Por que não tratar só de política?

Olhando as estatísticas do blog, vejo que política, especialmente pandemia, são os temas que mais interessam ao leitor. Por que então não parar de postar sobre filmes, discos, literatura, etc? Não deveria me ater ao que desperta mais interesse?

Se fosse minha profissão, sim. Mas aqui é meu hobby, o que faço na minhas horas vagas. Uso o blog para me ajudar a pensar e manter um registro do que pensava no passado, o que ajuda também a pensar no presente.

Uma das coisas que mais acredito é que a politização de tudo é uma das marcas mais nefastas da modernidade. Se eu mudasse meu blog para tratar majoritariamente de política, o que já fiz em outro blog no passado, estaria me rendendo e participando justamente do que critico.

Ontem, lendo um ensaio da professora Eva Brann, sobre o livro Morte em Veneza, do Thomas Mann, ela defende que a tese central do livro é uma crítica à reação romântica, ou seja, uma crítica ao racionalismo da modernidade pela adoção de uma visão sentimental da realidade. Segundo ela, ao fazer isso, o personagem principal do livro, Aschenbauch, se torna o próprio objeto de sua crítica. Combater a modernidade adotando seus próprios pressupostos é penetrar mais profundamente nesta própria modernidade.

Assim é a política. Devemos sempre manter um certo nojo, uma distância segura para não nos deixar contaminar.

Por isso não tenho a menor intenção de me tornar mais um espaço para tratar da política, especialmente a brasileira. Aliás, cabe um registro, não acho que Estados Unidos e Europa estejam muito melhores não. Esta pandemia me mostrou que há muito verniz escondendo um corpo bastante apodrecido.

Não se enganem, o maior derrotado pela pandemia em todo o ocidente é a tão adorada democracia. Que na hora de enfrentar o primeiro perigo de verdade, mostrou que não tem instrumentos para enfrentar o medo e adota, a cada dia, os instrumentos dos regimes totalitários.

O caso Araraquara: lockdown funciona?

Passando rapidinho só para chamar atenção para um fato curioso.

No último dia 27, vários jornais noticiaram que Araraquara tinha registrado zero mortes pela primeira vez depois da implantação do lockdown rigorosos na cidade. Colocaram como prova definitiva que o lockdown funciona (a nova ciência é cheia de certezas!).

Pois não noticiaram que no dia seguinte a cidade registraria 6 óbitos, o dobro do pior dia até aquele momento. Já são 40 dias de lockdown rigoroso. Alguns até poderiam concluir que seguraram o registro para gerar notícia, mas isso seria insinuar que a mídia está envolvida em manipulação de números para gerar uma narrativa, o que seria um absurdo.
Um dia, com toda certeza, vão cair estes números, mas nada indica que seja por causa de lockdown. Sigo sem nenhuma evidência forte que lockdown consiga de fato conter ou retardar a contaminação.

A única certeza é a destruição que isso causa, e não estou falando só de economia. Lembrando que ausência de evidência não é evidência de ausência, mas também não é certeza. A pandemia gerou uma “nova ciência” que cada diz parece mais com tudo que a ciência moderna dizia combater.

Quem chamou atenção para esta situação de Araraquara foi o @da_cia, no twitter.

Para acompanhar os números do covid

Desde o início tenho acompanhado os números do covid pela página do Victor Loyola no facebook.

Quando o jornalismo brasileiro estava fazendo aquelas análises rasas com números absolutos, ele já usava os conceitos de tendência, curvas, média móvel para falar da evolução da pandemia.

Também é o único que eu vejo associar novos casos com número de mortos, mostrando que o primeiro indica o que vai acontecer em 30 dias e que o número de mortos não vai cair enquanto os novos casos não cairem.

Também é o único que aponta o que deveria ser óbvio: o Brasil estava indo relativamente bem até aparecer a variante do Amazonas, que não é culpa de NINGUÉM. Demos um azar danado e qualquer país sofreria com ela como estamos sofrendo (e ainda podem sofrer).

Como ele sempre diz: um dia a menos para sairmos desta crise.

Papa Francisco: o covid e a tempestade

Na última sexta-feira, concluindo a preparação para a semana santa, o Papa Francisco divulgar uma meditação sobre o momento que estamos vivendo.

Ele faz uma comparação com a tempestade que pega os discípulos de surpresa enquanto Jesus dorme tranquilamente no barco. Os discípulos ficam apavorados, temem por suas vidas e acordam o mestre que os repreende: “Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?”

Francisco nos convida a sermos corajosos e esperançosos, a não nos deixar levar pelo clima de pânico que estamos sendo submetidos o tempo inteiro. Em suma, que não nos comportemos como os discípulos na tempestade.

No meio deste isolamento que nos faz padecer a limitação de afetos e encontros e experimentar a falta de tantas coisas, ouçamos mais uma vez o anúncio que nos salva: Ele ressuscitou e vive ao nosso lado. Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a reforçar, reconhecer e incentivar a graça que mora em nós. Não apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42, 3), que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperança.

Jean Guitton: Fichas, notas e aulas

No capítulo VIII de O Trabalho Intelectual, leitura do meu oitavo sábado, Guitton nos fala um pouco de método, de como guardar as idéias.

Interessante que ele já antecipa bem o método que o Niklas Luhmann desenvolveria depois, o zetterkalsten, reforçando a importância de registrar as idéias em fichas. Com isso teremos as vantagens de ter uma ordem, poder mudar esta ordem e poder mudar a ficha de lugar.

