Bolsa-Estupro?!?

Blog do Cláudio Humberto:

O Conselho Nacional dos Direitos da Mulher escreveu uma carta de repúdio ao projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados que prevê assistência financeira à mãe e ao filho fruto de estupro. O manifesto foi entregue ao relator da matéria na Comissão de Seguridade e Família, deputado José Linhares (PP-CE), pela representante da Rede Feminista de Saúde no CNDM, Lia Zanotta. A carta também foi protocolada na Secretaria da Câmara e distribuída aos outros integrantes da comissão. Para o Conselho, a proposta é mais um retrocesso no processo de democratizar o país. De acordo com a carta, o projeto contraria o Código Penal de 1940 que garante a interrupção da gravidez em caso de estupro. “A Constituição Brasileira estabelece que ter filhos é uma decisão da cidadã e que o Estado deve fornecer os meios necessários para que se possa exercer esse direito com dignidade”, destaca a carta.

Estou tentando encontrar algum sentido nessa carta, mas está, por deverás, difícil. Como é que é? Pelo que entendi o tal conselho, que se diz defensor dos direitos da mulher, protestou contra um projeto que prevê assistência financeira à mãe e filho fruto de estupro? Parem o mundo que eu quer descer!

A argumentação é ainda mais esdrúxula. Primeiro porque relaciona “democratizar o país” com liberação do aborto. É aquela velha história, defender o aborto é ser progressista, ser contra é ser reacionário. Faz parte do “estupro” semântico da linguagem.

O mais curioso é que afirmam que a lei garante a interrupção da gravidez em caso de estupro. Garante ou permite? Por que uma ajuda financeira tiraria o direito de realizar o aborto? A lei permanece, o direito é assegurado. Ah, mas não querem o incentivo para a mãe manter a gravidez. Por que? Por que ofende tanto a esse pessoal que uma mulher, mesmo vítima de um estupro, queira ter o filho?

Estou cansado de eufemismos, “exercer esse direito com dignidade” é o mesmo que realizar o aborto. Por que não tratam as coisas pelo nome? Por que abortar significa o mesmo que “direito da mulher de ter filhos”?

Eu sei que as democracias mais avançadas consideram o aborto um direito da mulher. Só que em nenhum desses países a prática é uma unanimidade, longe disso. Existem protestos contra o aborto em qualquer lugar do mundo, e ai dessas pessoas que não entendem esse “avanço” da civilização, são todas reacionárias!

Nessa história fico com a tradição cristã. Aborto é um atentado contra a vida, é uma escolha que um dia será cobrada. Pois façam suas apostas. Uns com o humanismo, com o progresso da ciência e da civilização. Eu fico com a tradição, com os reacionários.

Uma vez Pascal afirmou que não poderia provar que Deus existe. Mas que se tivesse que apostar, era melhor apostar em sua existência. Não preciso apostar, tenho minha fé, e minha razão. E as duas me mostram que o aborto pode não ser um crime pelas leis dos homens, mas seguramente é pelas leis do criador.

Coisas que não entendo

Hoje fui na comemoração de fim de ano da escola de minha filha. Ela está quase fazendo 4 anos, está no jardim I. A apresentação reuniu todas as crianças da chamada pré-escola, de 2 a 6 anos de idade. Apresentaram o tema do semestre: aquecimento global.

Durante uma hora fiquei vendo as crianças dançando coreografias sobre a camada de ozônio, desmatamento da amazônia, reciclagem, extinção de espécies, etc.

Devo ser um cara muito reacionário mesmo, pois não vejo o menor sentido de colocar crianças desta idade trabalhando um assunto que não conseguem ainda entender. E nem vou entrar no mérito que o aquecimento global está me parecendo mais religião do que ciência.

Nesta fase, ainda não tem consciência crítica, e nem poderiam ter. Minha filha chegou em casa cantando uma musiquinha sobre as virtudes dos ecologistas, sobre a corrupção e guerras… qual o sentido disso tudo? Fazer lavagem cerebral? Por que não esperar estas crianças terem um mínimo de entendimento para apresentar-lhe semelhantes “reflexões”? Qual o sentido de ficar repetindo para minha filha, de três anos!, que o mico leão dourado está em extinção? Que o homem está destruindo o meio ambiente?

