Livros: consuma com moderação

Do blog do Reinaldo Azevedo:

Vocês se lembram: apontei aqui o seu desconforto diante do papa. Ele não conseguiu ser a estrela da festa. E isso lhe é inaceitável. A sua obsessão em desmerecer FHC é uma evidência desse traço de personalidade. Observem que, quando ele se refere ao antecessor, não se limita a dizer que seu governo é melhor. Ele também costuma atacar as qualidades intelectuais do outro, que seriam insuficientes para responder à realidade. Lula acredita, firmemente, que ele sabe mais porque leu menos. Lula acredita que estudo faz mal à saúde. “Livros: consuma com moderação”.

Outro dia estava conversando nos corredores da PG justamente sobre isso. Não é vergonha para ninguém a própria ignorância, o problema é começar a se vangloriar dela. Mas não tinha ainda me atinado para os que fazem pouco dos que procuram sair das trevas. Estamos retrocedendo vertiginosamente no Brasil, está surgindo a cultura da ignorância.

O exemplo vem, entre outros, do próprio presidente. Para não ficar só no atual, lembro de Costa e Silva que se vangloriava de não ler livros, apenas fazer palavras cruzadas.

Diante do papa, Luis II ficou visivelmente constrangido. Diante dele estava um homem de 80 anos que passou a vida inteira estudando e se preparando para o cargo que hoje ocupa. Pois nosso monarca nunca fez nem uma coisa nem outra. E se orgulha disso.

Só falta uma campanha publicitária alertando para os perigos da leitura…

Nota do PPS

O PPS se posicionou à favor da liberação do aborto. Está em seu direito e aplaudo por assumir sua posição. Todos os partidos políticos deveriam seguir o exemplo. Mas não posso deixar de comentar a nota do partido.

Primeiro o partido considerou uma “interferência indevida da igreja nos assuntos do Estado” a decisão de excomungar os políticos mexicanos que votaram a favor do aborto no parlamento daquele país.

Não é. A excomunhão não tem nada a ver com estado. É uma questão interna da Igreja e da fé católica. Nenhum direito civil dos parlamentares mexicanos está ameaçado. Segundo o dicionário Houaiss a excomunhão é a “penalidade da Igreja católica que consiste em excluir alguém da totalidade ou de parte dos bens espirituais comuns aos fiéis“. A Igreja considera que a posição contrária ao aborto é um bem espiritual que deve ser seguido por seus fiéis. Como líder religioso o Papa pode excomungar quem não esteja de acordo. Ninguém é obrigado a ser católico, é porque quer. Observem que a excomunhão nem exclui uma pessoa da Igreja, apenas atesta que ela não segue em parte ou na totalidade um bem espiritual comum.

Uma parte do texto diz o seguinte:

“Para o PPS, bem como para grande parte da população brasileira, soou estranha a declaração do papa de condenação aos que pretendem abolir a legislação punitiva ao aborto, chegando ao ponto de admitir a excomunhão de políticos que votarem pela sua legislação”

Primeiro esse “grande parte da população brasileira”, da onde o partido tirou isso? Duvido que chegue a 5% da população os que sabem desta excomunhão. E olhe lá. Vai ver que este grande parte é a meia dúzia que se reuniu para fazer esta nota.

O partido saúda a visita do papa, “que traz conforto espiritual a milhões de católicos brasileiros“, mas alerta que isso não pode trazer prejuízos às “conquistas humanistas seculares” do povo brasileiro.

Agora embolou tudo. Mais uma vez o aborto é referido como um avanço “humanista” da sociedade. Mas o delírio do PPS é ainda maior, é uma “conquista humanista secular” do povo brasileiro. Acho que acordei no país errado. A maioria da população brasileira é contra o aborto, que conquista secular é esta?

O que fico intrigado é que reconheço que existem bons argumentos para defender a liberação do aborto, apesar de não concordar com eles. Se a estratégia é abrir guerra contra a Igreja e apoiado em opiniões deste nível, vou até dormir tranqüilo pois não aprovam o aborto num plebiscito nem por milagre.

E olha que milagreiro no Brasil tem muito…

Uma Lástima

O governo brasileiro está fazendo tudo o que pode para transformar a visita do papa em um espetáculo de grosseria e vulgaridade. Só não consegue porque do outro lado existe um homem que se preparou e estudou durante toda sua vida para exercer a sua função.

Coube ao Ministro da Saúde o papelão maior até aqui. Já comentei neste blog de sua entrevista no Roda Vida. Nela saiu-se muito bem, apesar de não ter concordado com seus argumentos em defesa da “discussão” sobre a legalidade do aborto.

