacionar.

Não tem vaga? O problema não é meu. É do estado. O direito a uma vaga de estacionamento é mais que constitucional, é direito natural ou divino (há os que dizem que é a mesma coisa).

Se o estado não me destinou uma vaga, estou automaticamente autorizado a estacionar onde eu bem entender. Em cima da calçada, em fila dupla, na grama, no meio do estacionamento, não importa, é meu direito.

Afinal, sou o dono de Brasília.

Diretor ou ator?

O renascimento trouxe uma outra concepção de mundo, em que o homem ocupa a posição central na vida. Ele é a medida de todas as coisas.

Não podemos esquecer que o renascimento nasce dentro do cristianismo, onde o centro da existência é Deus, que não só criou o mundo (o cenário) como age na história (as situações). Não significa que a vida humana é dirigida por Deus ao ponto de tirar nossa liberdade. Por um ato de amor, Ele nos quis livres e para isso nos dá uma possibilidade de decidir e agir dentro dos limites que nos foi colocado. Nesse aspecto, Deus é como um diretor de uma peça e nós somos atores, que podemos improvisar muitas situações.

Já na concepção renascentista (e depois humanista), o homem dirige a própria vida. Ele constrói sua existência e é responsável por sua história. Deus está morto, dizia Nietzsche. Nós nos tornamos pequenos deuses a governar nós mesmos.

Com estas colocações, fica fácil entender o que Shakespeare queria dizer com sua famosa colocação:

O mundo inteiro é um palco
E todos os homens e mulheres não passam de meros atores
Eles entram e saem de cena
E cada um no seu tempo representa diversos papéis.

Mais que entender, podemos compreender qual era a visão de mundo de Shakespeare. Ela era profundamente cristã e medieval, além de absurdamente inspirada. Foi realmente um gênio.

Seleção Brasileira: o que fizeram dela?

A grande verdade é que Tite e seus antecessores conseguiram a proeza de tirar do torcedor o prazer de assistir a seleção brasileira. Ela foi aos poucos transformada em uma massa burocrática de inibição de talento pois o que interessa é ganhar a copa do mundo.

O interessante é que quanto mais nosso objetivo passa a ser ganhar a copa, mais longe ficamos dela.

À rigor o último grande time do Brasil foi aquele de 2006, derrotado tanto pela França quanto pela empáfia de jogadores e comissão técnica.

Tempos difíceis. Entre perder a copa jogando bem e ganhar a copa jogando mal, escolhemos jogar mal. E vamos perdendo as copas do mesmo jeito.

Cuidado com os discursos!

Em tempos de rápido acesso à informação através da internet, temos que redobrar o cuidado com os discursos. É fácil receber em seu celular um discurso de algum político ou pessoa influente, especialmente quando parece estar de acordo com o próprio pensamento. É preciso sempre ter um cuidado com aqueles que “falam bem”. Eles possuem a capacidade de nos convencer de muitas coisas.

O discurso é um instrumento de convencimento, de usar nossas percepções para nos levar a conclusões que nem sempre chegaríamos sozinhos e, pior, nem sempre estão certas. Por isso no diálogo Protágoras, de Platão, Sócrates ameaça deixar a discussão se o famoso sofista não parasse de discursar.

O que Sócrates propunha era o diálogo. Perguntas e respostas, de preferência curtas. Ele reclama que respostas longas costumavam fazê-lo esquecer do ponto principal e não colaboravam para seu principal objetivo, a busca da verdade.

Protágoras tenta reagir e fugir do debate, mas as pessoas que estão assistindo apelam para que continue e discuta com Sócrates. O que Platão estava querendo nos dizer é que para buscarmos a verdade das coisas precisaríamos sempre refletir sobre os dois lados em disputa, seja debatendo com alguém ou mesmo dialogando com nós mesmos. Esta era a essência do método que criou com o nome de dialética. Alternância de idéias para buscar a mais segura.

Recuperar o sentido disso é um dos maiores desafios do debate público nos dias de hoje. Infelizmente a polarização está tão acirrada que pouco se aproveita dos chamados debates nas redes. Na televisão e na academia a coisa é ainda pior. O debate é sempre promovido entre aqueles que pensam parecido, como se pode ver em qualquer mesa de discussão nos programas de tv ou as chamadas “discussões acadêmicas”. O debate verdadeiro é coisa rara nos dias de hoje. E por isso mesmo a verdade é tão atacada e até esquecida. Quem se importa com a verdade?

O importante é vencer uma discussão.

Sala de aula: uma maravilha

Querem um exemplo de hipocrisia?

Sempre que se vai criticar a educação à distância, a aula presencial vira uma maravilha. Alunos, que estudaram previamente um tema, discutem de maneira construtiva com mediação de um professor que domina plenamente o assunto.

Realidade: raramente se lê previamente o material de uma aula. Discussão construtiva? Onde esse pessoal vive?

Ouvi de um deputado-médico (ou médico-deputado) que ele lembra de todos os conteúdos que recebeu em sala de aula há 30 anos atrás.

E nem ficou vermelho.