Afinal, quem é o Papa Francisco?

“Talvez Francisco seja o menos compreendido das personalidades atuais, criticado justamente por aqueles que teriam a obrigação de pelo menos compreendê-lo. Como será isso possível? Como este homem se tornou tão odioso a alguns membros da Igreja do Cristo? O que teria ele feito ou dito para torná-lo tão combatido por alguns católicos, muitos fervorosos, crentes autênticos? O que estariam vendo ele que eu não percebo?

Uma das lições preciosas que aprendi com G. K. Chesterton foi que os ataques à Igreja normalmente não são ataques realmente a ela, mas a uma imagem distorcida. Isso vale tanto para quem está atacando-a de fora, quanto aos que a atacam de dentro. Seria possível que estivessem atacando um Francisco que não existe de fato? Afinal, quem é o Papa? O que pensa? São perguntas que me fiz recentemente e que estou apenas começando a investigar.”

Texto completo aqui.

Poesia, Enigma e Paradoxo

Uma dica sobre como ler G K Chesterton.

Ele acreditava firmemente que as grandes verdades da transcendência não conseguem ser expressas pela linguagem racional humana. Sempre há um limite até onde nossa razão alcança.

Mas estas verdades existem, e surgem a nossa frente todos os dias.

As formas como nós humanos, mesmo que de forma imperfeita, conseguimos expressá-las é pela poesia, um enigma ou um paradoxo.

Não deixem de ler Chesterton. O mais alegre dos sábios da modernidade.

Jejum de opinião

Em um mundo em que já ocorreu a rebelião das massas, conforme previra Ortega y Gasset, com a ascensão fulminante do idiota não só ao poder, mas também aos postos culturais que lhe permitem ditar as narrativas, e considerando que todos nós temos algo deste espírito de massa, desta idiotia que nada mais é que uma expressão de uma certa ignorância, talvez um bom jejum para esta quaresma, mais até do que de alimentação, seja um jejum de opinião.

Tirando coisas banais como discos e filmes, vou tentar a partir de hoje segurar minha opinião sobre assuntos da sociedade, política ou mesmo da fé. Vou usar este espaço, nesta quaresma, para colocar perguntas, minhas dúvidas sinceras, sobre o que vejo no mundo. Não sei se ajudará alguém, mas certamente me ajudará, o que já é um baita ganho, convenhamos.

Por um mundo com menos opinão e mais entendimento da própria ignorância.

Jesus de Nazaré: novo projeto dos domingos

Hoje começo um novo projeto de domingos, como preparação para a Páscoa reler Jesus de Nazaré, do Papa Bento XVI.

Este livro foi escrito no contexto dos vários estudos sobre Jesus feitos utilizando o método histórico-crítico, ao longo do século XX. Bento XVI alerta que muitas vezes estes estudos levaram a uma separação do Jesus dos Evangelhos do Jesus histórico, quase como se fossem duas pessoas diferentes.

No prefácio ele explica que não se trata de combater o método histórico. Jesus de fato existiu na história e deve ser estudado também por esta dimensão, mas deve-se levar em conta que não se trata do único método e que ele possui limitações. Por exemplo, o método histórico deixa a palavra no passado, o que não alcança uma palavra que faz parte de um sujeito vivo, que participa da história e do presente. A Bíblia foi escrita para o homem de todas as épocas e não apenas para o tempo que foi redigida. A percepção que o conjunto de livros da Bíblia tem uma unidade também ultrapassa o método histórico, faz parte da fé.

O que Bento XVI propõe em seu livro é reaproximar o Jesus dos Evangelhos do Jesus histórico, ou seja, mostrar que o Jesus que lemos na Bíblia é um Jesus real, que participou da história, que a encarnação é de fato uma verdade fundamental. Seu livro dialoga com os diversos métodos de estudo e defende a unidade de seu objeto, que é Jesus de Nazaré.

O Trabalho Intelectual: uma maravilhosa analogia

Prosseguindo o projeto de relar, aos sábados, o precioso pequeno livro de Jean Guitton, O Trabalho Intelectual. O Capítulo 3 chama-se O Esforço Profundo.

O ponto de partida são as imensas distrações que ameaçam o trabalho intelectual sério, seja ele de qualquer natureza. Para superar estas distrações é necessário o tal esforço profundo, mas não é só isso.

O trabalho intelectual é um vai e vem entre o fato e a idéia, entre o particular e o universal. O fato só tem realmente valor quando está iluminado por uma idéia e a idéia só tem seu valor quando se “encarna” na realidade. Perceber esta relação é fundamental para quem se dedica a entender a realidade e expressar este entendimento.