Por que “discussão” está entre aspas? Porque ao ler o JB de ontem fiquei estarrecido com a idéia que Temporão tem deste debate.

Para início de conversa foi taxativo. O aborto não é questão que envolva filosofia e religião, é saúde pública. Então estamos gastando dinheiro sem necessidade. Dengue? Taca fogo! Um bom incêndio controlado resolve qualquer epidemia como provaram os europeus na Idade Média. Resolve o problema de saúde. É claro que vão morrer alguns milhares ou milhões, mas isto é questão de filosofia. Ou de religião.

Depois ainda sai com mais uma pérola. A discussão é machista. Disse que se homem engravidasse o problema já estaria resolvido. É um dos piores argumentos que já escutei em toda minha vida sobre o assunto. E vindo de um ministro de estado, devidamente preparado para o cargo, é mais revoltante ainda. Tem mil maneiras melhores de defender o aborto como um direito de escolha da mulher do que usando um palavreado de bar da esquina como este. Nenhum dos mil convenceu-me até hoje que um ser humano pode ter direito de escolha sobre a vida de outro.

Por fim resolveu, no dia da chegada do papa, criticar a decisão de Bento XVI de apoiar os bispos mexicanos que excomungaram políticos daquele país que lutam pelo direito de abortar. Alguém deve lembrar ao prezado ministro que trata-se de um chefe de estado, e um ministro criticar suas decisões durante uma visita oficial é uma grosseria diplomática sem tamanho. Não vejo o governo brasileiro criticar Fidel Castro nem de longe, quanto mais em visita. E olha que o ditador cubano faz aborto de seres humanos na idade adulta!

Por fim, na conversa oficial entre os dois chefes de estado o presidente levou a primeira companheira. Não lembro de ter visto o nome desta mulher na cédula eleitoral. Educadamente, o papa comentou que este fato é inédito em sua vida. Uma coisa que aprendi a duras penas é que quase tudo (e estou sendo bondoso) que é inédito por aqui não costuma ser boa coisa. É claro que tratava-se de um troco do presidente brasileiro pela audácia do papa em defender a posição da igreja em sua chegada ao Brasil. E isto de um homem que diz que pessoalmente sempre foi contra o aborto…

Quer saber? Está mais do que na hora do parlamento brasileiro aprovar um plebiscito sobre o tema. Quero ver essa gente na televisão. Quero ver a cara de Temporão, Lula, e tantos outros na telinha defendendo suas posições. E deixem a população expressar a sua. Aproveitem as eleições municipais do próximo ano. Só não vale pergunta manipulada.

Primeiras palavras do papa

Há algum tempo que tenho reparado no medo que nossos políticos têm de assumir uma posição pública sobre qualquer assunto polêmico. Semanas atrás, ao ser questionado, o Ministro da Saúde recusou-se a assumir uma posição na questão do aborto. Apesar de argumentar sempre a favor, recusou-se a posicionar-se desta forma.

O próprio Geraldo Alckmin, candidato da oposição, recusou-se a tomar partido na mesma discussão durante a campanha eleitoral. Não tinha motivos para isso. Todos sabem que é um fervoroso católico. Mas os marketing político diz que não se deve assumir posição nestas horas. Todos têm medo dos “progressistas”. Sim, pois esta questão já foi associada ao progressismo. Ser a favor da legalização do aborto é ser um ser superior na humanidade.

Nas últimas eleições americanas o candidato democrata também posicionou-se em cima do muro. Disse que como pessoa tinha uma posição mas como futuro presidente tinha outra. Bush, com todos os seus defeitos, foi firme. Disse que era a favor. Isso vindo de um republicano, e não é qualquer um! As pesquisas indicaram que foi um dos seus melhores momentos do debate. Mesmo não concordando com a posição de seu presidente, os americanos reconhecem sempre a coragem de se posicionar em temas polêmicos.

O nosso presidente saiu-se da mesma maneira que o candidato derrotado nos Estados Unidos. Disse que como pessoa sempre foi contra, mas como presidente tinha que pensar na questão da saúde pública e posicionou-se a favor. Não sei como alguém pode ter um moral mutante, para cada tipo de ocasião. Maquiavel defendia que o governante não estava obrigado a seguir a moral comum. Teria seus próprios parâmetros morais.

Criou-se então uma saia justa para a chegada do papa. Um ambiente para forçá-lo a não tocar no assunto e não contrariar nosso monarca. Pois vejam o que disse o papa logo na chegada:

Estou muito feliz por poder passar alguns dias com os brasileiros. Sei que a alma deste povo, bem como de toda a América Latina, conserva valores radicalmente cristãos que jamais serão cancelados. E estou certo que em Aparecida, durante a Conferência Geral do Episcopado, será reforçada tal identidade, ao promover o respeito pela vida, desde a sua concepção até o seu natural declínio, como exigência própria da natureza humana; fará também da promoção da pessoa humana o eixo da solidariedade, especialmente com os pobres e desamparados.

