Vamos churrascar?

Desde que começou a pandemia no Brasil que não faço um churrasco. Tempo demais!

Hoje vou reunir uns amigos e assar uma carne. Brasília amanheceu ensolarada, bonita. Tudo para ser um grande dia.

Este ano já fui internado por covid, retirei a vesícula. Acho que mereço algo singelo como fazer um churrasco.

Os profetas da desgraça já estão em histeria com previsões de 2021 pior que 2020. Enquanto os deuses decidem nossas sorte, vou colocando carvão e fazendo meu fogo.

A deformação da democracia

Independente da forma de governo, e da constituição, creio que é função do estado promover o bem comum, respeitando a dignidade das pessoas. O bem comum não corresponde necessariamente à vontade de qualquer grupo, mesmo que seja um grupo majoritário. É perfeitamente possível que o desejo da maioria seja contra o interesse geral, incluindo a própria maioria.

Infelizmente a democracia moderna tornou-se instrumento da implementação de desejos cada vez mais particulares, que atendem os grupos de influência e não o bem comum. Em As Leis, Platão alertava que o bem comum une uma sociedade e os desejos tendem a separá-la:

a verdadeira arte política necessariamente zela pelo interesse público e não pelo privado, isto porque o interesse público aglutina os Estados enquanto o privado o rompe.

Não é surpresa que os estados nacionais estejam cada vez mais desordenados e com conflitos cada vez mais latentes. Somente a promoção do bem comum, através de soluções de compromisso, pode dar suporte a uma ordem perene na sociedade.

Estamos caminhando para o caos.

E como afirmou Platão, e nos mostrou George Lucas, do caos nasce a tirania.

Eric Voegelin: as 3 condições de uma democracia

Eric Voegelin não se deixava enganar por rótulos. Não basta dizer que um determinado país é democrático para ser realmente democrático. A quantidade de nações totalitárias que tinha democracia no nome demonstravam isso.

Ele entendia que eram 3 as condições de uma democracia:

1- Um aparato institucional. Partidos políticos, imprensa livre, sistema eleitoral, direito ao voto, debate público, justiça funcionando, etc. Este é o nível básico, e o mais fácil de instalar. Mas, por si só, não garante um regime democrático.

2- Uma elite política comprometida com os valores democráticos. Se ela não existir, todo este aparato institucional será usado para impor um regime autoritário, com o agravante que terá um verniz de democrático.

3- Um programa de governo que possa ser aprovado nas eleições e avaliado durante sua realização. Para isso, a população em geral tem que entender a proposta e ter os mecanismos para acompanhar, e se for o caso, impedir seu desvirtuamento.

Eu tinha certeza que estes dois últimos já não existiam no Brasil (e alguns outros países chamados democráticos) faz tempo. Agora vejo que o primeiro também já foi comprometido.

Somos cada vez mais democracia só nominalmente.

Conto da Semana: Caso de Mentira (Marques Rebelo)

A mentira é, antes de tudo, uma arte. É o que nos mostra este conto do Marques Rebelo, comparando a forma como o narrador e seu irmão, ainda crianças, contam mentira para o pai.

Contar uma mentira não se resume à mentira em si, precisa de boa imaginação para preencher os detalhes e torná-la verossímil, mesmo que a pessoa não acredite nela. Acho esta a parte mais interessante, o pai sabe que o irmão do narrador contou uma mentira, mas o fez com tanto talento que acaba por se render.

Já no caso do narrador, é justamente o que lhe falta, a imaginação. E sem imaginação, resta-lhe um papel de um mentiroso vulgar.

Educação liberal

Publicado em 1987, o ensaio The Conservative Purpose of a Liberal Education é um dos melhores textos do Russell Kirk.

Liberal no contexto que ele apresenta não tem nada a ver com corrente política, que terminou sendo associada à esquerda americana, mas no sentido de libertar o estudante. Libertar do que? Da prisão do espaço e do tempo. Do provincialismo que vivemos quando não usamos nossa razão apropriadamente.