Sei lá, não sou pedagogo, longo disso. Mas imagino que deveriam ter com tema coisas como as cores, a natureza, a água, os animais, qualquer coisa que estivesse no entendimento delas.

Reclamam que as crianças estão amadurecendo cedo demais, que desenvolvem sintomas de stress e nervosismos. O que vi hoje foi colocarem minha filha como uma espécie de “mini-adulto”. Teve até uma turma dançando um “rap da periferia”, que por sinal achei de um mau gosto terrível. Devo ser muito errado mesmo, foi a hora que a platéia mais aplaudiu!

Sinceramente, espero que os estudiosos estejam certos e eu errado, odeio pensar que estão fazendo um mal para um filho meu. O problema é constatar que temos uma das piores ensinos do mundo. Os resultados desta semana mostram com clareza espantosa a nossa miséria na área; estamos nas últimas posições dos países avaliados.

Para refletir.

Uma definição vagabunda

Se tem uma coisa que todo esquerdista tem horror é a tal da classe média. Não por acaso é a primeira a desaparecer em regimes socialistas. Vejam como Josias de Souza definiu o segmento:

Resta o brasileiro de classe média. Divido entre o desejo de viver como rico e o pavor de ganhar como pobre, é esse cidadão médio que mais torce o nariz para Lula.

É a falácia oriunda da visão dialética do conflito de classes do marxismo vagabundo. Afinal, existem os pobres e os ricos, a classe média é uma coisa esquisita que aparece no meio. Nem passa pela cabeça desse indivíduo que a classe média deseja apenas viver com dignidade, sem ser extorquida pelo poder público e ganhar um salário justo por seu trabalho. Quer oportunidade de crescimento, pagar um bom estudo para os filhos e um bom plano de saúde para não depender do circo de horrores oferecido pelo governo.

Ser rico é uma expressão da maldade, no mesmo texto fala que o ” milionário não precisa do governo para desfrutar de sua pobreza de espírito“. Isso quer dizer que a classe média tem um desejo pela maldade?

Josias de Souza deve estar pensando nos seus termos, imagino que seja um representante do segmento, ou um novo rico, pobre com certeza não é. Se é dessa forma como se vê, o problema é dele. Mas achar que todos temos os seus mesmos desejos, aí já vai uma distância gigantesca.

Não está certo

Esta semana está sendo difícil no Rio de Janeiro. Primeiro um turista italiano é morto atropelado por um ônibus ao ser empurrado por um marginal que o assaltava. Depois um policial do BOPE é executado depois de ter seu carro roubado. O mesmo aconteceu com um capitão do exército. E ainda mais dois PMs. Diogo Mainardi, como sempre, resumiu um diagnóstico muito apropriado: isto não está certo.

Por mais simplório que possa parecer, e mais óbvio também, estamos num país tão doente que isto não é uma unanimidade. Algumas semanas atrás, Luciano Huck ousou escrever um artigo retratando a sua frustração em ter sido roubado. Foi um caos, teve gente até defendendo que era uma troca justa: o ladrão ficara com seu relógio e ele com a vida.

Existe no imaginário da intelectualidade brasileira, e boa parte da mídia, a figura do bom ladrão, tão em voga no cinema brasileiro da década de 70. Acreditam que eles roubam por serem oprimidos, por passaram fome. Poucos tem a coragem de colocar a questão no divido ponto: transgredir as leis sociais é uma questão de escolha. Seja rico ou pobre. Ter desprezo a vida humana é questão moral, não de falta de oportunidade.

Reinaldo Azevedo tocou em outro ponto interessante. Cadê a nota da OAB/RJ questionando estes valentes? Cadê as ONGs aparando as famílias destes militares? Cadê o delegado da ONU, o mesmo que admitiu ter assistido o DVD pirada de Tropa de Elite, denunciando o desrespeito aos direitos humanos? Mas policiais atirando em bandidos armados é violência, bandidos executando militares desarmados não. O que esperar de um país que tem o presidente que temos?

O capitão, Wander Cerqueira de Souza, era um colega e amigo; fica a angústia e a tristeza de vê-lo sem vida por causa da violência urbana.

Isso não está certo.

Lancelotti, protegido por sua ideologia

É preocupante a tomada de parte da Igreja Católica por ideologias, notadamente a de esquerda. O atual papa foi contundente em suas mensagens: a Igreja não participa de processos políticos. Pois uma parte, principalmente em países latino-americanos, não dá a menor bola para Bento XVI e participa ativamente do processo político.