O respeito que tenho pelas pessoas públicas sempre aumenta quando vejo assumirem posições firmes. Posso não concordar com elas, mas as respeito. Bento XVI em uma frase falou para quem quis escutar. A Igreja Católica é contra o aborto e a eutanásia. Mas o que mais deixa os progressistas revoltados é o trecho seguinte:

A Igreja quer apenas indicar os valores morais de cada situação e formar os cidadãos para que possam decidir consciente e livremente; neste sentido, não deixará de insistir no empenho que deverá ser dado para assegurar o fortalecimento da família…

O papa insiste que a posição de sua Igreja é de norte moral, mas a decisão de seguir os preceitos de sua fé é um ato consciente e livre. E isso irrita profundamente nossos progressistas. Muitos defendem que estas questões não dependem da vontade da pessoa, como disse nosso guia: o sexo é uma necessidade natural do indivíduo. Assim como o crime é quase uma culpa da vitima. O criminoso normalmente é um pobre coitado que foi oprimido pela sociedade cruel.

Pois o papa entende que nós fazemos nossas escolhas morais, e que devemos arcar com as conseqüências delas. O que estou de pleno acordo. E torço para que nossos políticos tomem posições firmes sobre o que acreditam. Posso discordar, mas sem dúvida vou respeitá-los um pouco mais.

Teoria Geral do Estado

Brilhante artigo de João Ubaldo Ribeiro no Globo de hoje intitulado Teoria Geral do Estado. Faz uma análise crua do estado brasileiro atual.

Começa afirmando que o atual presidente “encarna uma perigosíssima combinação de inteligência, esperteza e ignorância, ruim para ele e péssima para nós“.

Ubaldo questiona se não seria nosso modelo de estado totalitário na medida que intervém em tudo, desde nos forçar a votar para um governo que só se respeita por conveniência, a nos ensinar a falar a própria língua?

Não, afirma. Somos mais complexos. “O fato humilhante de que nos (des)governam por Medidas Provisórias e por uma burocracia diabólica, nos aproxima do totalitarismo.” Acrescenta que é de convicção geral que se rouba em todas as áreas de atividade no Brasil, e nisso inclui além das altas autoridades, as pessoas comuns que por exemplo, que colocam valor alterado na nota fiscal do almoço para tungar a empresa para qual trabalha.

Segundo Ubaldo somos um híbrido ainda não sedimentado. Existe um estado úbere, onde “mamam bacorinhos selecionados, cada um com um bocão maior do que o outro.” Temos um estado saco-sem-fundo no qual contribuem os que pagam impostos.

E aí que vem a sua crueza. Ao contrário do que se acredita, os barões não pagam impostos, repassam. E também “ao contrário do que se julga, os que recebem bolsa família e outras caridades apenas pensam que mamam, porque estão pagando impostos em tudo que compram e o resto é pago não pelos barões, mas por eles mesmos…

A transferência de renda que existe é da classe média que “no dizer de alguns compositores, jornalistas e palpiteiros gerais, devia ser toda fuzilada” para o governo entrando na classe dos pseudo-mamantes.

E conclui que o nosso modelo de estado é o estado úbere e o estado esmoler.Alerta para o perigo de um plebiscito juntamente com o bolsa-família nos levar a um imperador, o maior desde Nabucodonossor.

ps: se você não sabe o que úbere, eu também não sabia. Depois de uma consulta ao dicionário: abundante, fecundo.

Chapinha preso

A polícia paulista recapturou Chapinha. Palmas para ela.

O secretário de justiça de SP pediu a transferência do menor de 20 anos para a Casa de Custódia de Taubaté. Palmas para ele.

O juiz Trazíbulo José Ferreira da Silva, da Vara de Infância e Juventude, indeferiu. Vaias para ele. E das grossas.

Não sei o que diz o famigerado Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, sigla bem escolhida por sinal) mas se ele permite que um menor que não é mais menor seja protegido desta forma tem que ser modificado e com urgência. Este monstrengo decide sempre contra o cidadão comum, e contra as vítimas.

Um grande exemplo é o fato de até recentemente o nome do Chapinha ser proibido de ser divulgado na imprensa. No entanto o da menor Liliana, que foi assassinada e estuprada pelo mesmo, não. Toda proteção ao bandido e uma banana para suas vitimas.