Também faz uma apologia ao ditado, que se bem colocado em uma aula, e sempre registrando textos memoráveis, tem sua função. O aluno precisa variar sua atenção, desde a euforia de um raciocínio à tranquilidade de por alguns minutos apenas registrar as palavras que lhe são ditadas. Mas alerta: não pode durar muito e deve ser interrompida ao primeiro sinal de tédio.

Por fim, faz uma crítica ao hábito de anotar tudo que está sendo dito em uma aula. Considera este método antinatural, pois a velocidade da anotação, a não ser para taquígrafos, jamais acompanha a oralidade. Acaba-se por perder passagens importantes do que se está dizendo. Mais importante é, depois da aula, tentar anotar as partes mais importantes, e mais repetidas.

É bom que um intelectual produza um caderno que seja para ele o que o antigo testamento era para o povo hebreu. Uma coleção de pensamentos, salmos, fatos, que sirvam de meditação constante para a própria vida.

Um dia de alegria e esperança para o mundo

Quando se pergunta que dia comemoramos a vinda de Cristo ao mundo, muitos respondem 25 de dezembro, esquecendo-se que 9 meses antes, no dia 25 de março, o anjo Gabriel anuncia a Maria que ela estava grávida.

Neste momento, Jesus já estava em seu ventre. Já estava encarnado. Ele estava no mundo conosco.

Portanto, mesmo na quaresma, o dia da anunciação é para ser celebrado por todos nós. É um dia de alegria e esperança, algo que estamos tanto precisando.

Um dos melhores textos para entendermos a importância desta data está no pequeno livro A Infância de Jesus, do Bento XVI. Ele ressalta como Maria representa a atitude que todos devemos ter em relação ao senhor. A completa aceitação da vontade divina. Por isso ela é o modelo para a Igreja e tão importante para todos os católicos.

Outra dica é o poema Anjo Anunciador, do Bruno Tolentino, que reproduzo a primeira estrofe.

— Ouve, Maria, a nossa
(não, não te assustes!) é uma luminosa
tarefa: retecer
o pequeno clarão que abandonaram,
o lume que anda oculto pela treva!
Porque irás conceber!
Porque a mão, desejosa
e tosca, que O tentara
reter, ainda que leve,
desfez-se ao toque, assim como uma vez
tocado o sopro se desfaz a avara,
a dura contração do peito ansiado…
Mas a haste, o jasmim despetalado,
é tudo o que ainda resta
dos canteiros do céu aqui na terra,
que um seco vento cresta
e uma longa agonia dilacera.
No entanto a morte há de morrer se tu quiseres,
ó gota concebida
bendita entre as mulheres
para que houvesse vida
outra vez, e nascesse desse fundo
obscuro do mundo,
o ninho incompreensível do teu ventre.

Agradeçamos a Deus por ter nos enviado seu Filho para nos salvar.

Jesus de Nazaré: Os discípulos

No capítulo 6, o Papa Bento XVI trata brevemente do papel dos discípulos no Evangelho.

Inicialmente, ele ressalta que os apóstolos são chamados por Jesus. Ninguém se faz um apóstolo por si mesmo, ele é escolhido. No caso, foram escolhidos 12, em um forte simbolismo cósmico, de plenitude.

Eles recebem uma dupla determinação. Eles devem estar com Jesus e serem enviados. Trata-se de um paradoxo, afinal é para estar com Jesus ou partir para pregar sua palavra?

Os dois. Inicialmente eles precisam conviver com o Cristo para conhecê-lo. Sua pessoa é a resposta para as grandes questões humanas, não sua pregação. Depois, quando partirem, não deixarão de estar com Jesus. Ele os acompanhará, para onde forem.

Mas não termina por aí. O Evangelho fala também de um segundo círculo de discípulos, em número de 70 ou 72, também com forte simbolismo, o dos povos do mundo. Assim, a partir de 12 apóstolos, seguem-se os discípulos, que percorrerão o mundo com sua mensagem e testemunho de sua Pessoa.

Luiz Sergio Coelho de Sampaio: um desafio

Meu primeiro contato com a teoria hiperdialética de Coelho de Sampaio foi em 2016, através dos vídeos no youtube onde ele trata de filosofia da cultura. Na época lembro que comentei ter entendido cerca de 30%.

Comprei alguns livros dele, estudei um pouco, mas estou longe de poder dizer que entendi os principais pontos de sua teoria. Só sei que me parece tremendamente importante, ao mesmo tempo que me falta uma chave para compreensão.

Ontem li um ensaio que ele faz uma crítica à lógica clássica, que teria ocupado um lugar que não deveria: de ser o padrão dos estudos acadêmicos do tema. Para Sampaio, a lógica clássica se baseia em uma série de negações que se revestem de uma aparência de princípios positivos: as três leis básicas (identidade, não-contradição e terceiro excluído).

Percebi que para entender realmente o que ele está dizendo preciso entender primeiro a lógica de Lacan, a chamada lógica significante.

Interessante que neste ensaio (Lacan e as Lógicas) ele despertou minha atenção ao citar brevemente a questão do paradoxo como exemplo de uma verdade que foge do alcance da lógica clássica. O paradoxo é justamente a convivência de uma proposição e sua contradição sem que uma delas seja falsa.

Falou paradoxo penso logo Chesterton e um de seus grandes exemplos, aquele da música do Legião Urbana, entender como um deus ao mesmo tempo é três.

Confuso?

Bem, muitas vezes estes textos servem para me ajudar a pensar. E quanto estou na confusão, sai meio confuso mesmo…