A democracia perde mais um pouco

Dentro do plano do lulismo-petismo de manutenção do poder pelo rebaixamento das instituições do estado, ontem foi a vez da democracia sofrer mais um pouco.

Que esperava uma discussão sobre a TV pública ficou a ver navios. Sob gargalhadas de gente como Ideli Salvatti, Sibá Machado e Mercadante, Romero Jucá fez de tudo até conseguir transformar uma seção do senado em uma reunião sindical. Fez requerimento para impedir a oposição de falar, retirou uma MP (que só podem ser editados em casos de relevância e urgência) por não ter relevância e urgência, e conseguiu, sem oposição, aprovar a matéria.

Fique registrado também o papelão de gente como Ziraldo, que fez de tudo para impedir o debate, inclusive usando sua arte para demonizar a oposição. Com ele, outros artistas endossaram a extrovenga petista que vai nos tungar mais de meio bilhão de reais por ano.

Toda vez que o parlamento não debate uma lei a democracia é atropelada. Mas o congresso é o patinho fio da política brasileira não é? Conheço muita gente boa que afirma que o Brasil seria melhor se fosse extinto. O executivo governa e o judiciário julga. Na prática estamos neste caminho, são cada vez mais raras os projetos de lei oriundos do próprio poder legislativo.

Tudo muito entediante. E nojento.

Artigo de Jefferson Péres

O artigo de Jefferson Péres na Folha de hoje é um dos mais lúcidos que já li vindo de um esquerdista. É um dos casos de gente que se pode até discordar, mas nunca perder o respeito, e neste artigo foi muito bom para refletir um pouco sobre coisas que ainda não tinha pensado.

Basicamente tratou do confronto entre socialismo e capitalismo que se instalou a partir do Manifesto Comunista de Marx (1848). Segundo Jefferson,  “a análise marxista, excessivamente reducionista, foi parcialmente correta no diagnóstico, falha na terapia e um grande fiasco no prognóstico“.

Marx fez um diagnóstico sobre o capitalismo de seu tempo. Na época existia um vazio jurídico, não havia legislação trabalhista, seguro social, proteção ambiental. Era realmente o capitalismo selvagem onde a acumulação do capital era baseado no menor custo de produção possível. Era “um modelo condenado ao desaparecimento, porque socialmente cruel e politicamente insustentável“.

O grande erro do marxismo foi acreditar que o capitalismo não evoluiria, que se manteria estático. Este erro, para um dialético, é imperdoável segundo o senador do PDT.

O erro dos seguidores de Marx foi acreditar que o remédio receitado, o socialismo, seria viável sem o colapso do capitalismo, que supostamente ocorreria nos países mais desenvolvidos. Aí estaria o grande fiasco de Marx no prognóstico.

Segundo Péres, o capitalismo do tempo de Marx era a própria negação da economia de mercado. O socialismo acabou sucumbindo diante da evolução do capitalismo e sua nova dinâmica. ” Ora, o sistema de mercado só funciona bem dentro de um marco institucional, interno e internacional, solidamente estabelecido. Vale dizer, precisa de paz, de regras claras e de segurança jurídica, tudo que não havia na época do velho capitalismo e do seu corolário, o neocolonialismo. ”

Considera que no velho capitalismo o mercado foi anulado pela omissão do estado, no socialismo real pela sua hipertrofia.

O pensamento de Péres se distancia nesta frase do liberal e do conservador. Está aí o germe da social-democracia, onde o estado teria um papel de equilíbrio no mercado, atuando para corrigir e evitar as crises. Já aqueles acreditam que papel do estado estaria mais na segurança das regras jurídicas estabelecidas democraticamente pelo parlamento, sua participação como agente econômico seria o mínimo possível.

Não creio que tenha sido o estado o grande ator a modificar o capitalismo. A legislação trabalhista saiu do confronto entre trabalhadores e empresários e foi negociada nos parlamentos nacionais. Foi mais um consenso da própria sociedade do que intervenção do estado. É claro que estou falando dos países onde estas legislações surgiram. No Brasil foi obra realmente do estado, e até hoje estamos pagando por regras que não foram estabelecidas por negociação entre as partes interessadas, no caso, trabalhadores e empresários.

