O que vai pela imprensa

O Globo:

SÃO LUÍS. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, fez em São Luís o que mais gosta. Com um discurso recheado de ataques ao capitalismo, falou da sacada do Palácio dos Leões, sede do governo estadual, para um público estimado em duas mil pessoas, que se reuniu em praça pública exibindo bandeiras vermelhas e gritando palavras de ordem. Chávez assinou com o governador Jackson Lago (PDT) protocolos de intenções nas áreas da educação, agropecuária, saúde e meio ambiente. Um dos acordos beneficiará assentamentos do Movimento dos Sem Terra (MST) com um programa de alfabetização de adultos, baseado num método cubano que utiliza a TV como veículo de educação.

O MST é um grupo fora da lei, que provoca atos terroristas, mata pessoas e ignora completamente o arcabouço legal do país. No entanto consegue celebrar convênios e receber dinheiro do governo brasileiro e agora do bravateiro venezuelano. O líder do movimento já reconheceu que a causa agrária já não existe no Brasil, que a luta é contra o capitalismo mesmo. A principal arma de seus líderes é a manutenção de um enorme contingente de pobres como massa de manobra para seus atos de demonstração de força. O tal método cubano pode até ensinar a ler e escrever mas tem um preço altíssimo: a renúncia da capacidade de pensar. Tudo isso sob olhos do estado. Pobre país.

O Globo:

A irritação dos produtores agrícolas, que contamina as classes médias e altas dos melhores bairros de Buenos Aires, decorre, em grande parte, de uma política econômica que tem produzido mais uma bolha de crescimento – na faixa de invejáveis 8% ao ano – do que um ciclo de expansão sustentada, como o que parece entrar o Brasil. Afinal, a explicação para esse crescimento está na ocupação da enorme capacidade ociosa causada pela profunda recessão de mais de 15% ocorrida em 2001/2. Não decorre de novos investimentos.

Quando a Argentina declarou a moratória, os petistas deram urras. Diante do crescimento argentino dos últimos anos passaram a ficar mais afoitos: a solução para nosso problemas econômicos estava logo ali do lado. O principal mérito do atual governo é não escutar seu próprio partido, manteve a política econômica do governo anterior e estamos crescendo, apesar do petismo.
Não é de graça ou por bondade dos comissários atuais. Eles sabem que para continuar rebaixando as instituições precisam da estabilidade econômica. É um pacto, conservam a economia funcionando razoavelmente mas que os deixem em paz para meter a mão em todo o resto.
Um dia o populismo cobra seu preço. Cobrará logo na Argentina porque as bases econômicas lá são muito mais frágeis do que aqui. Aqui demorará um pouco mais, mas cobrará.

Merval Pereira:

O presidente Lula prossegue na sua campanha para banalizar qualquer transgressão legal que venha a ser cometida por um aliado político. Do alto de uma popularidade inédita no segundo ano de um segundo mandato, reafirmada ontem pela pesquisa do Ibope, o presidente sente-se autorizado a fazer e dizer qualquer coisa. De público, no clima de palanque eleitoral em que inaugurou obras do PAC em Recife, absolveu o ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti, defenestrado de seu cargo por culpa do “pedágio” que cobrava do concessionário do restaurante da Câmara, uma quantia tão irrisória quanto emblemática do clima de amoralidade que dominava a Casa.

A popularidade em alta do presidente solta sua língua, fica cada vez mais belicoso e a vontade no mito que construiu para si mesmo. Mitos não são eternos e caem diante da própria empáfia. Quanto tempo demorará para o brasileiro ver a verdadeira natureza de seu príncipe?

Severino Cavalcanti não foi perseguido, muito menos por ser nordestino. Foi defenestrado porque foi pego com a mão na bufunfa pública e ao contrário do conterrâneo não tinha a popularidade e a ideologia para protegê-lo de si mesmo.

