Reflexões de uma Pandemia – 1

Se entendi bem o que o Ministro Mandeta disse hoje no Jornal Nacional, a expectativa é de termos 50% de infectados. É pior que eu imaginava. Significa que mortes são inevitáveis e a luta é para salvar uma parte, prolongando a curva para reduzir a pressão sobre o sistema de saúde.

Há uma sensação que os governos escondem algo de nós. De minha parte, eu vejo os números da Itália e não vejo como correspondente ao grau das medidas de isolamento. Estamos tratando como se estivesse no pico, mas e não estiver? E se a pandemia só conseguir ser controlada quando todos forem infectados?

São muitas perguntas de tirar o sono. Não consigo pensar com clareza e tenho quase nenhuma certeza do que está acontecendo. Aliás, quase ninguém tem; mas tem uma turma que finge saber das coisas, seja de um lado ou de outro.

É possível que os governos saibam que não há muito a fazer e que essas medidas mais duras são até certo ponto inúteis. Eles, relutantes a início, estão fazendo porque precisam mostrar que estão fazendo mais do que realmente esperar que a crise de dissipe por si só. Eles sabem que não há muito o que fazer, mas a tentativa de pelo menos salvar a economia tem um custo político muito alto que não dá para pagar.

Estamos em um trade off macabro. Gente sensata, mas em pânico, grita que entre a saúde e a economia temos que salvar a saúde. Mas e se a economia for a única coisa que podemos salvar? O tempo dirá se temos realmente uma opção. Nossa esperança é ser uma Taiwan ou Japão. Mas será que eles realmente estão salvos da pandemia ou a pancada ainda vai bater?

Essas reflexões não possuem fundamento nenhum. São apenas tentativas bem grosseiras de organizar algumas opiniões, puro palpite. Não sei se alguém de fato está entendendo o que está acontecendo.

Só nos resta rezar para não sermos sorteados nessa loteria macabra de mortes.

Bate papo literário

Uma das coisas mais difíceis em um país com poucos leitores de livros é encontrar alguém para conversar sobre literatura.

Hoje, no meio da agitação da firma, encontrei um colega que adora Agatha Christie e Georges Simenon.

Paramos o que estávamos fazendo e batemos um papo sobre os dois autores. Valeu o dia.

História de um Casamento (ou de um Divórcio)

Primeiras notas:

  1. O filme tem uma tese, e está no discurso-chilique da advogada Nora.
  2. Sociedade é machista e a mulher só é livre fora do casamento, que é uma corrupção de um relacionamento saudável. Não por acaso a advogada é divorciada e modelo de sucesso no filme.
  3. Claro que Charlie tem suas falhas, quem não as tem? O filme não convence nos motivos para o divórcio, já que fica parecendo que os dois ainda se amam.
  4. A estória é toda óbvia. A gente sabe desde o início o que vai acontecer.
  5. Fiquei indignado com Nora. Ela é uma advogada manipuladora, com chutes no nível da cintura, mas é mostrada como uma pessoa cool, que dá suporte moral para Nicole, quase como se fossem duas amigas ao invés de uma cliente.
  6. O advogado de Charlie também é do mesmo nível, mas, detalhe fundamental, é mostrado como um cara escroto, quase um vilão.
  7. Muito boa a atuação do Adam Diver.
  8. A pessoa de mais senso no filme é o advogado Bert, vivido por Alan Alda. Não por acaso é descartado porque não é páreo para Nora.
  9. A briga de Charlie e Nicole é muito forçada.
  10. Por que este filme não chama história de um divórcio?

Não dou conta!

Existe tanto conteúdo bom na internet, tanto curso sensacional que podemos fazer no próprio youtube, que fica uma certa frustração pelo tempo que não temos.

Minha lista de vídeos para assistir só cresce, bem como a lista de artigos que vou adicionando ao instagram.

Sério, precisaria de um dia de 40 horas para dar conta de tudo isso.

