Carta aberta a uma médica

Sei que existem muitos médicos que não acreditam em tratamento precoce para o covid, assim como tenho próximo alguns que tem sérias objeções de foro íntimo para aplicar qualquer tratamento que não tenha comprovação científica no maior nível possível. Eu nunca teria coragem de ser médico, pois sei o tamanho da responsabilidade que um médico assume com a vida de seus pacientes, muitas vezes navegando em um terreno exploratório, com poucas informações confiáveis. Conheço médicos sendo hostilizados por não receitarem hidroxicloroquina ou outro medicamento do gênero. Muita gente tem cruzado a linha com estes profissionais.

Só que tem outro lado também. Existem médicos que estão se arriscando para tentar salvar os pacientes utilizando todo conhecimento que possuem, seja da própria experiência ou da de colegas. Por mais que o paciente dê consentimento para estes tratamentos, estes médicos tem suas consciências para lidar, seus dilemas morais e a incerteza de muitos pontos. Hoje conversei com uma médica experiente, que está fazendo tratamento precoce, inclusive bem mais completo que simplesmente receitar o kit hidroxicloroquina + azitromicina + zinco. Ela me disse que faz semanas que dorme muito pouco, pois depois que faz a “ronda” por videoconferência com os pacientes, que costuma ir até tarde da noite, ainda tem que ler artigos recém publicados ou relatos de experiências que estão tendo sucesso. Ela está buscando a informação mais atual que possibilidade melhorar seus próprios tratamentos.

Na conversa que tivemos, ela desabafou: estou sendo chamada de curandeira, feiticeira, charlatã, mas não me importo. Só acredito que tenho que fazer o possível para curar meus pacientes e dizer a eles que devem ficar em casa esperando o ciclo do virus passar não é opção para mim, pois viola o que acredito de medicina. Nós já temos muito mais informações sobre o virus que meses atrás e lamento que muitas vida que se perderam pudessem ser salvas hoje com o que sabemos. Eu acredito que o paciente tem o direito de ser tratado e é o que estou fazendo com aqueles que me procuram.

Não vou entrar em nenhuma consideração política, apenas peço que respeitem os pacientes e os médicos que assumem os riscos de realizar o tratamento precoce, com que medicamento for. A esses médicos minha admiração e reconhecimento pela coragem de assumir esta atitude, mesmo que seja incompreendido por muitos. Você são meus heróis. Particularmente a Doutora R, que já mora em nosso coração.

Viramos estatística: o covid nos pegou

Confirmado mesmo está minha esposa e meu filho mais velho, os primeiros com sintomas. Ela, dor no corpo, cansaço, nariz entupido. Ele, dor no corpo. Fizeram o exame no início da semana e saiu a confirmação hoje.

Minha filha do meio está com bastante coriza e teve dor de cabeça. A filha menor não teve nada. Temos uma visita em casa, que está conosco há dois meses. Também sem sintomas.

Eu? Leve irritação na garganta e também uma leve dor de cabeça. Nem adianta eu e a filha fazermos exame, já sabemos o que virá.

Estamos fazendo tratamento, com acompanhamento médico, protocolo completo: hidroxicloroquina, azitromicina, vitamina z, d, invermectina. Não sei se essa negócio funciona, mas aceito meus riscos. Se for placebo, que seja.

No mais, vamos tocando. Esposa e filhos já melhoraram bem.

Dizem que o período crítico é do 7º ao 9º dia dos primeiros sintomas. Justamente neste fim de semana para a patroa. Vamos acompanhando e rezando para não termos nenhuma complicação.

Segue o baile.

Small is Beautiful: o problema do homem economicus

Alguns livros conseguem nos encantar a cada frase; Small is Beautiful é um desses. É um livro sobre economia, mas num sentido mais amplo do que nos acostumamos. Para Schumacher, a economia é parte de um tudo e não pode ser visto isoladamente, a partir de abstrações como acontece usualmente. Ele rejeita totalmente o homem economicus, assim como qualquer outra simplificação.

Somos um tudo, um ser complexo, que nos ligamos com a matéria, os outros, o mundo, Deus, realidades que são colocadas diante de nós de forma simultânea. Pensar o homem apenas sob o prisma quantitativo, em termos de custos e benefícios, é nos reduzir à humanidade.

Somos muito mais que um homem economicus, ponto de vista que é compartilhado por, entre outros, Guerreiro Ramos em A Nova Ciência das Organizações. Somos a sociedade que foi tomada pela lógica do mercado, algo único na história humana.

Covid: não foi desta fez

Depois de 3 dias isolado no quarto, finalmente fiz o exame do covid, aquele do cotonete. Deu negativo, vida que segue; não foi desta vez.

Digo isso porque é bem possível que boa parte de nós tenhamos o covid de uma forma ou de outra. Cada vez sou mais descrente da eficácia destas medidas de restrição. Acho que nossa melhor arma continua sendo água e sabão (e a invermectina, que tomamos todos aqui em casa).

Falam do positivismo dos militares, mas ninguém foi mais positivista nessa crise que governadores, prefeitos, médicos mandetianos, intelectuais, juízes e jornalistas ao colocar a ciência como valor absoluto, ignorando seus princípios e limites metodológicos.

Room office

Ficar preso em casa já é ruim, imagine preso no quarto?