Jornal do Brasil:

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que o colega venezuelano Hugo Chávez foi o “grande pacificador” do conflito entre Colômbia e Equador. Na ocasião, Chávez reforçou a presença das tropas na venezuelana na fronteira com a Colômbia, o que gerou um clima de tensão na região.

Dizer o que? Chamar Hugo Chávez de pacificador é alguma coisa de inédito. Já era democrata “até demais”, agora também pacifica a região através do movimento pirotécnico de suas forças armadas.
Sabem que pacificou a região? O “senhor da guerra” George Bush. Só precisou de uma frase: os Estados Unidos estão incondicionalmente ao lado do aliado democrático que enfrenta um grupo narco-revolucionário-terrorista. E não falou mais no assunto. Nem precisava.

Folha de São Paulo:

Partiu da secretária-executiva da Casa Civil, braço direito da ministra Dilma Rousseff, a ordem para a organização de um dossiê com todas as despesas realizadas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sua mulher Ruth e ministros da gestão tucana a partir de 1998. O banco de dados montado a pedido de Erenice Alves Guerra é paralelo ao Suprim, o sistema oficial de controle de despesas com suprimentos de fundos do governo.

A Folha usou o termo correto, dossiê. As digitais de Dilma Rousseff estão todas ali, como estavam as de Palocci na quebra do sigilo do caseiro. O que já dá uma resposta para a tranqüilidade da ministra, afinal agiu contra FHC e não contra um pobre coitado. Neste caso não tem muito problema, é só briga política. Ao moderno príncipe tudo é permitido.

Fazendo o possível

Ao aceitar uma CPI mista, a oposição ficou restrita à uma minoria bem definida. Suas chances de passar requerimentos contrários a base aliada são ínfimas, portanto não dá para contar com o sucesso da investigação. O que pode ser feito, e foi feito ontem, é forçar esta base ao desgaste. Está em todos os jornais que o governo impediu a aprovação do depoimento de Dilma Rousseff. Parece uma derrota mas não é. Era o possível. Se não dava para aprovar que pelo menos se escancare a proteção.

Que o povo de Santa Catarina veja bem o papel de Ideli Salvati e em 2010 escolha melhor seus representantes no senado. Aliás, a escolha de Luis Sérgio para relatoria já mostra que a CPI não tem a menor chance. O governo nem quis pensar na hipótese de indicar um “moderado” como fez na do Correios. Agora é a tropa de elite em ação.

Pobre “democracia” brasileira.

A Tese de Lúcia Hipólito

Uma tese perigosa

Lúcia Hipólito defende a tese de que não acredita no envolvimento da ministra Dilma Rousseff na questão do dossiê. Defende justamente o contrário, que o dossiê foi montado justamente para prejudicar sua candidatura à presidência. A linha de raciocínio segue a pergunta: a quem interessaria a divulgação da lambança da papelada? Mais interessante ainda foi que a jornalista usou o termo “aloprados”, fazendo uma ligação com o dossiê Serra.

A questão é mal formulada. A divulgação da existência do dossiê não está sendo boa para o governo, mas ele não foi feito para ser divulgado como um dossiê de chantagem. A idéia era que os dados vazassem na maior revista do país com a finalidade de aumentar a pressão sobre o PSDB constrangendo o ex-presidente. A pergunta da jornalista deveria ser outra: a quem interessaria divulgar dados comprometedores sobre gastos de FHC e Dona Ruth?

A lista é enorme não é Lúcia? Pode começar a enumerar: Dilma, Tarso Genro, Franklin Martins, Lula…

O que aconteceu é que a Veja resolveu colocar o destaque o uso da máquina do estado para montar dossiês e chantagear a oposição, não os dados do relatório. Aí a coisa ficou feia. Parece bobagem, mas derrubaria qualquer governo democrático. A fato do governo brasileiro ser apenas arranhado mostra que o regime político atual é uma coisa híbrida e indefinível, mas não é democracia. Pode até parecer, mas não é.

