Televisão na Família


No filme De Volta Para o Futuro tem uma cena memorável em que o personagem principal, deslocado no tempo para 1955, anuncia para sua família que em sua casa existem 3 televisões. As crianças arregalam os olhos, mas o pai é taxativo: ninguém tem mais do que uma televisão em casa.

Durante minha infância nos acostumamos com uma televisão na sala, em que nos contentávamos com os 4 ou 5 canais que eram transmitidos e sem direito a controle remoto! Com o tempo, já adulto vi aumentar o número de televisores. Hoje existem 3 aparelhos na casa de meus pais. Detalhe: só moram duas pessoas!

Na casa da minha sogra não era muito diferente. Existiam 3 aparelhos. Uma vez notei que as 3 televisões estavam ligadas no mesmo canal, com a família espalhada nos quartos assistindo. Hoje moram 3 pessoas lá, com 2 aparelhos. Todos nos quartos. Nenhuma na sala.

Diante deste quadro eu e minha esposa adotamos uma regra. Em minha casa somos 4 pessoas e temos apenas uma televisão e fica na sala. Com isso assistimos constantemente programas juntos e acabamos interagindo mais. Disputas acontecem, mas são sempre resolvidas como devem ser: com diálogo. E o quarto deixa de ser aquele depósito de comidas e revistas espalhadas que normalmente completam o ato de assistir TV. Não dá? Pois o aparelho de som funciona junto com a televisão. Quando eu vou escutar música a televisão fica desligada! E olha que escuto bastante!

Quer saber? Foi uma das decisões mais felizes que já tomamos! E não foi por falta de aparelho não, pois compramos um extra no casamento. Pois ele ficou na casa da sogra este tempo todo e agora está no Rio de Janeiro. Faça suas contas. Quantas televisões existem na sua casa? Uma para cada pessoa? Será que este falto contribui para aproximar ou afastar as pessoas da sua casa?

O Caso Pimenta Neves

Muito boa a coluna de Míriam Leitão no Globo de hoje. Desta vez o tema não é econômico, mas a vergonha do desfecho do caso Pimenta Neves pela Justiça Brasileira.

Há quase 7 anos atrás Pimenta matou a namorada, Sandra Gomide, 30 anos mais nova de forma premeditada e por motivo torpe. É réu confesso e já foi julgado e condenado. O problema é que até hoje só ficou 6 meses na prisão pois foi dado a ele o direito de permanecer em liberdade até que seu recurso seja julgado.

Míriam desafia alguém a “explicar para um estrangeiro que não saiba nado de Brasil o que é o caso Pimenta Neves”. É impossível. Não cabe em uma sociedade minimamente civilizada que se possa matar um moça da forma que foi feita, ser julgado, condenado e permanecer em liberdade.
A constituição está na raiz do problema, na sua defesa dos direitos individuais. Todo réu tem direito à liberdade até que seu caso tenha transitado em julgado. E quem tem dinheiro e bons advogados consegue com facilidade empurrar o caso até o STF, mesmo que não haja nenhum princípio constitucional em jogo.

O fato é que a sete anos uma família perdia a filha de modo cruel e o assassino está vivendo muito bem, com a vida refeita tendo que aguentar apenas o aborrecimento de tocar a causa adiante. Na última semana ele perdeu um recurso e o juiz mandou cumprir o mandato de prisão. Pimenta se tornou foragido. Apenas por poucos dias, pois a justiça garantiu novamente o direito de permanecer em liberdade.

Só mesmo no Brasil um juiz toma uma decisão destas para um fugitivo da justiça. Se todos os presos pudessem tomar um caminho parecido teríamos resolvido pelo menos um dos nossos problemas: a superlotação das cadeias.

Fico pensando se Pimenta Neves matar de novo. Será que nossos juristas que o mantém em liberdade sentiram um mínimo de remorso?

Ufanismo

Do Houaiss:
■ substantivo masculino
Regionalismo: Brasil.
1 atitude de quem se orgulha de alguma coisa com exagero
1.1 Derivação: freqüentemente.
orgulho exacerbado pelo país em que nasceu; patriotismo excessivo

Por que trato deste assunto? Porque uma das coisas que mais me irritam é o ufanismo. Dois exemplos, uma de algum tempo e um recente.

O primeiro foi o episódio da série Os Simpsons que se passava no Brasil. Nele o Rio de Janeiro era visto como uma selva tropical, com presença inclusive de macacos. Foi uma festa. Intelectuais de norte a sul investiram em cima da série americana, e o governo brasileiro ainda deu o mal exemplo de se meter no embrólio e fazer queixa diplomática. Um verdadeiro absurdo, que só mostra nosso ufanismo. Não tem problema nenhum programas como Casseta e Planeta descer a lenha em nossos pecados e regionalismos, basta lembrar da piada dos quatro gaúchos e uma banco. Mas se vem de fora não, aí é o nosso país! O mesmo Casseta e Planeta (para ficar no mais popular) não esgota seu repertório ridicularizando o americano para o delírio dos bananeiros. Claro que o Rio de Janeiro não é uma Selva (pelo menos não tropical) mas será que perdemos o senso de reconhecer uma piada quando vemos?

Mais recente é o filme Turistas, que ainda vai estreiar no Brasil mas já começa a provocar polêmica. Parece que trata de turistas que são dopados no Brasil e tem os órgão retirados por um psicopata. Nada que nunca tenha acontecido por aqui não? O filme não trata esta questão como corriqueira no país, mas como o delírio de um louco, que poderia acontecer em qualquer parte do mundo. Já tem gente dizendo que prejudica o turismo. Balela. O que prejudica o turismo é o assalto constante que são vítimas aqui no Rio, com direito inclusive à emboscada em pleno aterro do Flamengo. Ah, a polícia se propôs a fazer escolta dos ônibus, principalmente os que trazem os turistas de madrugada do aeroporto até a zona sul. As empresas de turismo protestaram. Pegava mal.

E assim vamos vivendo.

Uma sociedade atrasada

Outra coluna que aprecio muito na Veja é a de Cláudio de Moura Castro e a desta semana está excelente. Nela, o articulista apresenta um raio-x do país, que vale a pena refletir um pouco. Segundo ele:

  • Aceita-se a estratificação da sociedade, e as atitudes diante do povo são feudais e paternalistas.
  • Diante de um conflito, não há limites para mentiras, conchavos e intrigas a fim de desmoralizar o inimigo.
  • Há pouca confiança nas instituições e no governo. Pensa-se que eles existem, sobretudo, para beneficiar os homens públicos.
  • A sociedade desenvolveu certo fatalismo. Muitos tendem a viver no dia-a-dia, dando pouca importância ao planejamento do futuro e à prevenção.
  • As pessoas tentam as aventuras econômicas mais extravagantes com um mínimo de informação ou estudo. Mas ficam estarrecidas quando fracassam e perdem tudo.
  • Falta o sentido da obrigação de cumprir um contrato, e não se considera necessário pagar em tempo as dívidas contraídas.
  • Roubar é esperto. Ser apanhado roubando é estúpido ou falta de sorte.

Coberto de razão não é mesmo? Só tem um detalhe: este país é a Coréia de 1967!

Infelizmente em vez de procurar na Coréia experiências que possamos adotar por aqui o atual modelo a ser importado é o de Fidel e Chavez.

Pobre Brasil.