Andrei Rublev: meditando a beleza

Eu sempre acho que Deus fala comigo através das coincidências. Por exemplo, fazem alguns anos que tenho um filme do Tarkovsky na minha lista para assistir, mas entre uma desculpa e outra fui sempre adiando. Até que no sábado, lendo um discurso do Cardeal Joseph Ratzinger, que posteriormente se tornaria o Papa Bento XVI, em que trata da beleza, ele menciona, de passagem, a obra do Rublev.

Bem, se um dos meus heróis intelectuais faz referência a um pintos que é tema de um filme que está numa linha minha é porque Deus está me dando um recado sutil: para de enrolar e assista logo!

Foi o que fiz. Que filme belíssimo!

Não se trata de um filme biográfico tradicional, longe disso. Passando por episódios da vida de Rublev, quase como um guia, Tarkovsky faz uma meditação fundamental: como podemos produzir beleza no meio do caos?

É ou não é uma pergunta bem atual? Que aliás deve ter sido para o próprio cineasta, que filmou em pleno regime soviético, sendo logicamente censurado pelo regime comunista. Imagino que seu retrato dos tártaros não era muito diferente da política soviética de seu tempo. Assim como Rublev lhe serviu de veículo, talvez, para seus próprios dilemas.

O Homem Eterno: O Testemunho dos Hereges

Leitura de Domingo: Capítulo 4 da segunda parte de O Homem Eterno, de Chesterton.

Chesterton apresenta as principais contestações à Igreja do Cristo e afirma que todas são verdadeiras. Só todas estas coisas, o pessimismo, o asceticismo desumano, a condenação do mundo e do homem, a religião oficial, em suma, tudo que acusam a Igreja de ser é verdadeiro mas não se trata da Igreja. Estas coisas estão presentes nas heresias que surgiram nos primeiros séculos da cristandade, e a Igreja combateu a todos.

Para defesa da Igreja, Chesterton gostaria de chamar os hereges, pois estes seriam os primeiros a dizer que a a Igreja não é nenhuma destas coisas, pois eles foram combatidos por professarem exatamente estas coisas que acusam a Igreja.

Chesterton nos traz uma metáfora maravilhosa para o catolicismo. Ele é uma chave. O credo é como chave sobre 3 aspectos:

  1. é um objeto com uma forma. É uma filosofia de forma e inimigo da informidade. Sua utilidade está exatamente na forma que possui, caso contrário não conseguiria abrir a porta.
  2. é uma forma fantástica. Um ser primitivo que encontrasse uma chave perdida não teria a menor pista de sua utilidade, do que serviria. É um objeto perfeitamente arbitrário. Pouco importa se é bonita ou feia, ou ela encaixa ou não encaixa.
  3. seu formato é bastante elaborado. Com seus dentes e combinações, não pode ser feita ao acaso. Tudo parece complexo, só uma coisa é simples, ela abriu a porta.

Portanto, acusam a Igreja de ser tudo que ela combateu. Fica claro porque a Igreja sempre foi firme com as heresias. Se assim não o fizesse, seria confundida com estas coisas e perderia toda sua força de ser portadora de uma verdade. Assim como já acontece nos dias de hoje, onde seus críticos fazem uma imagem bem particular do que seja a Igreja para poder atacá-la, sem perceber que no fundo está dando-a razão, pois ela combate as mesmas coisas.

O Trabalho Intelectual, de Jean Guitton

Novo projeto de sábados: reler o pequeno livro de Jean Guitton, O Trabalho Intelectual. Guitton foi professor de filosofia na Sorbonne e dedicou-se a vida inteira aos temas da educação.

Capítulo I: Observando como os Outros Trabalham

Trata-se de um capítulo introdutório, onde Guitton apresenta o grande problema da falta de sistematização para os estudos. Desde criança somos submetidos aos processos educacionais, mas muito poucos dedicam-se a ensinar como se deve estudar para realmente aprender.

O trabalho intelectual exige duas qualidades contrárias: a luta contra a dispersão e um certo desprendimento em relação a este trabalho. Temos que ser sérios no estudo, mas não sérios demais.

A pedagogia moderna anula na criança o gosto pelo trabalho artístico, como se fosse uma exercício desordenado, colocando-as sob a tutela de horários, regras e hábitos.

Outro paradoxo é que aprendemos as lições que deveríamos aprender na infância na vida adulta, quando como professores ou como pais, retornamos ao contato com a educação infantil. Só aí podemos entender que muito do que nos ensinaram exigiam uma maturidade que só ganhamos anos depois.

Por fim, ele afirma que o trabalho intelectual tem relação com a espiritualidade. A modernidade separou estas duas coisas, e o ritmo que deveria ser quase litúrgico se tornou um ritmo das máquinas, próprio dos paradigmas da era industrial. É preciso uma visão integral do trabalho intelectual. Como dizia São Tomás de Aquino: “vela pela preparação, vigia os progressos , recolhe os frutos”.

Os Ícones de Rublev

Em 2002, o então Cardeal Joseph Ratzinger, escreveu um discurso chamado No Encontro com a Beleza, onde ele faz uma belíssima reflexão sobre o papel da beleza na revelação Cristã. Ainda vou falar muito sobre este texto, mas no momento chamo atenção para uma breve referência que ele faz.