O próprio Jefferson lembra que o capitalismo ainda não se reformou por completo, e sua transição encontra-se em nível diferente nas várias partes do globo. O Brasil ainda teria de “fazer um contínuo aperfeiçoamento do arcabouço institucional, para remover o entulho que impede o pleno funcionamento da economia de mercado. ”

Péres conclui que o Brasil precisa se livrar da “sucata mental” que impede a leitura do mundo de hoje e principalmente do de amanhã.

É  um texto de um homem lúcido, que apesar de algumas discordâncias pessoais, reconheço como um político de respeito e me dá uma esperança que nem só de canalhas é constituído nosso congresso e até mesmo nossa esquerda.

O senador mostrou como se constrói um debate democrático e se deve fazer política.

Eliene Castanhêde e o Foro de São Paulo

Esta articulista da Folha representa bem a infiltração da esquerda na mídia nacional. Defendeu a ocupação da reitoria da USP como uma espécie de “maio de 68” paulista e chamou a polícia de fascista por acabar com a festa. Agora resolveu falar do Foro de São Paulo.

Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim e seis após Lula renegar o Foro de São Paulo para aderir ao neoliberalismo que condenava nos tucanos, a América Latina ainda vive a Guerra Fria.

Segundo ela, Lula renegou o Foro há 6 anos. Faltou combinar com ele, pois ano passado discursou celebrando seu sucesso. Sempre que um jornalista fala a palavra neoliberalismo é preciso ter atenção, na maioria das vezes não tem a menor idéia do que seja, é apenas sua palavra de ordem. Chamar o Brasil, com o estado do tamanho que é, de neoliberal é uma grande piada. O que Lula fez foi estratégia. Sabia que dependia do bom desempenho econômico para se manter no poder e os princípios adotados no governo FHC era a única garantia neste sentido. É a nova aposta da esquerda: deixamos o capitalismo em paz mas controlamos o estado em tudo mais. É o que estamos vendo. Além do mais, o tal “neoliberalismo” garante mais dinheiro no cofre para os companheiros não é mesmo?

Lupi e o afastamento do PDT

Perdido no meio da crise entre os países andinos e a farra dos cartões, está sendo revelado um esquema de favorecimento no ministério do trabalho aos pelegos do PDT, novamente através de ONGs. A CGU já tinha levantado o incoveniente de um presidente de partido ser ministro ao mesmo tempo. Seguindo a sugestão de José Múcio, que enxerga mais longe, Carlos Lupi resolveu deixar o PDT. É claro que manterá o comando da legenda através de outro, o importante, como disse o líder do governo, é manter a chave do cofre. Pronto, está resolvida mais uma questão ética do atual governo!

Vai mal uma democracia onde o presidente ataca os outros poderes

Mais uma vez fica patente que o presidente não possui o menor respeito pelos poderes constituídos. Em seu reino encantado, o legislativo existe só para ter a antipatia da população e o judiciário cuida só do… judiciário. Pelo menos foi o que disse em Sergipe hoje. Condenou a oposição por recorrer à justiça contra um programa social que contraria a lei eleitoral. E mandou um recado para o presidente do STF: o judiciário deveria se meter apenas com seus próprios problemas.

Tudo errado. O presidente da república não tem poderes ilimitados para fazer o que quer, não importa a votação. Um dos pilares da democracia é a defesa da minoria, o que é feito através das leis constituídas. Caso contrário o presidente poderia, por exemplo, expulsar as minorias do país. Estaria agindo da acordo com o desejo da maioria, qual o problema?

Felizmente não pode. A oposição, por definição em minoria, tem seu papel no regime democrático. Não é ficar esperando pelas próximas eleições, mas fiscalizar o governo e propor alternativas para a nação. É o que estão fazendo, mal ou bem, o PSDB e DEM. É um direito recorrer ao STF quando um ato do presidente da república ferir as leis do país, e é uma obrigação do judiciário julgar a causa, sempre em defesa da constituição.

É engraçado. O presidente Bush é demonizado como um ser incivilizado.  Nunca li um pronunciamento seu que atacasse os poderes constituídos ou agredisse a oposição, e olhe que lá a oposição é muito mais virulenta e eficiente do que a nossa. Por que a mídia protege tanto o presidente contra si mesmo? Por que não lhe chamam à razão?