Já houve uma época na história da humanidade que era possível ler tudo de relevante já publicado. Agora temos que viver com a constatação que mesmo com todo o esforço não chegaremos a 5%.

Frustrante.

Irã: guerra?

Achei no mínimo curioso que o ataque iraniano não tenha feito vítimas americanas. Foram uns dez foguetes e não acertaram nada.

Quase como se o Trump tivesse passado as coordenadas. Pode atirar aqui, é uma caixa d´água. Aqui também pode, vai estar vazio. Ah, esse lugar também está ótimo.

O Irã fez uma demonstração de força para seu público interno, que deve ter outra narrativa, muito bem controlada pelo governo, claro.

O Trump tem uma desculpa para não revidar; não houve vítimas.

E todos viveram felizes para sempre.

Quer dizer, menos a mídia que bem queria uma guerrinha para ganhar audiência, ir para os holofotes e, de quebra, meter pau no laranjão.

E para os artistas que já estavam preparando seus atos pela paz mundial e, de quebra, meter pau no laranjão.

Flamengo: efeitos das contas em dia

Como é que o Flamengo consegue vender jogador por valores que muitos clubes formadores, como Vasco e Fluminense, não conseguem?

Bem, começa pela organização das finanças. Com contas em dia, o que inclui negociação responsável de dívidas, o clube pode exigir o valor das multas rescisórias enquanto outros vendem bem abaixo das multas porque estão desesperados para pagar contas e INSS. Negociar valores com a corda no pescoço, e o outro lado sabe disso, nunca foi uma boa estratégia.

Outro efeito é que tem jogador preferindo ganhar menos para jogar no Flamengo que outras grandes equipes brasileiras. Um dos motivos é saber que será pago. O próprio Flamengo sofreu isso por décadas. Como era mau pagador, tinha que pagar bem mais para trazer os bons jogadores. Gerava o ciclo vicioso. Não pagava, tomava processos, ganhava mais fama negativa, contratações cada vez mais caras. Deu no que deu.

Continuo vendo o choro de torcedores com a atual situação. Nem discuto mais. Façam o ajuste, que é dolorido, não se enganem sobre isso, pode incluir uma vista ou duas para a série B, e criem o ciclo virtuoso. A era dos gastadores que empurram as dívidas para a administração futura acabou e ainda não perceberam.

A modernidade chegou, enfim, ao futebol?

5 Notas da Semana

Um dos meus esforços ao longo da semana é me libertar da prisão do dia-a-dia, de ficar preso na rotina e nas circunstâncias como acontecimentos políticos, brigas de redes sociais, discussões rasas e etc. Uma forma de fazer isso é através da cultura, buscando aquele universal que os grandes criadores nos fornecem; mas nem só de alta cultura vive o homem; sempre há tempo para a cultura popular ou cultura pop (são coisas, muitas vezes, distintas).

Nesse espaço, separo 5 notas sobre o que andei fazendo na semana. Espero que gostem!

Um livro que estou relendo

Ganhar de Lavada (Scott Adams). Uma forma de fazer a leitura errada deste livro é como alguma apologia ao Trump. Nada mais falso. Adams é o cartunista do Dilbert, um quadrinho que faz uma crítica sensacional à vida corporativa. Scott é um especialista em persuasão e identificou no então candidato republicano um mestre neste jogo, do mais alto nível de persuasão, a militar. O livro apresenta um filtro para enxergar a realidade dos dias de hoje, que tem por base o fato, poucas vezes reconhecido, que somos irracionais em 90% das vezes, especialmente quando estamos emocionalmente envolvidos. As razões são posteriores a nossas escolhas e destinam-se mais a justificar o que escolhemos irracionalmente do que ser base de uma decisão. Trump apresentou ao mundo um exemplo formidável de como fazer isso e através de uma jornada por sua campanha e primeiros dias na presidência, Scott Adams nos mostra a teoria e prática sobre a arte da persuasão. Quer saber? Quem não leu este livro ainda não tem a menor idéia do que está acontecendo no mundo atual. Com certeza tem gente da equipe do Bolsonaro que leu, pois ele está aplicando várias técnicas com maestria.

