Freud e o desejo mimético

Lendo A Violência e o Sagrado, de Rene Girard. Capítulo que trata do complexo de Édipo.

Segundo Freud, o menino tem um desejo instintivo pela mãe que o leva a querer matar o pai para eliminar o rival. Para não lidar com isso, joga tudo para o subconsciente.

Rene Girard defende que o desejo é mimético, ou seja, que o menino tem o pai como modelo e por isso tende naturalmente a querer o que o pai também quer. É praticamente uma inversão da teoria de Freud. A mãe não seria o centro do desejo do menino, mas sim a imitação do pai.

Girard ainda argumenta que Freud tinha consciência do desejo mimético mas escolheu escondê-lo no superego para que não tivesse que lidar com a principal implicação, de que não haveria um desejo direto do menino por sua mãe, o que questionaria seriamente sua teoria.

Então ficamos entre duas teorias: que o homem pode ter um desejo sexual pela mãe ou que pode ter um desejo inconsciente de imitar o pai.

Qual tem mais lógica?

Liberdade e autoritarismo

O defeito contrário à tolerância absoluta está em dizer que a liberdade é menos importante que assegurar que ela seja bem utilizada, e que, portanto, se necessita de uma autoridade forte encarregada de decidir por todos o que deve ser feito. O autoritarismo é uma institucionalização da atitude paternalista, e leva consigo um desprezo pela pessoa já que a considera incapaz de ser responsável por si mesma. O autoritarismo trata seus homens como meninos, como imbecis. O autoritarismo considera que não se pode correr o risco de que as pessoas sejam livres porque agiriam mal, porque não saberiam sê-lo.

Stork e Echevarría, Fundamentos de Antropologia

Eis, para mim, o maior problema da gestão da pandemia.

O terço é a meditação do católico

Acho curioso como as pessoas se impressionam com as meditações orientais, e tantas outras cópias desenvolvidas no ocidente, boa parte como farsa, quando os católicos possuem um poderosos instrumento que no mínimo tem um efeito semelhante: a oração, e mais particularmente o conjunto de orações que formam o rosário.

Bem rezado, o terço leva uns 20 minutos, o tempo que se usa em muitas destas técnicas de meditação. Já experimentaram entrar em uma Igreja praticamente vazia e rezar o terço? Para mim é uma sensação de paz e beleza indescritível. Quando morei na Colômbia havia uma pequena capela no local que trabalhava. Sempre que terminava meu dia, antes de ir para casa, passava nela para fazer minhas orações ou simplesmente ficar contemplando os vitrais.

Vejam bem, nada tenho contra as meditações orientais e outras formas de asceses espirituais. Só acho curioso que católicos procurem tão longe o que possuem ao alcance das mãos. A Igreja é muito mais ampla e completa do que percebemos em nosso dia a dia. A verdade é que pouco conhecemos dela, talvez porque não nos interessamos tanto. Por isso sua beleza é tão fundamental. Como disse um dia São Luís em uma festa: evite-se a vaidade, porém todo homem deve se vestir bem, de acordo com sua patente, para que sua esposa possa amá-lo mais facilmente.

Precisamos aprender a amar também a Igreja e o santo rosário nos ajuda tremendamente nesta tarefa.

Tratado dos Atos Humanos

Nesta semana terminei o Tratado dos Atos Humanos, questões 6 a 20 da Suma Teológica.

Estaria mentindo se dissesse que entendi tudo, mas o que entendi já é suficiente para contemplar a beleza do pensamento de São Tomás de Aquino. Falta-me, para completar o entendimento, o entendimento da filosofia aristotélica, pois muito do que se trata nestas questões partem dos conceitos desenvolvidos por Aristóteles como apetites, apreensão, intenção, conselho, eleição, razão, vontade e tantos outros.

É um dos exemplos de como o santo partiu de Aristóteles para explicar a fé, ou seja, a filosofia como instrumento para compreender a teologia. Coisa fina.

Os nossos atos são determinados, em grande parte, pela vontade, que deve ser iluminada pela razão. Em grande parte porque há atos externos que praticamos contra nossa vontade, pela violência. Só que há também os atos internos, que sempre são subordinados à nossa vontade. É o fundo insubornável de nosso ser, como dizia Ortega Y Gasset.

