TAM

A TAM informou que por lei não pode informar a lista de passageiros pois deve informar primeiro às famílias. É uma falsa verdade.

Das duas uma. Ou existem sobreviventes ou não.

Se não existem sobreviventes, é obrigação da empresa confirmar as vítimas inicialmente para as famílias. O que não a impede de divulgar uma informação de que não há sobreviventes e deixar a lista para depois.

Se existem sobreviventes, que informe a situação. Quantos são e para onde foram, e informe às famílias.

O que está acontecendo agora é um pânico em Porto Alegre, com famílias ameaçando invadir o terminal da empresa. A lista sai com um clique de computador.

O que não pode é deixar todo mundo, família e imprensa especulando. É óbvio que não há como confirmar se morreram todos, parece que só agora os bombeiros estão podendo entrar no prédio. Mas que coloque um assessor de imprensa na frente das câmaras explicando tudo isso. É o mínimo que se espera da empresa.

Meu palpite é que quem estava no avião não sobreviveu. A informação é que as 14 vítimas atendidas pelos bombeiros são de funcionários que trabalhavam no local, portanto é milagre ter escapado alguém na aeronave.

Mais uma conspiração

O presidente Lula aderiu a teoria petista de que as vaias foram orquestradas. De uma coisa entendo bem: de Maracanã. Não dá para orquestrar uma vaia daquelas, a não ser com a completa seleção de 90 mil pessoas, como num comício. No caso de ingressos vendidos, esqueça. Já fui em muito jogo do Flamengo e nunca vi uma vaia unânime, sempre existem aqueles que aplaudem, mostrando que nem a força das torcidas organizadas conseguem orquestrar tal coisa. Nem com os cabeças de bagre que já vi jogando.

São duas reações de Lula. A primeira, privada, furioso, xingando meio mundo. A segunda, em público, pousando de coitado e dizendo-se perseguido.

Pois uma hora a máscara cai. Esta ladainha está cansando, e foi uma das responsáveis pelas vaias que recebeu.

Duas medidas

Cada coisa no seu lugar.

Ainda sobre a já famosas vaias para Lula.

Anselmo Gois reclama na coluna de hoje que o New York Times noticiou as vaias que recebeu o presidente mas não a que recebeu a delegação americana. Acontece que o presidente brasileiro é o Sr Luis Inácio, e não George Bush. O sentimento anti-americano no Brasil, particularmente no Rio de Janeiro é grande. A meu ver um tanto injusto, fica a impressão que é o Estados Unidos que causa nossos males, tirando nossa responsabilidade em nosso futuro; tema este tão bem retratado em o “Manual do idiota Latino Americano”.

Já a vaia ao presidente da república, no Maracanã, é sim uma notícia muito mais importante. Imagino se Bush fosse vaiado de forma parecida em um estádio americano. Estaria nas primeiras páginas de qualquer jornal brasileiro, com muito mais destaque do que as de Lula. E isso porque seus partidários acusam a mídia de ser oposição.

O famigerado Noblat lembra que o presidente Médici era aplaudido quando entrava no Maracanã. Tenho um tio tricolor que pessoalmente participou destes aplausos. Ele tem uma tese: Médici teria de ter convocado eleições diretas em 73, e sido candidato. Teria vencido com folgas. Um ano depois renunciaria e convocaria novas eleições só com civis. Teria terminado a revolução com alta popularidade e com o fortalecimento do Exército. De quebra haveria um constante alerta para os governantes: as forças armadas estariam sempre ali.

Mas Noblat lembra que Médici foi o presidente dos anos de maior repressão, e que prefere ter um presidente vaiado no Maracanã do que um aplaudido. Cada um com suas preferências.

O que Noblat não lembra é o que Elio Gaspari já admitiu em seu recente livro. O grande responsável pelo enrijecimento da ditadura foram as guerrilhas armadas. Deve-se lembrar sempre que estas guerrilhas foram responsáveis por diversos atos de terrorismo e por morte de inocentes. Hoje as famílias destes recebem migalhas, enquanto que os assassinos de outrora recebem polpudas pensões.