Acho inconcebível um padre, ao término da missa, colocar uma urna para votar pela re-estatização da Vale do Rio Doce. E ainda dar “carão” em quem votar contra. Ou um bispo negar palco para o movimento Cansei mas ceder o mesmo espaço para uma “missa” do MST. Considereo ideologia e religião incompatíveis, ainda mais a ideologia de esquerda.

Pois o caso de Júlio Lancelotti é, em si só, uma tese sobre tudo isso. Trata-se de um padre, líder de uma ONG, que defende os menores de rua. Reinaldo Azevedo mostra, em seu blog, os detalhes da atuação do “religioso”.

O jornalismo está blindando o padre descaradamente. Lancelotti foi extorquido durante 3 anos por um ex-interno da FEBEN que ameaçava denunciá-lo por pedofilia. Pagou as prestações de uma Pajero, num total de 16 mil. No fim, acabou procurando a polícia para denunciar a extorsão.

Quando perguntado porque não procurou a polícia de imediato disse:

“Esperava um resultado positivo. Esperava que parasse. Esperava que eu conseguisse tocar no coração deles.”

Mandou ainda o seguinte bilhete para o ex-interno:

“Anderson, te mandei o que é possível. Chega, por favor. Não tenho mais como. Estou sendo investigado. Chega, por favor. Júlio”

Reinaldo Azevedo resumiu bem: dois por favor em um bilhete para um marginal?

Não estou dizendo que o padre tenha realmente molestado ninguém, a questão é ainda mais grave do que isso. Enquanto vimos um rabino ser triturado pela imprensa ao roubar uma gravata, lidamos com o silêncio das redações. Imagine se fosse uma padre ligado à Opus Dei?

Cadê as investigações? Onde estão os depoimentos de ex-internos da FEBEM? Ou do homem que foi preso ao buscar dinheiro para a Pajero? É porque o padre é católico? Não, é porque pertence a uma ONG ligada ao PT. Está sendo protegido pela mídia por suas convicções ideológicas.

O maior absurdo foi a explicação de Lancelotti sobre como deixou ser extorquido da maneira como foi:

“Se Jesus tivesse tomado muito cuidado, não teria morrido na cruz, né? Teria morrido idoso numa cama”.

Pode a Igreja Católica ter um padre assim? Que considera que Jesus morreu crucificado porque não “teve cuidado”? Este homem não pode estar dirigindo uma missa, não pode estar orientando fiéis. Deveria ter honestidade suficiente para largar a batina e cuidar de sua ONG, como militante que é.

É mais um caso que mostra que a grande mídia está dominada pela esquerda, conforme descrito por Hewitt em seu livro. Se não fossem pelos blogs, este caso se resumiria a mínima cobertura, e simpática, que alguns jornais fizeram no dia da prisão do “chantagista”.

A Igreja Católica deveria estar preocupada com a tomada ideológica da sua fé.

Em artigo publicado no Estadão de hoje, Gaudêncio Torquanto trata da decadência moral é ética na sociedade brasileira. O texto é curto e destaca alguns exemplos recentes dos absurdos que, em nosso cotidiano, ganham cada vez mais ares de normalidade.

Remete inicialmente à Montesquieu, que “ensinava que os homens são administrados por um conjunto de coisas, como o clima, a religião, as leis, as máximas dos governantes, os exemplos dos fatos passados, os costumes, as maneiras”. O resultado é o espírito geral de uma Nação, cuja degradação seria representada pela vitória dos vícios sobre as virtudes.

O Brasil se encaixa em um quadro de “quebra da lei e da ordem, anarquia crescente, Estados fracassados, ondas de criminalidade, máfias transnacionais, debilitação da família, declínio da confiança nas instituições, cartéis de drogas, enfim, o paradigma do caos.”

Como o Brasil chegou a este ponto? A resposta é complexa e envolve a superposição de interesses pessoais sobre as idéias, com ênfase na má qualidade da gestão política __ notadamente no executivo e legislativo.