Passeando pelas opiniões e editoriais na Folha

Editorial:

A série preliminar de dados sobre janeiro e fevereiro de 2008 indica que o consumo continuou a acelerar-se no início do ano. Não há descontrole inflacionário detectável, mas, se perdurarem, as atuais taxas de expansão do consumo e do crédito podem alimentar uma “bolha” por aqui: um surto insustentável de consumo, que sempre acaba em brusca desaceleração.

Ou seja, a economia está crescendo mas é preciso ter muito cuidado pois o consumo também, o que torna a Inflação um dado real. O Japão só conseguiu o rápido desenvolvimento, com paz social e distribuição de renda, no período de 1950-1973 porque sua população evitou o consumo e foi estimulada à poupança interna. Isso só foi possível por causa de um entendimento em torno de um esforço coletivo para recuperação do país, algo longe no Brasil. Mesmo assim é sempre bom tirar lições na história.

Outro Editorial:

SOA ALGO inoportuna a idéia do governo brasileiro de criar o Conselho Sul-Americano de Defesa.
Em termos teóricos, faria sentido ampliar ainda mais a colaboração entre os países da região para que possam, como sugeriu o ministro Nelson Jobim, “articular a elaboração de políticas de defesa, intercâmbio de pessoal, formação e treinamento de militares, realização de exercícios militares conjuntos, participação conjunta em missões de paz das Nações Unidas, integração de bases industriais de defesa.

Mais do que inoportuna, é pura retórica. O objetivo principal é tirar os Estados Unidos e isolar a Colômbia, hoje o calo da turma do Foro de São Paulo. O editorial lembra bem que qualquer conselho militar no continente sem participação americana está condenada à irrelevância. Além disso, não conseguirão o apoio da Colômbia e do Peru. Estes países precisam do apoio da grande potência diante da escalada do socialismo no continente.

Clóvis Rossi:

Você certamente já ouviu ou leu recomendações como estas: “Fique calmo e não corra”; “deixe suas mãos visíveis”; “não faça movimentos bruscos”.
Lembra? Claro. São as recomendações da polícia para o caso de você trombar com bandidos. Agora, saiu uma nova versão. As recomendações são as mesmas, mas servem para o inverso, ou seja, para o caso de você trombar com a polícia.
Constarão de 1 milhão de folhetos a serem distribuídos por meio da Secretaria Especial de Direitos Humanos do governo federal.

Só mesmo esta secretaria que carrega o nome de direitos humanos para comparar bandidos e policias. Quer dizer que não existem policiais bandidos? Claro que sim, mas tratá-los, a todos, como bandidos não me parece ser a melhor solução. No fundo é o governo federal tentando deixar claro que o problema da violência não é com ele. Volto a dizer, a violência é o principal problema do brasileiro hoje. E não é só da capital, está se espalhando, como um câncer, para o interior.

Eliane Cantanhêde

Pois é. Se os governos municipal (principalmente), estadual e federal falham e os cidadãos não tomam cuidados básicos, que pelo menos a imprensa faça a sua parte.
Na vida, mais especialmente em saúde, é melhor prevenir do que (tentar) remediar. Informação, informação, informação!

Gostei especialmente do principalmente entre parêntesis. É a coerência de sempre dos esquerdopatas. Quando explodiu uma epidemia de dengue no governo FHC, a culpa era do Serra. Pois o governo bateu mais um recorde e superou o anterior. De quem é a culpa? Da prefeitura (principalmente). Claro que os culpados estão nas três esferas, mas é bom lembrar que somos uma federação só de nome, o grosso dos recursos estão nas mãos do governo federal. Mas o Temporão tem mais o que fazer, não é mesmo?

CARLOS HEITOR CONY:

(…)

Acharam mesmo que eu citaria alguma coisa deste cidadão aqui? Fala sério! Primeiro ele devolve sua bolsa ditadura, depois pode até começar a ser lido por gente de bem. O que não dá é para sustentá-lo (é bom lembrar: é nosso dinheiro) e ainda ter que ler seu pensamento. Nojento!

Mais um dossiê, qual é a novidade?