O meu único consolo é que nossos formadores de oposição, apesar do silêncio e as defesas sem sentido, sabem no intimo que estão se prostituindo e só não o reconhece por vaidade pessoal e orgulho. Acreditaram e apostaram no “presidente popular”, ganharam o que estamos vendo. Agora fazem um silêncio vergonhoso. Regina Duarte estava  certa quando falou em medo. O tempo só lhe deu razão.

Um pouco de política: o sistema bi-partidário

Minha irmã me trouxe um artigo muito interessante sobre uma comparação entre o sistema político canadense com o americano, principalmente sobre o bi-partidarismo nos Estados Unidos. O leitor pode conferir aqui (em inglês).

Argumenta que no Canadá, apesar de existirem dois partidos fortes, existe partidos minoritários que funcionam como uma espécie de fiel da balança. Não há maioria parlamentar se não houver uma composição com estas minorias. Desta forma o eleitor não ficaria “refém” do partido vencedor, que por sua vez não teria poderes ilimitados pois não teria a segurança de manter a sua maioria. O próprio eleitor teria uma opção de fuga no embate entre os dois partidos tradicionais, ao contrário do que aconteceria nos Estados Unidos onde o eleitor não possui opção quando se desilude com seu partido mas não quer migrar para seus “oposto”.

Não vou defender um ou outro sistema, não tenho elementos para isso. O autor afirma na introdução que existe uma cultura de que elogiar o Canadá é atacar os Estados Unidos; como se fossem dois estados e modelos opostos. Não vejo assim, os dois países possuem uma identidade cultural muito parecida, em termos históricos e de colonização, suas semelhanças são maiores do que suas diferenças.

O que vejo é que a democracia está muito ligado ao patrimônio cultural construído por uma civilização, o que não quer dizer exatamente tempo de existência. Estados Unidos, Brasil, Canadá e Cuba possuem a mesma idade mas experiências democráticas diferentes, algumas vezes bem diferentes.

A existência das minorias, funcionando como necessidade de composição para governar, ao meu ver, traz alguns perigos. O poder exagerado que estas minorias recebem, ficando em uma posição de ser cortejada pelos partidos dominantes, participando dos benefícios mar sem partilhar o ônus. Este papel não lhe foi conferido pelo eleitor, o de decidir o confronto entre os partidos majoritários. Pode acabar surgindo partidos como os que existem no Brasil, que existem apenas para conseguir concessões dos governos constituídos em troca de seus votos. São autênticas “prostitutas” eleitorais. Por isso tenho muito receio desse poder legado a partidos pequenos que nunca se tornam, efetivamente, governo. Acho que na democracia o rodízio de poder é fundamental, os partidos têm que ser experimentados no governo para que suas propostas saiam do terreno da simples demagogia e possam ter um passado de realizações para defender.

O sistema bi-partidário permite este rodízio. O longo das décadas houveram períodos de domínio dos republicanos e dos democratas, mas sempre houve a troca de papéis. O papel da oposição em uma democracia é tão importante como o do governo. Preocupa-me quando se formam governos de consenso,  como parece propor agora o governador mineiro, mas isto é outra estória.

Não vejo os partidos americanos como camisas de força que aprisionam seus eleitores. Boa parte dos eleitores não são partidários, flutuam de um partido para outro a partir de suas convicções do momento. Se fosse de outra forma as eleições estariam decididas antes de começar e não haveria esta troca de partidos no governo. Nem mesmo dentro do legislativo os congressistas são obrigados a seguirem as lideranças partidárias. O candidato republicano enfrenta a desconfiança de seu partido justamente por ter votado com os democratas em questões importantes, mostrando que é possível a discordância interna. Os partidos não são camisas de força.

Uma outra questão é histórica. Os Estados Unidos já tiveram partidos minoritários importantes, inclusive conseguindo eleger presidentes, como mostra o próprio artigo. No entanto, ao longo da estória, foi ocorrendo a polarização em torno de democratas e republicanos. Por que? Seria o sistema bi-partidário uma superação do multi-partidário, pelo menos no patrimônio cultural norte-americano? Não há leis que impeçam a atuação de outros partidos, é o eleitor que os rejeita nas urnas. Por que assim o fazem? Não seria o temor de aventuras sem lastro histórico?