Cenas do cotidiano mostram a inversão dos valores. Em Maringá, um desempregado foi preso após praticar um furto e roubo, e de ter os objetos surrupiados tomados por outros ladrões. Na cadeia, clamava por policiamento, fazendo uma distinção entre o roubo que praticou e o que foi vítima, um uma lógica de conveniência, a mesma praticada pelos atores políticos. Cita também Wellington Salgado, pego sonegando milhões de impostos quando dirigia uma Universidade de sua família. E o absurdo artigo do rapper Ferréz, aquele que defendeu o roubo do rolex de Luciano Huck como um acordo bom para ambas as partes.

E ainda tem o inacreditável caso envolvendo o presidente do Senado, contribuindo para afundar ainda mais o Legislativo. O Executivo não fica atrás, na luta para manter a CPMF ao mesmo tempo que não consegue controlar uma epidemia de dengue. O próprio presidente mostra sua lógica de conveniência ao atacar a privatização de ferrovias no mesmo dia em que fazia a de algumas rodovias e elogiar como exemplo de democracia a de um ditador que, há 20 anos, esmaga um país miserável de 10 milhões de analfabetos.

Conclui com a constatação que os valores do passados estão adormecidos, e que para despertá-los necessita-se da indignação, da mobilização de cidadãos ativos e pressão das ruas.

Torquato sintetiza bem algumas de minhas próprias idéias. Coloco uma ênfase especial na “mobilização dos cidadãos ativos”. Entendo como manifestações espontâneas, como as que tem sido convocadas pela internet pelo Brasil afora. Nada de dinheiro público ou mobilização de estruturas financiadas pelo estado para fazer baderna como sempre se fez no Brasil.

Mas o principal é devastação dos valores morais da sociedade. Hoje em dia, quem defende virtudes é ridicularizado, tratado como um irrealista. É a maior constatação da vitória do relativismo moral e a ausência de lógica no trato destas questões. É o que leva um homem a roubar e ser roubado, tratando os dois roubos com princípios morais diferentes.

É o retrato de um país que não deu certo. Ainda dará?

A pequena Michele e o aborto

Confesso que não queria escrever sobre a pequena Michele, o bebê que foi abandonado pela mãe em um rio poluído de Belo Horizonte e terminou falecendo na UTI de um hospital com infecção generalizada e edema cerebral.

Fico imaginando aquela equipe de médicos e enfermeiras que tentou de todas as formas salvar a menina. O seu nome foi dado pelos funcionários da UTI. Não consigo pensar neste nefasto acontecimento sem sentir profunda tristeza; a morte de uma criança, um bebê, é diferente. Ali não podemos deixar de pensar em toda uma vida que haveria pela frente, com seus dramas, suas conquistas, vitórias e fracassos.

Mas lendo o artigo de André Petry na Veja da última semana em que defende que se houvesse a legalização do aborto tal fato não teria acontecido resolvi escrever o que penso. Seria essa a única solução para evitar um fato desses? Será que não existem soluções melhores?

Sei lá, não sou ninguém para julgar. Um pessoa que faz um coisa dessas encontra-se fora de qualquer conceito de normalidade. Desespero, dor, ódio. Tudo isso deve ter passado pela cabeça dela, e coisas que nem imaginamos. Mas este é uma caso extremo, e assim acho que deve ser tratado.

O que não concordo é a afirmação do autor que “legalizar o aborto, além de tudo, também é forma de tratar as brasileiras com alguma igualdade“.

Quer dizer que quando se mostra que a quantidade de homicídios praticados por pessoas de classe mais baixo são superiores ao de classes mais altas devemos tirar o homicídio do código penal? E permitir o furto e o roubo? Ser tolerantes com o tráfico de drogas?

Não existem outras soluções? Acompanhamento social? Um programa para entrega do bebê para adoção?

Quando morava no interior do Pará abandonaram um bebê no esgoto da cidade. De manhã foi noticiado pela imprensa. Na hora do almoço uma pessoa que trabalhava comigo já estava dando entrada no processo de adoção. E não se sabia ainda se o recém-nascido sobreviveria!

Argumentam que deve-se levar em conta o país em que vivo. Acompanhamento social e programas são coisas de países ricos. E quanto sairia para a saúde pública uma rede oficial de abortos? Todos os médicos seriam obrigados a praticá-lo? Mesmo contra suas convicções? Este mesmo país, para os que advogam que o aborto seria uma solução mais prática, não consegue distribuir preservativos a todos. E se nem dá conta da quantidade de esterilizações que é solicitado, dará conta da quantidade de abortos? Com que qualidade? E dará o necessário acompanhamento psicológico?