O Brasil não vive hoje um estado policial não é por falta de vontade do governo, mas porque não pode. Mas a cada dia avançam mais um pouqinho.

Já tinha comentado aqui antes, o uso da máquina do governo para fuçar o governo FHC era coisa de totalitarismo de estado, e isso foi confirmado. A Veja (sempre ela) informou que um dossiê preparado dentro do governo (minha aposta: Franklin Martins e Dilma Roussef) contra FCH e Ruth Cardoso tem circulado no congresso para chantagear a oposição. Mais grave ainda é que o chefe da CGU deixou bem claro em seu depoimento na CPI que está por dentro do plano, e não é o ínico.

Aos pouquinhos o governo vai diminuindo as instituições, e não é novidade. Para quem já usou a Receita Federal e CEF (caso Francenildo), PF (Daslu e Dossiê dos aloprados), Ministério da Justiça e Relações Exteriores (lutadores cubanos), usar o estado para atingir adversário já é uma realidade. Diga-se de passagem, já era antes de alcançarem o poder. Quantos “vazamentos” durante o governo FHC não foram originários de quebra de sigilo fiscal dentro de bancos oficiais?

É preciso varrer esta turma do estado, antes que seja tarde.

Ambientalistas e a Amazônia

No Globo de hoje:

“Ambientalistas são contrários à reconstrução da BR-319, prevista no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e defendem a construção de uma ferrovia entre duas cidades amazonenses: Careiro Castanho (a 80 quilômetros de Manaus) e Humaitá (a cem quilômetros de Porto Velho). Segundo o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas, a ferrovia conteria em 80% o desmatamento previsto para a reconstrução da BR-319.”

Ferrovia e rodovia cumprem finalidades diferentes, são complementares. A ferrovias destina-se principalmente para o transporte de cargas; quanto mais pesada for a carga, mais econômica. Em boa parte do mundo o transporte de passageiros por longas distâncias está em desuso. A Europa é uma excessão, muito pelo grande potencial turistico de atravessar diversos países e principalmente pela rapidez que se conseguiu nas composições.

É uma utopia imaginar que um país carente de rodovias (apenas 10% são asfaltadas) e com um sistema ferroviário ainda incipiente, poderá ter a ferrovia como solução para transporte de passageiros. Portanto, em se tratando de Brasil, ferrovias e rodovias não disputam passageiros.

Manaus é a principal cidade da Amazônia Ocidental, o pólo de todas as políticas para a região. Entretanto carece de uma ligação com as demais regiões do Brasil, colocando-a em uma situação de isolamento. Esta situação compromete a própria soberania brasileira na Amazônia ao afatá-la da maioria dos brasileiros. É preciso integrar a Amazônia ao Brasil, e para isso é preciso ligações rodoviárias para todas as capitais de estados, a começar pela do Amazonas.

A estrada já está aberta, falta pavimentá-la, o que implica em acertar seu traçado. O principal impacto já foi causado na época da suas construção, ainda na década de 70. Haverá novos impactos com a nova obra na 319, mas ela é necessária para a política de integração territorial brasileira. Que se tome todas as medidas para mitigação destes impactos e compensações ambientais necessárias, mas a obra deve ser feita.

Defesa do meio ambiente é uma coisa, mas o uso político desta defesa é outra completamente diferente.

Aliança macabra

Pipocam na imprensa, de vez em quando, a notícia que Marta Suplicy, Kassab e Alckmin estão disputando uma aliança com Orestes Quércia pelo tempo na tv do PMDB. Hoje o painel da Folha informa que Kassab está inclusive oferecendo cargos no segundo governo.

É preciso ter calma com o que se lê na imprensa, muitas vezes a mídia é uma extensão da disputa política. Informações privilegiadas, verdadeiras ou não, são “vazadas” para jornalistas para promover estragos aos adversários.