Quem lê este espaço sabe que defendo as liberdades individuais. Sempre. Nenhum país precisa de uma ditadura para crescer, há outros caminhos. Mas existe uma falsa percepção que o governo militar era essencialmente impopular e violento. Pergunte a quem viveu na época. O que existiu de fato foi a repressão à guerrilha, o que fez muito bem, e a ação de alguns delinqüentes à serviço do estado diante de cidadãos, culpados ou não. Estes sim são os casos de justa indenização.

Pois Noblat que fique com o presidente que não hesita em defender, sempre nas entrelinhas. Eu já prefiro uma que se mostrou digno e honesto no cargo. Não existe até hoje uma acusação de enriquecimento ilícito de qualquer um dos presidentes militares. Ao contrário do presidente atual que a mídia prefere não dar destaque ao fato de ser milionário __ sem contar o caso Lulinha-Telemar.

As vaias _ insisto no plural _ do Maracanã foram daqueles que não dependem da bolsa família para sobreviver; que são extorquidos diariamente em altos impostos para manter a farra da nossa corte em Brasília. Por isso me senti representado naquelas vaias, e por isso é notícia no mundo inteiro. E Lula sabe da importância dela,s sabe que não poderá mais ir a um evento esportivo (com exceção, quem sabe, no Nordeste) até o fim de seu mandato.

Brasileiros vaiando americanos não se compara a brasileiros vaiando seu presidente. Não um presidente qualquer, mas um presidente popular em um estado que possui grande aprovação. Um presidente que sempre se mostrou blindado diante da podridão de seu governo e de seu partido.

Infelizmente os grandes jornais brasileiros deixaram esta passar, mais uma vez.

Abertura do Pan

O prefeito do Rio, César Maia, defende a tese que o governante inicia lentamente seu declínio popular à partir de meados do primeiro ano do segundo mandato. É claro que em se tratando de Lula, nenhuma regra pode ser aplicada a priori.

Mas as vaias de ontem foram significativas, e o presidente sentiu o golpe. Simplesmente não esperava. Estava no Rio de Janeiro, cidade que venceu com folgas nas últimas eleições, seu governo coleciona notícias boas, surfando com a onda do crescimento mundial; sua máquina de propaganda funciona com máxima eficiência. De repente, vaias.

Talvez seja o primeiro sinal de que a crise ética que o congresso se meteu, mais uma vez, está despertando a intolerância contra todos os políticos. Não por acaso o governador e o prefeito também foram vaiados. A novidade é que Lula começa a não ser mais poupado.

Podem argumentar que os espectadores do Maracanã não representam seu eleitorado mais fiel. Não é bem assim. Mesmo que se considere que o público seja de classe mais alta que a média, no Rio a tendência deste eleitorado em particular sempre foi pela esquerda. Heloísa Helena teve excelente performace na zona sul do Rio. Pode sim ser o sinal do início do desgaste.

O atual governo vive exclusivamente do carisma de seu chefe. E a muralha começa a apresentar rachaduras.

Nós, o povo

Demétrio Magnoli abordou hoje no Globo a questão das cotas, particularmente a decisão da Suprema Corte americana.

Magnoli questiona “ações governamentais que dividem o povo por meio da raça“, pois serviriam como promotores da noções de inferioridade racial e levariam a “uma escalada de hostilidade racial e conflito“.

Segundo ele, a decisão americana restaura o princípio de igualdade política de Martin Luther King e já provoca reação principalmente na Fundação Ford, nos EUA e no Brasil, que “traduzem a decisão como uma reação conservadora“. Estes estariam interessados em esconder os argumentos dos juízes sob “uma pilha de chavões vazios“.