Esta educação liberal se opõe à chamada educação profissional ou técnica, que tem seu mérito, mas não produz as lideranças que uma sociedade necessita para se desenvolver. A universidade de hoje mais parece uma agência de empregos do que um templo de sabedoria.

A educação deve ser voltada para desenvolver a ordem correta da alma e não para nos conseguir empregos melhores. Sem uma educação liberal, uma sociedade passa a ser governada por uma máquina supervisionada por especialistas, uma elite sem imaginação moral e deficiente em seu entendimento de ordem, justiça e liberdade. E depois disso, o caos.

É o mundo que Edmund Burke chamou de mundo do antagonista, da loucura, discórdia, vício, confusão e uma tristeza inútil.

Eleições 2020: meus pitacos

  1. Em todo ocidente há dois temperamentos que dividem as pessoas: o reformista e o conservador. Nenhum deles em si estão errados, mas o exagero leva a dois tipos extremos: o revolucionário e o reacionário. A grande maioria de nós está em algum ponto entre estes dois. Costumamos usar os termos esquerda e direita, mas acho esta classificação bem problemático. O fato é que, grosso modo, uma sociedade tem uns 30% de um lado, 30% do outro e uns 40% no centro. Estes 40% que na maioria das vezes decide as eleições. Isso é o geral, no particular a coisa é diferente. Se observarmos bem, as grandes cidades, tem muito mais esquerdistas e nas médias e pequenas os conservadores são maioria. Basta ver o mapa dos votos nos EUA e na Europa. O Brasil não é muito diferente. O grande problema que temos, a meu ver, é não termos opções conservadoras ou de direita. O resultado é que existe um gigantesco contingente que não encontra forma de expressão e acaba votando no “menos esquerda”. Eu sou um exemplo: já tive que votar nos porcarias do Aécio, Alckmin e Serra (nunca vou perdoar o PT por isso).
  2. Em 2018, o Bolsonaro, fez campanha afirmando ser de direita, algo INÉDITO no país em eleições presidenciais pós CF-88. Basta lembrar o Aécio dizendo que “para direita não adianta me empurrar que não vou” e o Lula dizendo que a eleição de 2010 era uma evolução porque todos os candidatos eram de esquerda.
  3. A situação era tão complicada em 2018 que qualquer um que dissesse ser de direita ganhou eleições (vide Witzel).
  4. O problema é que a cultura política que se construiu no pós “democratização”, com apoio da mídia, é que direita era o mesma coisa que demônio e TODO partido brasileiro passou a se declarar de esquerda. Vejam o próprio PFL, mudou para “dem” para se identificar com os partido democrata americano. Todos tem social no nome, nenhum usa o termo conservador.
  5. O resultado foi termos eleição disputada entre Aécio x Dilma X Ciro ou Serra x Lula, etc. Ou seja, uma esquerda light (PSDB) e uma radical (PT), mas que na propaganda da mídia era direita (PSDB) x centro esquerda (PT).
  6. Só num país como o Brasil pode-se chamar PSDB de direita e PMDB de centro.
  7. Quem mais trabalhou para impedir a candidatura do Bolsonaro em 2018, e quase conseguiu, foi o PSDB. Eles sabiam que se Bolsonaro fosse candidato, eles perderiam o voto da direita (um voto que ele sempre tiveram nojinho, diga-se). Foi o que aconteceu. PSDB teve 5% de votos.
  8. O sistema trabalhou para evitar candidatos de direita e o fato do governo não ter partido ajudou muito isso. Não temos partido de direita e um candidato declaradamente de direita é algo raro (quase todos tem medo da mídia).
  9. Ou seja, nosso sistema é totalmente torto. Os votos existem, mas faltam os candidatos para recebê-los.
  10. Volto ao mesmo ponto: que opção tinha SP ou RJ? Só ver a lista de candidatos. Só piora a cada ano.
  11. Por fim, quem perdeu mesmo com o bolsonarismo foi o PSDB. Deixou de ser a opção à direita. Cada vez mais ele se torna um partido restrito à São Paulo e se segurando na força do governo do estado, que está na mão de um político que não é exatamente um tucano autêntico.
  12. Só teremos o quadro completo no fim do segundo turno. É prudente esperar um pouco antes de tirar conclusões definitivas.