Este é o ECA, talvez a maior conquista da esquerda no país. Uma vergonha.

Eros Grau: simplesmente estarrecedor.

Trechos da entrevista do ministro do Supremo Eros Grau ao jornalista Ricardo Noblat.

Grau: “O que o direito manda não coincide necessariamente com o que eu acho. O direito que está aí é mais comprometido com a preservação da ordem burguesa”
Noblat: “A utopia se perdeu?”
Grau: “Para mim, não. Tento preservá-la nos votos que dou. O Poder Judiciário é uma arena onde se joga a luta de classes. Sempre faço algumas coisas mostrando a minha preocupação com o social. Nossa ordem jurídica é comprometida com as relações mercantis – sobretudo com as de intercâmbio”.
Noblat pergunta até quando foi comunista:
Grau: “Quem foi nunca deixa de ser”.

Não há outra palavra que possa usar além de estarrecedor. Temos uma ministro da mais alta corte que afirma que a justiça é uma luta de classes e que procura preservar a utopia em seus votos. A utopia em questão é aquela que conseguiu superar o nazismo em número de mortes. Não por acaso a partir de princípios semelhantes.

Vai mal a república brasileira. Se este é um dos defensores da constituição estamos mais perdidos do que imaginava. Os comunistas como Grau recusam-se a reconhecer a verdade histórica da aplicação da sua utopia. Milhões de mortos espalhados por todos os cantos do planeta onde existiu. Nem a realidade de hoje em Cuba e na Coréia. Alguns ainda usam o artifício de tentar dissociar o comunismo real do utópico. O ministro nem perdeu o seu tempo.

François Revel definiu bem a diferença semântica entre o nazismo e o comunismo. No primeiro se aplicou o que se defendia em público, em cada palavra. Já o comunismo aplicou sempre o contrário do que defendia em público e sempre em nome deste. Complicado?

O nazismo deplorava a democracia e a liberdade. Combateu os dois. O comunismo para preservar a democracia e a liberdade acabou com os dois. Pela crueza de dizer a verdade o primeiro é execrado e defendê-lo é crime em muitos países. Pela desonestidade intelectual o segundo é considerado uma utopia por seus defensores. E tem até juiz no supremo.

Estarrecedor.

ps: para não ficar dúvida. Não estou defendendo o nazismo. Deve sim ser execrado. Só que junto de seu irmão mais velho e mais esperto.

Um alerta

O empresário Odemiro Fonseca publicou hoje no Globo um artigo intitulado “Pode piorar muito“.

Trata, em síntese, da opção da Venezuela e Argentina pelo declínio econômico depois de terem por algum tempo sustentado uma boa posição não só na América Latina como no mundo.

A Argentina, no início do século, possuía nível de vida dos mais ricos países europeus. A Constituição de 1853 gravava a tradição liberal clássica e o resultado foi um rico centro econômico e cultural resultando num povo educado, de sociedade aberta e democracia.

Em 1975 o PIB per capita da Venezuela era maior do que os da Itália, Noruega, Irlanda e Espanha. A inflação era a mais baixa do mundo já há vinte anos e o salário real crescia todo ano. Era uma democracia estável.

Então veio a estatização de petróleo, mineração, energia elétrica e telecomunicações. Extinção do BC independente. Controle de importações e as empresas estrangeiras foram impedidas de vender alimentos. O resultado foi o controle de preços, crises hiperinflacionárias e políticas.

O autor cita como causa a baixa autoestima da América Latina que criou o sentimento de atraso e marginalidade histórica com relação ao Ocidente. Fundiram-se aí o mercantilismo (a riqueza é natural), o patrimonialismo ibérico e o nacionalismo autárquico (não precisamos de ninguém).

Agregaram-se o positivismo tecnocrático e militar e o marxismo vulgar dos movimentos sindicais e intelectuais.

O caudilho se transvestiu no papel de novo libertador, nacionalista e populista. A Argentina introduziu os ditadores populistas, o capitalismo monopolista de estado e o Estado assistencialista. Fez um retorno seguro ao “Terceiro Mundo Ocidental”. E a Venezuela segue hoje, de maneira mais abrupta, o mesmo caminho.

Termina alertando que o Brasil está seguindo lentamente o mesmo caminho. Segundo Odemiro, o primeiro governo Lula ainda teve de positiva uma agenda microeconômica de reformas institucionais, o que foi abandonado agora. O que está se vendo é o “maior esforço em propaganda estatal, entricheiramento de interesses especiais e formação de uma república sindical em concubinado com um estado gastador.

As vitimas, conclui, serão as de sempre _ “a democracia e a prosperidade.