Sei que na disputa eleitoral de hoje o tempo na televisão tem uma importância muito grande, ainda mais em uma disputa acirrada como está se configurando em São Paulo. Os minutos do PMDB devem valer ouro, mas não tenho nada com estes cálculos políticos. Só acho uma aliança macabra, como o governo Lula está mostrando com o aparelhamento do estado pelo ex-partido de Ulisses Guimarães. Uma aliança com Quércia é uma aliança macabra para quem deseja se opor a tudo isso que está por aí.

Poço estar sendo bastante ingênuo, sei da importância das alianças para governar, mas sei de suas implicações também. Alckmin começou a jogar sua eleição no lixo quando subiu no palanque com Garotinho, não ganhou um único voto no Rio, aliás perdeu. Conseguiu rachar uma base sólida de sua campanha no Estado com César Maia e Denise Frossard. Na época o prefeito do Rio foi enfático: era o beijo da morte.

Quem se aliar com Quércia terá de carregá-lo, e não será fácil. Se existe realmente esta disputa, que vença Marta Suplicy, é a cara de seu governo. Se esta aliança for decisiva para vencer a eleição, acho melhor perder sem ela do que ganhar com ela, pois é uma dessas que se carrega pelo resto da vida.

Meu Deus!

O Ministro Jorge Hage em seu depoimento na CPI dos cartões corporativos disse que o gasto do ministro dos esportes só ganhou notícia porque se referia à tapioca, se fosse um hamburguer do MacDonalds teria sido ignorado, trata-se, portanto, de um preconceito contra a tapioca.

Só tenho uma coisa a dizer depois de um depoimento destes: Meu Deus!

É esse o homem que tem a incumbência de investigar as irregularidades na administração federal.

Novidades do domingo…

Passei o fim de semana longe do computador. Pelo que vi em uma rápida passagem pela net é que os dois principais fatos deste domingo foram:

  1. Kassab subiu nas pesquisas e já enfrenta de igual para igual Marta Suplicy no segundo turno. É uma pensa que Alckmin esteja forçando a barra e dividindo uma eleição certa para tentar fugir do ostracismo. Devia pensar grande; o DEM está louquinho por um candidato à presidente para poder concorrer em 201o. Alckmin seria um bom nome. Largaria esta barca furada que se tornou o PSDB, deixaria Aécio brigando com Serra, e se lançaria por um dos  dois partidos que estão efetivamente fazendo oposição ao governo atual (o outro é o PPS). Ainda me pergunto, por que os institutos não simulam pesquisas para 2010 com Alckimin concorrendo? Seria uma boa medir o recal do ex-candidato. Se até Lula consegui aprender com suas derrotas, por que ele não poderia? O Brasil precisa romper esta polarização PT-PSDB. Afinal trata-se da esquerda e da direita…. da esquerda! Está na hora de surgir um partido que defenda o conservadorismo, pode se surpreender com a reação…
  2. McCain emparelhou com os democratas. É um feito e tanto se considerarmos a percepção altamente negativa do governo Bush, principalmente na economia. Não sei se seria uma boa vencer as eleições com um candidato republicano que não é lá muito republicano. Mas não deixa de ser interessante para mostrar que o pensamento conservador nos Estados Unidos ainda está de pé.