O presidente da Corte, John Roberts, escreveu que “o caminho para acabar com a discriminação baseada na raça é a acabar com a discriminação baseada na raça“. As acões afirmativas apenas invertem o sinal da discriminação, consagrando a raça no domínio da política e da lei, destruindo o princípio da soberania.

O preâmbulo da Carta americana diz “Nós, o povo dos Estados Unidos…“, e foi a primeira na história que fundava-se “sobre o alicerce de um contrato político entre cidadãos iguais“. Magnoli defende que este alicerce se perde se “direitos comuns se convertem em privilégios distribuídos segundo critérios raciais“.

Reconhece que o “povo” não existiu plenamente nos Estados Unidos enquanto vigorou a escravidão e perdurou nas leis o princípio do “separados, mas iguais“, fronteira esta que foi suprimida na década de 60 com o movimento pelos direitos civis.

A decisão atual seria a correção de quase três décadas de equívocos, pois a política de cotas teria sido estabelecida na década de 70 quando se calava o movimento pelos direitos civis por pressão da Fundação Ford e de uma legião de ONGs. “A nação que nem sequer usufruíra os frutos do banimento da raça, foi aprisionada pela velha maldição, vestida nos trajes das cotas raciais“.

O Brasil estaria importando “produtos usados, que fracassaram no país de origem“.

Conclui com o voto em separado do juiz Anthony Kennedy que inicialmente protestou: “Quem exatamente é branco e quem exatamente é não-branco? Ser forçado a viver sob um rótulo racial oficial é inconsistente com a dignidade dos indivíduos na nossa sociedade. E é um rótulo que o indivíduo é impotente para mudar!“. Defendeu, no entanto, a legalidade de iniciativas para seleção de áreas racialmente segregadas para prioridade em investimentos públicos. Segundo Magnoli, não seria “difícil de adaptar essas propostas às condições do Brasil, onde a segregação ocorre decorre mais da renda que da cor da pele“. A dificuldade seria vencer os fanáticos da raça, “cujo imperativo categórico é a divisão da nação em blocos raciais“.

Operação no Complexo do Alemão

O saldo da operação da Polícia no Complexo do Alemão no Rio é de 19 mortos. Os engajados de sempre já se adiantam a qualquer investigação e denunciam exageros da polícia, entre esses a OAB.

Por que na dúvida estas entidades estão sempre contra a polícia? As apurações estão sendo feitas, não há imagem do tiroteio, mas são taxativos: 11 dos 19 são inocentes. O que leva a outra pergunta: como sabem que são inocentes?

O fato é que há anos estamos vendo a aliança perigosa das autoridades do Rio com o tráfico. E os resultados estão aí: uma cidade sitiada e convertida em eterna zona de conflito. Existem territórios onde o estado não entra, o que para a soberania é inaceitável.

Quando Sérgio Cabral foi eleito, devido a sua aliança com o casal Garotinho, imaginei que a situação permaneceria a mesma. Mas o que está se vendo é o enfrentamento.

Dizem que a solução não é o enfrentamento. Pois o diálogo e acordos levaram ao caos. A cada acordo, um avanço da bandidagem. O estado não pode aceitar a existência de zonas proibidas e deve agir para libertá-las.

A situação atual interessa a muita gente. Tem ONG ganhando uma nota preta com a exploração da miséria e da violência. Os programas que vejo nos jornais não buscam tirar os habitantes do morro da miséria, mas mantê-los lá e criar uma cultura da miséria. Toda vez que vejo uma ONG promovendo e defendendo um baile funk não deixo de pensar nisso.

Não estou dizendo que não possa ter havido exageros e que os policiais sejam acima do bem e do mal. Não o são. Cabe investigação e punições. Mas deve-se levar em conta que estão debaixo de tiro de um verdadeiro arsenal militar e lutando por suas vidas. O mínimo que se exige de uma situação como esta é respeito e equilíbrio.

Que o governador e seu secretário de segurança não caiam neste papo.