É um tema interessante, que leva a muitos questionamentos e muitas dúvidas. Deve se ter muito cuidado ao se comparar o sistema eleitoral americano com o canadense, são regimes políticos diferentes. Um é presidencialista e outro parlamentarista. Existem diferenças que devem sempre ser consideradas. No presidencialismo é possível um governo com minoria parlamentar, embora dificulte a ação do governo. É um limite que o eleitor coloca para seus governantes. No parlamentarismo é necessário a maioria, já que o governo é exercito pelo parlamento. O melhor para um não é necessariamente o melhor para outro e vice-versa.

Cretinice intelectual

Um grupo de professores da UNB resolveram hipotecar sua solidariedade com o reitor da UNB, aquele de nome de filme americano e que gastou dinheiro público para reforma luxuosa em apartamento funcional. É isso aí, demonstra que não vêem nada demais na gastança __ coisa que o ministério público não concorda. Imagino se o reitor não fosse um deles, se fosse um convervador, um de “direita”. O mínimo seria uma greve geral para forçar seu afastamento, mostrando como a posição ideológica vem antes de qualquer julgamento. Isso no pensamento dos professores universitários de uma das maiores escolas do país me parece muito grave. Com mestres assim o que estaria sendo formado lá?

Esses são os mesmos que acham Fidel um humanista e que a Venezuela tem democracia “até demais”.

Do que reclama o PSDB?

Por que reclama o PSDB do vazamento da informação de que teve sua imunidade tributária suspensa e foi autuado em R$ 7 milhões pela Receita Federal, acusado de usar notas fiscais frias emitidas por uma empresa fantasma e por outra inidônea em 2002, durante a campanha presidencial do hoje governador José Serra (PSDB)? O valor total das notas é de R$ 476 mil.

O chamado distinto público tem o direito de saber, sim. Assim como soube que a ex-ministra Matilde Ribeiro, da Igualdade Racial, usou cartão corporativo para pagar o que não devia. E que com cartão corporativo o ministro dos Esportes pagou uma tapioca de R$ 8,00. As notas frias do PSDB foram descobertas quando a Receita investigou a contabilidade dos partidos. Tem mais é que investigar.

Noblat escreveu um post hoje defendendo que o PSDB não tem direito de reclamar do vazamento da investigação sobre a campanha de Serra em 2002. Segundo ele, o povo tem tanto o direiro de saber desta investigação quanto da tapioca do ministro dos esportes.

Toda vez que um jornalista fala em tapioca para se referir ao cartão corporativo é bom abrir o olho. O que o Noblat fez neste post é tentar igualar os desiguais.

Não morro de amores pelo PSDB, mas daí a dizer que é igual ao PT a distância é larga. O que os tucanos estão reclamando, com toda razão, é do vazamento pela receita federal de dados em investigação para a imprensa com a finalidade única de atingir um adversário político. Isso é inadmissível em uma democracia; foi uma das razões para a queda de Nixon há 30 anos atrás. Disputa partidária é uma coisa, governo é outra completamente diferente. Usar o estado para atingir rivais políticos é muito grave, é coisa de criminoso mesmo, e uma das razões que o PT deveria ser varrido não da presidência, mas da própria política.

A partir do momento que o estado é colocado à disposição de um partido político, a luta torna-se desigual. A própria investigação é criminosa pelo origem. Existe um processo de fiscalização, definido por lei, para as campanhas políticas. Em virtude do mensalão, os partidos que foram flagrados com caixa dois, PT, PL, PP e PR, deveria ser devassados. Um gênio do planalto colocou os partidos de oposição e o PMDB na mesma barca. Por que? Única e exclusivamente para achar podres para que se iguale os desiguais.

Estou aqui se defendendo que não se investiguem partidos? Claro que não; estou defendendo algo muito mais importante que a corrupção em si: as leis e a democracia. O jornalismo deveria estar cobrando esta utilização da máquina pública para atingir a oposição. Isto é inadmissível. A confiança nas instituições é destruída quando o estado vira refém do partido no poder. Basta ver o que aconteceu na Caixa Econômica no episódio do caseiro. E agora a Receita Federal entra na mesma dança.

Cadê a coragem da mídia para cobrar a separação do estado com o partido político?