Um dos problema, nos alerta Guitton, é que a preguiça de pensar nos pode levar a nos manter na superficialidade. Não adiante entender Platão simplesmente lendo tudo que ele escreveu e o que escreveram sobre ele. É preciso identificar as citações mais frequentes, os textos fundamentais e se aprofundar neles. Os restante se dará a partir deste entendimento profundo, do conhecido para o desconhecido. Guitton condena o conhecimento do tipo enciclopédico e termina o capítulo com uma maravilhosa analogia.

Supondo que desejemos entender um círculo. A forma que aprendemos na escola, da superfície, é percorrer toda a circunferência, muitas vezes. Tudo nos parecerá tão diferente e pouco entenderemos no círculo em verdade. Já o pensador profundo, ficará um tempo sobre um pedaço do círculo e caminhará pelo seu centro, entendendo o raio, ou seja, o princípio que forma o círculo. Terá então condição de traçar o círculo por si mesmo e tudo lhe parecerá coerente e unificado.

O esforço profundo é justamente buscar este centro, buscar os princípios de qualquer conhecimento ou ciência.

A ordem no homem

Na Suma, São Tomás tratando da graça no primeiro homem, nos dá a receita para a ordem no indivíduo:

  1. A razão se sujeita a Deus
  2. As virtudes inferiores se sujeita à razão
  3. O corpo se sujeita à alma

Considerando a formulação de Platão que a sociedade é o homem escrito com “h” maiúsculo, temos, por dedução, a fórmula para a ordem na sociedade.

A mulher adúltera e as redes sociais

Não sou contra as redes sociais, até porque as utilizo bastante, para diversos fins. No entanto, não podemos ser ingênuos. Ela tem um ladro negro, um outro lado da moeda. Ela facilita muito a formação de turbas, especialmente quando dirigida contra um bode expiatório. Todos nós somos constantemente incitados a participar de uma turba destas e linchar uma pessoa, que muitas vezes é até inocente do que a acusam.

Na Bíblia tem uma estória famosa em que os fariseus levam a Jesus uma mulher pega cometendo adultério. Uma turba está pronta para apedrejá-la até a morte. Eles querem que ele sancione a pena ou que se coloque contra a turba, podendo até ser linchado junto. E o que faz Jesus?

Começa a fazer desenhos na areia. É a única parte na Bíblia que ele escreve alguma coisa. Não sabemos o que era, se são desenhos ou palavras. O que ele faz de fato é não participar da turba. Ele se recusa a linchar a mulher, mesmo ela sendo culpada de um crime previsto na lei mosaica.

Depois, diante do espanto de todos, faz aquela afirmação definitiva e impressionante: aquele que não tiver pecados, que atire a primeira pedra.

Deveríamos meditar muito sobre esta passagem ao utilizarmos as redes sociais.

As instituições não existem no vácuo

As instituições podem viver somente se sustentadas por convicções fundamentais comuns e se existe uma evidência de valores que fundamentam a sua identidade (…) É deste modo que uma instituição se torna uma carcaça vazia e vai à ruína, mesmo se exteriormente continua poderosa e dá a impressão de estar apoiada em sólidos fundamentos.

Joseph Ratzinger

Li este trecho ontem, quando terminava um dos pequenos grandes livros de Ratzinger, também conhecido como Papa Bento XVI, chamado Como Ser Cristão na era Neo-pagã. O então cardeal, os textos são antes de seu papado, trata de uma questão bem específica, da reforma na instituição Igreja para enfrentar a crise do cristianismo no mundo atual. Um cardeal argumentava com ele que as mudanças deviam começar pelas instituições e não, como defendia Ratzinger, pela mentalidade dos fiés e sacerdotes. A tese do outro cardeal é justamente a de utilizar as instituições para mudar as pessoas, o que sempre considerei bem problemática.

Para Ratzinger, as instituições não possuem vida própria, não existem no vácuo, por mais que demonstrem uma aparência externa de fortaleza. Nãos e trata apenas das pessoas que constituem a instituição, mas da forma como ela é percebida por todos, de dentro e de fora. Existem valores que a fundamentam, que a sustentam. Quando estes valores desaparecem, ou deixam de ser amplamente compartilhados, ela se torna “uma carcaça vazia e vai a ruína, mesmo que exteriormente continua poderosa”.

Achei bem apropriado para o momento que vivemos no Brasil.