Um disco que estou escutando

Rio (Duran Duran). Sempre torci o nariz para bandas como Duran Duran; afinal, meu início foi no rock pesado dos anos 80, como Iron Maiden e Judas Priest. Duran Duran era o “inimigo”, pelo menos na minha cabeça de jovem idiota (um pleonasmo!). Outro dia achei um vídeo no youtube onde o Gastão, ex VJ da MTV, comentava seus prazeres escondidos, aqueles artistas que escutamos sem contar para ninguém. Ele citou este disco como um dos exemplos. Fiquei curioso e coloquei para escutar. Que disco excelente! Quando coisa boa deixei passar por estes purismos que não nos levam a lugar nenhum.

Dois filmes que re-assisti:

Star Wars e Empire Strikes Back. A culpa foi da última trilogia. Os dois diretores retardados e aquela imbecil que preside a Lucas Film entenderam tudo errado e fizeram o possível para estragar a mair franquia já criada e deixa sérias dúvidas sobre os planos da Disney para as próximas décadas. Para limpar minha mente de tanta baboseira, como o retorno escroto do Palpatine e destruição da imagem do Luke, tratei de assistir, com meus filhos, os dois melhores filmes do universo Star Wars. A pergunta que fica é como conseguiram sair dali para aqui. A criatividade de montar uma boa estória se perdeu com o avanço da tecnologia. Hoje temos efeitos fantásticos e uma narrativa miserável. Antes tínhamos efeitos construídos no muque, mas sobretudo uma boa estória para contar. Pelo amos de Deus, tirem essa tal Kennedy da Lucas Films!

Um tema que tenho me dedicado

Mapas Mentais. Já usava essa técnica faz tempo, com excelentes resultados. Entretanto, senti que me faltava os fundamentos e fui na obra de seu criador, Tony Buzan. Na verdade, os mapas mentais fazem parte de um tema maior ainda, que muito me fascina, a não linearidade. Tenho me interessado muito em visões espaciais em contraste com listas e tópicos.

Um pensamento

Só existem duas espécies de homens, uns justos que se julgam pecadores, outros pecadores que se julgam justos.

Pascal, Pensamento 562

E vocês? O que fizeram de interessante? Adoraria saber! Comentem!

Futebol brasileiro e a teoria de agência

A teoria de agência diz que há uma diferença de interesse entre o proprietário e quem executa um serviço para ele. A governança corporativa nasce desta constatação e procura resolver esse dilema com ferramentas como planejamento estratégico, auditoria, conselho administrativo independente, etc.

Os clubes brasileiros não possuem donos, são entidades sociais. Quer dizer que de certa forma, pertence à sociedade, particularmente aos torcedores desses clubes. Os dirigentes são eleitos para, em nome do interesse social dos clubes, exercer a chefia executiva.

Uma diretoria eleita por um período de 2 ou 3 anos está preocupada em fazer o melhor possível e alcançar resultados durante sua gestão. Parece coerente, mas o problema mora justamente aí.

Nem sempre os melhores resultados durante uma gestão são o melhor para o clube no longo prazo. Por isso é tão comum o endividamento. Eu faço dívida agora, ganho títulos e depois os próximos que se lasquem para pagar as contas. O último grande exemplo é o Cruzeiro. Montou um time acima de suas possibilidades e empurrou a conta para o futuro, que finalmente chegou. E tudo por que? Por duas copas do Brasil.

O Flamengo parece ter entendido essas premissas e estão implantando as ferramentas de governança para impedir que se faça a mesma coisa, principalmente quando a atual diretoria se despedir. Dará certo? Depende da constância dessas ações, da força de resistir às tentações da gastança. Hoje, está dando um exemplo que os outros clubes poderão seguir. Infelizmente vejo que a maioria está em estado de negação, recorrendo a chavões e teorias conspiratórias para justificar um sucesso que tem por base a boa gestão.