Na segunda tive contato com alguém que foi positivado para covid. Significa que tenho que cumprir um protocolo agora de 14 dias de isolamento para não ter risco de contaminar ninguém, CASO eu tenha sido infectado.

Por segurança, somos 6 aqui em casa, fui isolado em um dos quartos. Como é suíte, não saio nem para ir no banheiro. Estou com zero sintomas e amanhã vou fazer exame (o ideal é entre o 5 e 7 dia). Fazer antes é besteira. Provavelmente vai dar negativo.

É uma experiência interessante se isolar dessa maneira. Minha esposa deixa a comida em uma mesinha colocada na porta. Ela toca o sino e se retira. Só então posso abrir e pegar a bandeja. Estou há 3 dias sem contato com ninguém.

Faz parte desta praga que nos atingiu. Ela vai embora.

Brasil: o jeitinho é realmente nosso grande problema?

O problema do Brasil é o jeitinho, a confusão do público com o privado, a tendência de entender a vida pública como extensão da família, etc. Assim nos dizem os grandes intérpretes da cultura brasileira (e muitos asnos palpiteiros também).

E se for o inverso? Explico. Queremos ser a Europa, impessoais no trabalho, verdadeiros autômatos, que cumprem regras fielmente, sem fazer distinção de pessoas ou seguir as próprias percepções. Não por acaso há tantas distopias com ambientes “hospitalares”, tudo muito arrumadinho, limpo e… desumano!

Temos mil problemas com nosso jeito de ser, mas será que somos um fracasso tão grande? Outro dia Dom Bertrand disse uma frase que ficou gravada na minha memória: um país que alimenta um terço da humanidade não pode ser considerado um fracasso. Eu acrescentaria, um país que se torna a sétima ou oitava economia do mundo com índices educacionais tão ridículos tem algo a ser estudado. Se tirássemos a violência, este sim um problema crônico, mesmo com todas as nossa mazelas, ainda seríamos um bom lugar para morar. Será que queremos ser realmente primeiro mundo? Queremos ser um europeu rico, sem filhos, sem Deus, com ajuda estatal para tudo e usar nossas férias para fazer turismo?

Luis Sérgio Coelho de Sampaio foi o primeiro a me despertar para este problema em seus vídeos sobre antropologia cultural no youtube (considero esta série de vídeos um dos maiores tesouros da rede). Guerreiro Ramos em A Nova Ciência das Organizações me dá outro insight, o da lógica de mercado invadindo toda a vida social. Não somos este tal de homem econômico, somos muito mais ricos que isso. E talvez o Brasil ainda tenha algo de preciosos que o tal primeiro mundo perdeu faz tempo.

Antes do sol nascer

Escutei em um podcast que acordar antes do sol nascer é uma boa prática. Nos torna despertos e mais produtivo ao longo do dia. É um momento para ler, pensar, se preparar para o que vem pela frente.

Resolvi experimentar. Estou no segundo dia.

Acordo pouco antes das seis. Faço um café sem açúcar e me coloco a ler; minha mesa fica em frente à janela. O primeiro dia foi ok, não senti sono e realmente fiquei bem animado. Repararam no trabalho.

Vamos ao segundo.

Small is Beautiful – Notas

Do livro de E. F. Schumacher, publicado em 1973

  1. A equação de produção infinita de bens de consumo com recurso finitos não vai fechar.
  2. Uma sociedade baseada em consumo crescente e sem limites tem um sério problema.
  3. A economia não pode ser o centro da organização social.
  4. Se todos os países do terceiro mundo se tornassem desenvolvidos, não haveria recursos naturais para sustentar
  5. Cidades são um problema quando passam de um certo número de habitantes (algo como 500 mil). Agregam mais problemas que benefícios.
  6. O principal recurso produtivo sempre será a educação.
  7. A educação não se confunde com a instrução técnica da modernidade. Ela se dirige à sabedoria.
  8. A paz não é resultado da prosperidade, mas de sociedades mais sábias.
  9. O trabalho tem um valor intrínseco e não deve ser eliminado da vida das pessoas.
  10. A idéia de ajuda para o terceiro mundo tem por base replicar os esquemas dos países desenvolvidos e ignoram a cultura local.
  11. A ajuda tem por foco as grandes cidades do terceiro mundo e pouco fazem para fixar o homem no interior.
  12. Mesmo nos países desenvolvidos, o foco nas grandes cidades gera um desequilíbrio perverso.
  13. É saudável que grande parte da sociedade esteja em atividades produtivos, inclusive no campo.
  14. Implementar tecnologias intermediárias é mais importante no terceiro mundo do que tecnologias de ponta.
  15. O pequeno é natural e bom. O grande é problemático.
  16. Proposta de acabar com propriedade privada para as grandes empresas e corporações (metade tem que ser pública).
  17. Incentivar os pequenos negócios.

2020, o ano que a máscara do terceiro poder caiu

Sempre se falou da corrupção nos poderes executivo e legislativo. Sempre símbolos da corrupção que assola a nossa sociedade.

Este ano, apesar de tudo de ruim que vem acontecendo, caiu a máscara do terceiro destes poderes, aquele que costumava ser visto como o fiel da balança.

O brasileiro está acordando para seu judiciário.

E não está gostando do que vê.

(Em tempo: o quarto poder está enfiando o pé na jaca e também vai terminar arrasado. Especialmente a Rede Covid de Televisão)