Discurso de Jarbas Vasconcelos: nada a reparar

Estamos passando por uma fase no País em que o Presidente da República faz tudo, muito mais do que fizeram, em regime de exceção, os generais ditadores. A sessão de anteontem, portanto, não poderia passar sem um registro de nossa parte.De forma que essa sessão de ontem não poderia passar, Sr. Presidente, Srs. Senadores, sem um registro da nossa parte. Eu não tenho papel de liderança aqui, sou um dissidente do meu Partido, o PMDB, mas não poderia deixar de registrar o meu repúdio, a minha indignação a esse comportamento. A medida provisória, por si só, já proíbe, já não permite uma discussão. E, aqui, a liderança do Governo, por porta de travessa, arrumou um expediente, dentro desta Casa, para restringir, ainda mais, o debate, estabelecendo número de oradores para se discutir a medida provisória presidencial, que criava a TV pública nacional. É realmente inconcebível, é intolerável, engolir isso, passar-se pela tarde de anteontem, e pela madrugada de ontem, sem um protesto – e um protesto veemente – pela insanidade cometida, aqui, no plenário deste Senado.Nós tivemos, como chamou a atenção a atuante Senadora, por Tocantins, Kátia Abreu, um final de ano, aqui, no plenário do Senado, que chamou a atenção de todo o País. A Oposição com um mínimo de organização, conseguiu derrotar a renovação, mais uma vez, da CPMF. E a maioria dos Senadores que, aqui votou – essa maioria que votou – votou para reduzir a carga tributária. Naquele momento, não se estava votando contra o Presidente Lula; não se estava votando contra o PT; não se estava votando contra quem quer que fosse. Estava se votando, de forma clara, bastante transparente, a favor da redução da carga tributária. O Brasil tem uma das maiores cargas tributárias do mundo. Cresce, como está crescendo, e cresceria muito mais, se o Presidente cuidasse da infra-estrutura do País. Estamos exportando, mas se exportaria muito mais, se tivéssemos estrada-de-ferro, rodovias, aeroportos, portos. aeroportos, portos. Não temos nada disso e o País consegue o milagre ainda de ter uma pauta de exportações bastante saudável. Nossa luta se deu no sentido de redução da carga tributária.

Acabou o ano, Sr. Presidente, com a promessa solene de Sua Excelência o Presidente da República e a Liderança do Governo aqui de que não haveria substituto para a CPMF. O Governo tinha absorvido a derrota, reconheciam alguns setores do Governo que a carga tributária estava excessiva e que o Governo ia procurar entrar 2008 sem aumentar impostos. Mentira! Tudo mentira! Começou o mês de janeiro e o Presidente da República anunciou aumento de novos impostos. O Ministro Guido Mantega teve a desfaçatez de ir à televisão para dizer que aquela promessa era até o dia 31 de dezembro, que, a partir do dia 31 de dezembro, o Governo estava livre para arrumar um substituto, algo que substituísse a ausência da CPMF.Mas vejam V. Exªs, Sr. Presidente, Srs. Senadores, algumas manchetes:
O Estado de S.Paulo, de 27 de fevereiro deste ano: “Receita cresce 20% após fim da CPMF. O fim da CPMF não afetou o desempenho da arrecadação de impostos e contribuições federais”.

Valor Econômico, jornal específico sobre assuntos econômicos: “O impressionante salto das receitas federais em janeiro”, um editorial de três de março do corrente.

Outra matéria: “Gastos e carga tributária elevada são mantidos”.

Sr. Presidente, a impressão que se tem é a de que o Presidente da República quer fazer o País de tolo, de bobo e a população, de idiota. As instituições não são respeitadas. Recentemente, tivemos uma agressão ao Judiciário na pessoa – nada mais, nada menos – do Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o Ministro Marco Aurélio Mello, que pode até ter provocado um equívoco de estar se antecipando, dando opiniões sobre processos que não lhes chegaram ainda às mãos, mas nada merecia o ataque que foi deferido, no Nordeste, pelo Presidente da República, de forma desmoralizante e contra um dos poderes. Eu não estou falando de órgãos, estou falando do Poder Judiciário.
Sr. Presidente, os assuntos aqui – assuntos menores – andaram tomando conta disso e o Presidente foi poupado de uma análise maior do Plenário do Senado Federal. É verdade que vários Senadores abordaram o assunto – que aconteceu num final de semana – e denunciaram, mas esse assunto passou ao largo. Porém, no dia 1º de março, ele mereceu um editorial – não é uma opinião política, é um editorial – da Folha de S. Paulo, com o título “Território invadido”. “Ataques do Presidente Lula a um Ministro do Supremo são espetáculo constrangedor de descontrole e truculência. Quem entrou em cena numa cerimônia realizada, anteontem, em Aracaju, foi um Presidente da República desequilibrado e truculento, vociferando do palanque despropositadas provocações a um Poder autônomo da República.”