O que pode acontecer também é desviar a vontade da iluminação da razão, como acontece com o medo. Praticamos atos maus por efeito do medo, atos predominantemente voluntários. Não é o que estamos vendo nos dias de hoje? Obrigar o homem a praticar atos contra sua vontade custa muito esforço; já descobriram que pelo medo fazemos o que eles querem por decisão nossa.

Na falsa discussão sobre meios e fins, São Tomás é categórico: para que um ato seja moral é preciso que seja bom tanto no meio quanto nos fins. Portanto, mentir para a população sobre, por exemplo, os riscos das vacinas, justificando que é para o próprio bem delas, é um ato ignóbil. Por isso repugna a muitos o comportamento de provocar medo para que as pessoas ajam de forma correta, pelo menos no entendimento dos falsos sábios da modernidade.

O tratado dos atos humanos nos dá uma luz aos problemas que vemos nos dias de hoje. Feliz o momento que decidi ler um pouquinho de São Tomás todos os dias!

Breve diálogo

__ Sabe, Josemar, o que me deixa revoltada com tudo isso é o que está subtendido.

__ Como assim? __ perguntei enquanto olha distraído o movimento do bar.

__ Esse negócio da informação. Já se sabe muito bem que há alguns tratamentos que reduzem enormemente a chance de complicações, mas outro dia um colega que trabalha na prefeitura me falou que não se deve divulgar isso porque vai ser um liberou geral, as pessoas vão viver como se tudo estivesse normal. Aí, o que fazem? Mentem. Dizem que não tem tratamento possível, que é para todo mundo ficar em casa. O medo é o grande instrumento de controle. 

__ Pior que é isso mesmo.

__ O que está subtendido? Que as pessoas são incapazes de tomar suas decisões, que precisam ser tuteladas pelo estado benevolente e sábio, como se fosse um grande pai. Isso para mim é a pura essência do elitismo, achar que o povo tem que ser conduzido como gado para não fazer besteira.

__ É muita hipocrisia. 

__ Hipocrisia é apenas uma parte do problema. No centro tem uma vaidade desmedida, de achar que eu sou uma pessoa esclarecida que sei o que é melhor para você. Que eu tenho que mentir como se você fosse uma criança incapaz de tomar uma decisão. Não se respeita a humanidade do outro. Eu fico revoltado mesmo. Milhões de pessoa poderiam ter sido salvas se os governos tivessem abraçado claramente os tratamentos à medida que estivessem sendo desenvolvidos.

__ Muito triste isso.

__ Veja agora as vacinas. É claro que possuem efeitos colaterais, conhecidos e desconhecidos ainda. Também possuem diferentes graus de eficiência e tem uma aí que protege bem pouco. Mas o que dizem? Que são perfeitas. Que não precisa ter medo e que é um absurdo querer escolher a vacina que vai tomar. Por que? Porque se soubermos os riscos, vai ter gente que não vai querer vacinar, tem gente que vai escolher a vacina que achar melhor. Mais uma vez é preciso manter o povo na ignorância para o próprio bem. 

__ Sabe de uma coisa?

__ O que? 

__ De tudo que está acontecendo, minha maior decepção são os especialistas. Sempre defendi a administração técnica, das pessoas preparadas. Mudei de opinião. Nem o político mais corrupto faz o mal que um técnico bem intencionado, mas errado, faz quando lhe dão poder. Fizeram isso na pandemia. Os políticos seguiram bovinamente os assessoramento de seus especialistas, que são incapazes, até por má vontade, de entender o quadro geral das coisas. Só querem resolver o pequeno problema que estão enxergando, ou pior, mostrar que sabem o que estão fazendo apesar de estarem muitas vezes completamente perdidos. A tecnocracia consegue ser pior que a corrupção. 

Fizemos silêncio. Na televisão, a Globo mostrava mais um painel de mortos de covid enquanto a Renata Vasconcelos falava alguma coisa que não conseguíamos ouvir.

Parecia sorrir.

Ilusões perdidas, inclusive as minhas

Estou terminando o volume I de As Ilusões Perdidas, de Balzac. Uma das ilusões que eu perdi foi que o jornalismo começou por um ideal e foi corrompido nas últimas décadas. Balzac nos mostra que desde o início, ainda no século XIX, já havia uma promiscuidade de jornalistas com artistas, empresários e políticos. 