Trata-se do pintor russo medieval Andrei Rublev, que viveu nos séculos XIV e XV. Rublev ficou famoso por seus ícones cristãos, que decoravam as igrejas bizantinas. Ratzinger o cita como um dos grandes exemplos de beleza, que transcende os padrões estéticos da Grécia pois nos abre para uma nova realidade, uma ligação com o que está além.

Tem um filme sobre Rublev que está na minha fila para assistir faz tempo. Acho que chegou a hora. Sempre procuro obedecer estas coincidências que a vida nos coloca. Muitas vezes é uma intervenção divina.

Batismo, Sec XV

Ao ar livre

Inspirado por um vídeo sobre a importância da vitamina D, que é um hormônio e não uma vitamina, tenho me esforçado para pegar 20 minutos de sol todos os dias, perto do meio-dia.

Paço protetor no rosto e lá vou eu, para uma pequena praça aqui em frente de casa.

Geralmente fico escutando algum podcast, preferencialmente sobre temas mais espirituais, que me inspirem.

Isso faz um mês. Seja por este fator ou não, o fato é que passei a me sentir melhor em muitos aspectos.

Precisamos do ar livre mais do que imaginamos.

A frouxidão do homem de hoje

“Já acredito há muito tempo que, se a eficiência cada vez maior da tecnologia de destruição um dia fizer que nossa espécie desapareça da Terra, não terá sido a crueldade a responsável por nossa extinção. Menos ainda a indignação que a crueldade desperta ou as represálias e vinganças que ela atrai (…) Terá sido a docilidade, a falta de responsabilidade do homem moderno, sua desprezível aceitação subserviente de qualquer decreto comum. Os horrores que já vimos, os horrores ainda maiores que logo veremos, são sinal não de que os homens rebeldes, insubordinados e indomáveis estejam aumentando em número no mundo todo, e sim de que aumenta constantemente o número de jovens obedientes e dóceis.”

George Bernanos

Estou cada vez mais convencido que está frouxidão está custando vidas na pandemia.

Eleição na Câmara: novos ares

Estão dizendo que a velha política voltou, se é que ela foi embora um dia, com a eleição do tal Arthur Lira para a presidência da casa.

Em política, dificilmente eu comemoro vitórias. Sou daqueles que comemora derrota dos outros.

E, convenhamos, a Câmara precisava dar uma arejada. Pode ser que logo mais, precise novamente, é do jogo.

Mas estava demais.

Pena que tem um poder que estaremos presos por décadas…

Papa Francisco: A Alegria do Evangelho

Vejo muitas críticas ao Papa Francisco, especialmente entre católicos, que o enxergam como um agente do comunismo ou do globalismo. Chamou-me atenção a virulência dos ataques nas redes sociais quando o aborto foi aprovado na Argentino, reclamando de uma suposta omissão do Papa. Confesso que dedico-me muito ao pensamento do papa anterior e pouco prestei atenção ao atual vigário de Cristo.

Há algumas semanas assisti um vídeo do Bispo Barron e em determinado momento ele diz que a chave para entender o papado atual é a exortação apostólica que Francisco escreveu em 2013, que seria quase um plano para o que pretendia fazer. Chamada A Alegria do Evangelho, ela tem cerca de 200 páginas e pela primeira vez tive uma compreensão maior do argentino.

Não, ele não é comunista e nem globalista, embora alguns trechos, se distorcidos, como a mídia costuma fazer, pode dar esta impressão. Aliás, lembro que distorcem até Jesus para este propósito como as bobagens que ele foi um imigrante, um líder revolucionário, o primeiro marxista, e outras que já ouvi por aí. Francisco tem uma preocupação muito clara, tirar o catolicismo da arena privada que foi colocado pelo secularismo. Não, diz ele, ser católico não é uma questão exclusiva de foro íntimo para ser vivida dentro de casa. Ela se expressa em nossa vida social e deve se expressar com alegria. O católico tem o dever de passar adiante todo bem que recebe, inclusive, e principalmente, a boa nova.

Francisco analisa a conjuntura atual, os imensos desafios, e a necessidade de levar a mensagem adequada para os tempos que vivemos, em que a cultura do liberalismo-progressismo é dominante, particularmente no ocidente. Resgatando um conceito de São Tomás, ele separa substância da evangelização, as verdades eternas da fé, da forma como ela é disseminada, que deve ser adpatada para o contexto local, seja ele qual for.

Para o Papa, temos um duplo dever: evangelização e caridade. As duas coisas precisam andar juntas. Não se trata de um serviço exclusivo para padres, mas para todos os membros da Igreja. É um chamamento. O católico tem que defender sua fé com alegria e colocá-la a serviço da sua comunidade.

O texto é riquíssimo, com muitos insights interessantíssimos sobre a cultura da modernidade. A Igreja, se confia no Cristo, não pode ser taciturna. Precisa lembrar que a sua história surge da vitória de nosso senhor sobre a morte, sob o símbolo da ressurreição.

Tenho a impressão que Francisco e Chesterton um dia travarão interessantes conversas sobre a alegria do evangelho.