É a Folha de S.Paulo, não é nenhum colunista. É o Conselho Editorial que orienta a fazer o editorial. Quero que faça parte integrante da minha fala esta opinião da Folha, com o título: “Território invadido”.

O Globo também não ficou atrás, e aí não mais por meio de editorial, mas da palavra do seu colunista Merval Pereira, que diz: “Lula revela todo o seu autoritarismo e presta um desserviço à democracia quando, fazendo política de palanque, investe publicamente contra o Judiciário”.

São coisas que têm que ficar registradas no plenário, Sr. Presidente, Senador Alvaro Dias, porque, por exemplo, tive uma experiência, lá atrás, de combate à ditadura. E quanto mais forte e exorbitante a ditadura, quanto mais ela gritava, quanto mais ela matava, seqüestrava, mais nos dava ânimos de lutar contra o seu fim, de ver o seu fim.Para mim pouco importa se Lula tem 70% ou 80%, se, no meu Estado, Estado natal dele também, ele tem 80%, porque quando ele disputou a Presidência da República, eu votando contra ele, tivemos votações quase que assemelhadas.Então, isto não me causa nenhuma inquietação, nenhuma mossa: o Presidente da República estar num patamar muito elevado de popularidade.

Mas ele não pode continuar desmoralizando o Judiciário; não dar a mínima atenção ao Tribunal de Contas da União; passar a mão na cabeça de corruptos, como fez e como faz constantemente; dizer que uma Ministra, que se atrapalhou com o dinheiro público, que fez compras em free shop, nada deve e que ela deve sair de cabeça erguida. E a própria Procuradoria-Geral da República incriminar essa Ministra e mandá-la devolver o dinheiro.Essas coisas, Sr. Presidente, têm que ter um fim e têm que ser registradas aqui. O Presidente da República não leva mais em conta o Judiciário. O TCU para ele não vale nada, é um lugar de políticos aposentados, segundo voz corrente dentro do Palácio do Planalto. Uma tentativa clara e transparente de desmoralização do Congresso Nacional. A Câmara não precisa se desmoralizar porque vive completamente manietada pelo Palácio do Planalto; o Senado, que tem uma maioria escassa com relação ao Governo, o Presidente Lula tenta calar e tenta desmoralizar.

Portanto, se não formos para o enfrentamento, os partidos de Oposição – o PSDB, o DEM e outros partidos – se deixarmos a coisa eleitoral de lado… Porque a coisa eleitoral está sendo colocada pelo Presidente da República, que usa um avião pago por todos nós e está disposto a sair toda semana, duas vezes, para fazer comícios no interior. Está registrado hoje em todos os jornais que ontem foram distribuídas cinco mil marmitas aqui, foram convidadas não sei quantas pessoas ali, o Presidente leva dinheiro, enfim. E se esta Casa fica calada… Porque a mídia, que tem tido um papel altivo, a Presidência da República não leva em nenhuma consideração, em nenhuma consideração: Estado de S. Paulo – por meio de seus editoriais –, O Globo, a Folha S Paulo, o Jornal do Brasil – para ficar nos maiores jornais em nível nacional. Ou seja, a mídia não tem sido levada em conta em coisa nenhuma pelo Palácio do Planalto; o Judiciário desmoralizado, o TSE mais ainda, porque quem foi atingido foi o Presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