Vivemos num estado que arrecada quase metade do que é produzido no país. E não consegue dar conta de necessidades básicas como educação e saúde. Uma rápida lida nos jornais mostra isso, o estado está voltado para a economia, para ser o grande ator econômico. Está preocupado em fazer concorrência com empresas privadas, e participar ativamente do mercado. E o resultado está aí, políticas sociais que se resumem em distribuição de esmola.

A pequena Michele não merecia ser jogada dentro de um rio para morrer. Ninguém merece um destino destes. Não foi lhe dada uma chance de viver, por pior que lhe fosse essa vida.

Em minhas dúvidas e questionamentos estarei sempre a favor dessa chance, por menor que seja.

Parece que estava adivinhando

Acabei de mandar bala no último posto e sou surpreendido por um decreto do governador do DF. Versa sobre a ineficiência da máquina pública. Sabe aquele “Cadê o relatório X?” e a resposta “Estou fazendo” ou “Estou acabando”? Pois vejam o decreto e tirem suas próprias conclusões:

“Decreto nº 28.314, de 28 de setembro de 2007.

Demite o gerúndio do Distrito Federal, e dá outras providências.

O governador do Distrito Federal, no uso das atribuições que lhe confere o artigo
100, incisos VII e XXVI, da Lei Orgânica do Distrito Federal, DECRETA:

Art. 1° – Fica demitido o Gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal.
Art. 2° – Fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de INEFICIÊNCIA.
Art. 3° – Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 4º – Revogam-se as disposições em contrário.

Brasília, 28 de setembro de 2007.

119º da República e 48º de Brasília
JOSÉ ROBERTO ARRUDA”

O país dos funcionário públicos

Nosso guia falou hoje que choque de gestão não é demitir pessoas, mas contratá-las. Lembrou-me o início do seu governo quando um colega dentista falou que agora era hora de aproveitar porque iria chover concurso público. Aliás, foi bem claro ao justificar-se por seu voto na última eleição: Alckmin iria acabar com concursos.

Fica claro uma das razões para o atraso e o fracasso do Brasil como nação. Os estados que foram para frente basearam-se na força de suas sociedades para gerar riquezas e atingir padrões elevados de desenvolvimento. Muitos desses países adotaram posteriormente o estado do bem-estar social, mas quando já dispunham de recursos suficientes e, sobretudo, uma população educada e ativa para fiscalizar os desmandos de seus governantes. A palavra chave foi o empreendedorismo, a busca pelo sucesso individual.

No Brasil temos dois sonhos. O primeiro é ganhar da Mega-sena. As filas quilométricas a cada prêmio acumulado assim o demonstram. E ganhar para nunca mais precisar trabalhar, ou seja, já existe a cultura contra o trabalho.

O segundo é passar em um concurso público. Muitos poucos são motivados por ideais elevados, como servir à sociedade. A discurso é no sentido de conseguir a estabilidade econômica e uma boa aposentadoria. E como no primeiro sonho, parar de trabalhar. Existe o inconveniente de comparecer no emprego, mas nem tudo é perfeito. O negócio é se servir da sociedade.

Daí para a confusão do público com o privado é um passo. O resultado é a ineficiência, o inchaço da máquina pública, aumento nos impostos e mais atraso. Retira-se os recursos da sociedade para pagar esta conta e torna ainda mais difícil o mercado privado. Solução? Passar num concurso público. E alimenta-se o ciclo vicioso.

Longe de mim dizer que todos os funcionários públicos são ineficientes, nunca generalizo. Mas boa parte é, e qualquer um que já precisou de algum serviço público sabe disso. É só ver a felicidade quando se tem a sorte de ser atendido por um bom funcionário. Se todos estivessem ali para servir ninguém ficaria feliz por vê-lo cumprir sua obrigação.

Um país subdesenvolvido quando adota a solução de mais estado para os problemas de má gestão pública está no caminho conhecido para o fracasso. Todo o esforço do governo FHC de enxugar a máquina e diminuir o gasto público já foi perdido e o Brasil caminha para um estado cada vez mais pesado. Para sustentá-lo, os impostos. Onde isso vai parar?

O tempo dirá.