Os jornalistas usavam seus artigos para atacar alvos que interessavam a seus patrocinadores ou pior, alvejar alguém importante para receber ofertas de suas próprias vítimas e “aliviar a barra” deles. Viviam em uma estranha simbiose de parasitismo mútuo. Por exemplo, livreiros tinham todo interesse de ter uma crítica positiva no jornal X, e tudo faziam para agradar o crítico. Ao mesmo tempo, o jornalista tinha interesse em publicar um livro seu na editora Y, e muitas vezes conseguia a publicação após publicar um artigo demolidor contra um autor daquela editora.

Lucien representa um dos tipos mais comuns. É um escritor promissor, um poeta, que tem talento, mas que se vê entre a opção de prosseguir em sua vocação, encarando uma vida de privações, nem sempre com reconhecimento e de muito trabalho de seguir a carreira de jornalista, recebendo todo tipo de bajulação, possibilidade de publicação e promessa  de melhores salários.

É claro que trata-se de um jogo perigoso, que ao menor deslize pode ser expulso desta sociedade hipócrita e despida de outra ética que não seja a do benefício imediato, mas ao mesmo tempo é um mundo a parte, alheio as principais preocupações das pessoas comuns, e que desperta a vaidade de qualquer um.

Cuidado com os que nos bajulam; eles são o caminho de nossa própria perdição.

Conhecimento, ação humana e verdade

O capítulo 5 de Fundamentos de Antropologia, livro que estou relendo, trata de 3 tópicos interligados.

O primeiro é o conhecimento, que pode ser de duas naturezas: teórico ou prático. O teórico é aquele que chegamos por abstrações, desenvolvendo teorias. O segundo é o aplicado às situações concretos. Corremos no erro do racionalismo quando ignoramos esta distinção e tratamos tudo a partir da perspectiva do teórico.

Segundo Stork e Echeverría, o mundo moderno se construiu em torno de 3 premissas:

  1. Um progresso linear e ascendente através do método científico.
  2. o conhecimento científico como um modo privilegiado
  3. um progresso infinito do mundo humano, rumo à perfeição.

Estas três premissas não resistiram ao século XX e foram bem modificadas. O método científico parte da idéia da hipótese que fundamenta uma teoria, que o cientista busca defender. Coube a Popper formular que o maior valor estava em criticar a própria teoria antes que outros o fizessem, buscando prová-la falsa. O conhecimento científico é apenas um dos modos de conhecimento e não se pode nem dizer que é o melhor. A idéia de que seja o único válido é próprio do erro do cientificismo. Por fim, as guerras mundiais mostraram que o progresso científico não significava um progresso moral da humanidade.

O segundo tópico é da ação humana, que sempre acontece em um contexto e no mundo concreto. A sabedoria e prudência desempenham um papel fundamental pois a ação humana implica em determinação dos fins, deliberação sobre os meios, decisão, execução, resultados, reavaliação e consequências. Curiosamente o fim é o princípio da ação humana e sua última etapa a ser concluída. O homem é capaz de agir a partir de sua vontade. Aprende com seus erros e tenta novamente.

Por fim a questão da verdade, que os autores entendem como adequação da realidade com o pensamento. O homem tem a liberdade para aceitar ou recusar a verdade, mas a única atitude ética em relação a ela é de aceitação. No entanto constantemente a recusa, em variadas formas como a recusa de aprender, recusa da verdade, fuga ou negação da própria idéia da verdade. Assim, comete erros como ceticismo ou relativismo. A dignidade do homem também está na aceitação da supremacia da verdade, mesmo que esta não lhe seja agradável.

Os fins justificam os meios ou os meios justificam os fins?

No Volume 2 da Suma, São Tomás argumenta que um ato moral tem duas componentes principais. O fim, sua causa formal, que é definido pela vontade e as circunstâncias, os meios, a causa material, que está sujeita à razão.

Para que um ato seja mal, basta que um dos componentes esteja comprometidas. Já a bondade é mais exigente, os dois precisam estar corretos.

Portanto, para São Tomás, a questão não faz sentido nenhum. Tanto meios quanto o fim referem-se à mesma realidade do ato, ou seja, para que o ato moral seja bom ele precisa ser tanto nos meios quanto nos fins. Em termos filo-marxistas, o omelete tem que ser feito sem quebrar os ovos.