Quer dizer que o governo não pode lutar? Tem que ficar na defensiva? Exatamente. Governo tem que dar explicações sobre tudo que coloca as mãos. É direito do cidadão acompanhar a atuação dos seus governantes. E o papel de fazer a cobrança é da oposição. Podem ver nos Estados Unidos. Bush apanha de tudo quanto é lado, mas em nenhum momento acusa os democratas de nada. Este jogo não é permitido a um presidente da república. O dia em que a Receita de lá fizer algo parecido com o que aconteceu esta semana, cai o governo.

Fora do previsto no processo de prestação de contas, só se deve investigar sobre denúncias concretas. Não houve no caso da campanha de Serra. Usar a força do estado para devassar as contas de um adversário é perigoso e grave. Se fazem isso com o governador do maior estado da federação, o que poderão fazer contra nós? A justificativa de combater a corrupção não pode atropelar as leis e a própria democracia. Não vale o preço.

Cristovão Buarque, o baluarte da educação

Na eleições de 2006 escutei de muita gente boa que o único candidato bom mesmo era o senador Cristovão. Pelo menos era um homem dedicado à educação, tanto que seu discurso só girou em torno disso. Eu, por outro lado, estava desconfiado. Ainda não me saía da cabeça a desmontagem do exame nacional de cursos, o provão. A despeito da oposição da UNE (para que serve esta estrovenga afinal?), o exame estava dando bons resultados. As universidades particulares estavam a caça de professores com currículo e incentivando-os a se aprimorarem cada vez mais. Começavam a se preocupar com o aprendizado dos alunos, e a população passava a ter um termômetro de qualidade.

Claro que como todo projeto novo, ainda possuía falhas e distorções, mas a idéia era muito boa. Pois Cristovão, como ministro da educação, acabou com ela e criou a versão inútil que vigora hoje. Tudo para atender o corporativismo das universidades.

Ontem, mostrou de que lado está. Diante dos indenfensáveis gastos do atual magnífico reitor da UNB, afirmou que não havia dolo, apenas “equívocos de prioridades”. Ora, senador, foram meio milhão de reais em decoração de um apartamento. Com esse dinheiro se constrói um excelente apartamento em quase todo o lugar do país; se é assim que defenderia o recurso público, ficou muito bem com os minguados votos que recebeu.

Voto aliás que não dei. E agora dou-lhe uma banana. E não é a fruta.

Valor mínimo para ética

O artigo de Marcos Nobre, na Folha hoje, vai no mesmo caminho de Marcelo Coelho. Considera a cobertura do uso dos cartões corporativos desproporcional, tendo em vista os valores envolvidos. É a defesa do governo, que insistiu em rotular a tapioca na estória. Segundo eles, ao que parece, existe uma valor mínimo para ética no gasto público; o mais importante seria discutir a reforma tributária que envolve bilhões.

Não posso concordar com uma posição dessas. E a questão não se resume a uma tapioca, vai além disso. O que se apurou, baseou-se no portal de transparência, onde apenas 10% do total dos cartões foram lançados; mesmo assim o governo considerou que a “transparência” ameaçou a segurança do presidente.

Vivemos em um regime presidencialista, não uma monarquia. Nem nesta existe algo remotamente parecido com o que a corte lulista vem fazendo com o recurso público. O presidente da república deveria ser o primeiro a esclarecer os gastos de seus assessores diretos a fim que não haja dúvida. Ao esconder os gastos sobre a rubrica de “segurança de estado” coloca a instituição da presidência da república sob suspeita.

Marcos Nobre e Marcelo Coelho advogam uma causa estúpida. O dinheiro gasto de forma irresponsável e, em muitos casos, criminosa não é do estado, é da população brasileira. É preciso combater a idéia de que dinheiro público não tem dono, tem sim, e de todos nós. Isso inclui cada real. Eles gostam de se referir à tapioca, por que não usam o mesmo argumento com a picanha argentina da presidência? Ou o meio milhão de reais do reitor da UNB? Ou os gastos com a primeira-filha? Ou a hospedagem de ano novo no Copacabana Palace por Márcio Thomaz Bastos?

Os dois artigos são um atentado ao bom senso e uma amostra do alinhamento ideológico dos articulistas. O fim justificam os meios. Não estão roubando o erário, estão garantindo o “novo mundo possível”.