Lista de Russell Kirk sobre educação

Li hoje um ensaio inspiradíssimo de Russell Kirk sobre a educação liberal (a que realmente interessa). Ainda vou escrever sobre este ensaio, mas adianto uma lista de leitura que ele cita no texto:

1. The Abolition of Man – C S Lewis

2. Personal Knowledge – Michael Polanyi

3. Order and Integration of Knowledge – William Oliver Martin

4. The Road of Science and the Ways to God – Stanley Jaki

Fica a dica!

Sobre Padres e Sermões

Após o Vaticano II, algumas lideranças da Igreja passaram a ensinar que os sermões dos padres tinham que se adaptar ao público moderno, que seria incapaz de entender a densidade teológica da Bíblia. Certamente a mensagem tem que ser compreensível ao receptor, mas não creio que evitar passagens ou termos mais difíceis seja a melhor solução.

Acredito que a melhor prática para os pregadores seja jogar luz nestas passagens, torná-las mais claras ao grande público e aí as analogias com nossa vida cotidiana constituem excelentes instrumentos didáticos. Ao invés de desviar, enfrentar. Logicamente isso exige preparo teológico por parte dos padres, assim como uma boa orientação do Magistério da Igreja.

O Bispo Robert Barron, em seu livro Vibrantes Paradoxos, nos alerta que adaptar os textos bíblicos aos novos tempos apenas torna-os outros textos das modernidade e tira da Bíblia todo o seu diferencial e a extrema coerência teológica de seus diversos livros. Sem a compreensão, pelo menos básica, da teologia cristã, de que serve a Bíblia afinal?

A Igreja tem que trabalhar na conversão a partir da verdade e com a luz do magistério e não com versões “diet” do núcleo de sua fé.

Pacificação? União? Calando os divergentes?

As pessoas que vejo mais falando na necessidade de pacificação e união são justamente as mais empenhadas em calar qualquer voz que publicamente expresse opiniões que elas não concordam.

Há vários símbolos para calar os indesejáveis: fake news, teoria da conspiração, radicalismo, podem escolher, o objetivo é desqualificar a pessoa e impedir qualquer possibilidade de debate.

Esta operação envolve também pressionar patrocinadores e empregadores para que os indesejáveis percam suas fontes de renda e tenham que se render ao clima de opinião de nossa época, a ideologia progressista.

Embora a cada eleição, em tudo que país, possamos ver países cada vez mais divididos e polarizados, quase num 50% a 50%, esta divisão não se reflete nas classes intelectuais, formadas principalmente por jornalistas, professores e artistas. Nelas o progressismo ganha de lavada, com mais de 90% e por isso se tornou culturalmente hegemônico. Ser contra esta ideologia é ser motivo de perseguição, chacota e discursos morais de pessoas que se julgam superiores e melhores dos que ousam divergir.

Por um tempo a internet possibilitou que houvessem vozes discordantes, já que os ambientes universitário, midiático e artístico se tornaram praticamente hostil a qualquer opinião divergente. Mas já estão mudando isso e parece que vão conseguir.

No futuro próximo só poderemos colocar fotos de ursinhos nas redes sociais ou comentar notícias de acordo com os dogmas da ideologia que nos está sendo imposta.

O grande problema é que isso vai formando uma multidão silenciosa, que vai engolindo todos estes sapos, até ter a oportunidade de extravasar. Nos últimos anos, o voto acabou canalizando esta enorme frustração, mas se até este canal fechar, teremos problemas muito sérios no futuro próximo. Não se pode calar eternamente as consciências.