Eu quero saber, Sr. Presidente, onde é que vamos parar com isso. Um Presidente com uma formação autoritária, uma formação que exorbita a toda hora e a todo instante, que quer porque quer fazer com que a opinião pública entenda que quem trabalha é ele e este Congresso não trabalha. É verdade que se discute muito aqui e se vota pouco, mas se vota pouco porque as medidas provisórias trancam a pauta desta Casa. E não é, Sr. Presidente, por intermédio de medidas provisórias que se cria – para voltar um pouco atrás e falar novamente – uma TV Pública Nacional. Isso é um desrespeito não somente ao Senado, à Câmara, ao Congresso Nacional, mas também um desrespeito a todo o Brasil. Sobre isso já falou aqui, hoje, com muita competência, o nosso Senador Pedro Simon.
Com relação ao episódio que envolveu a Colômbia há cerca de dez dias, o Brasil teve um papel vergonhoso. Eu disse isso ontem ao Ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, na mesma hora em que o Congresso estava reunido para apreciar o Orçamento. Disse a ele que a aparição dele e do Governo da República na televisão foi um desastre. A coisa ficou pela metade. O Brasil insistia que a Colômbia tinha que aprofundar, fazer um novo pedido de desculpas. Tudo bem, se o Itamaraty não estava satisfeito com o pedido de desculpas que foi formalizado pela Colômbia, então deveria pedir a Colômbia para aprofundar aquele pedido de desculpas.Mas não dar uma palavra sobre uma organização que já teve uma luta ideológica, mas que hoje são um agrupamento de criminosos, de assassinos, de seqüestradores?

É inconcebível, Sr. Presidente! É inconcebível porque o Brasil nunca adotou a posição de um Presidente da República influenciar a política do Itamaraty, não permitindo que o Brasil, em uma nota clara, dura, transparente, condenasse a invasão do espaço aéreo do território equatoriano e, com a mesma dureza, com a mesma ênfase, a ação criminosa das Farc. Está aqui, Sr. Presidente, inclusive um artigo de Clóvis Rossi, que não é apenas um colunista, S. Srª pertence ao conselho editorial da Folha de S.Paulo. Diz o artigo: “O Brasil pode e deve ser neutro entre dois vizinhos, mas não pode nem deve ser neutro entre o Governo colombiano legítimo e as Farc, um grupo delinqüente.”

E as contradições não são só essas, Sr. Presidente. O Ministro Celso Amorim disse que as Farc não tem status porque o Governo brasileiro não reconhece. Não é verdade, porque, enquanto S. Exª disse isso, esse falastrão que vive lá no Palácio do Planalto, o tal do toc-toc-toc, perguntado pelo Le Fígaro, em Paris, no dia 4 de março desse mês – há apenas 12 dias –, também disse o seguinte sobre a relação do Brasil, do Governo brasileiro, com as Farc: “Lembro-lhe que o Brasil tem uma posição neutra com relação às Farc. Não as qualificamos como grupo terrorista, nem como força beligerante.” É esse homem que dita a política internacional, a política exterior do Brasil, não mais o Itamaraty.

Então, são essas coisas, Sr. Presidente, que temos que enfrentar, que a Oposição tem que enfrentar – e enfrentar como tem enfrentado –, agora, com mínimo de organização, temos que ser organizados.
Não posso dar pitaco dentro do meu Partido – porque não me deixam –, mas quero dar pitaco dentro da Oposição, onde eu me sinto inteiramente à vontade.É preciso que nos organizemos e que mostremos – quando o Presidente vai para o interior do País, faltando com a verdade, nos acusando de fazer um desvio eleitoral – os jornais do dia.

Esse, Senador José Agripino, é O GLOBO de ontem, do dia 12: “Em clima eleitoral, ataques à Oposição”. Aí diz: “Num evento com ar de campanha, com discursos inflamantes, transporte gratuito e distribuição de comida, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem, na inauguração de um projeto de irrigação, que seus adversários só pensam na sucessão presidencial de 2010”.Pode um negócio desses, Sr. Presidente? Existe uma coisa dessa natureza, a pessoa fazer e nos atribuir o seu feito? Não pode! Não podemos continuar tolerando, aceitando isso todos os dias. Alguém tem que passar por esta ou por aquela tribuna, para denunciar isso.O País não pode ficar imaginando que a Oposição foi contra a TV Pública Nacional, porque era contra TV Pública. Não sou contra a TV Pública Nacional, sou contra a forma desmoralizante como foi criada, por meio de uma medida provisória.

É isso, Senador José Agripino, que tem que ser enfrentado, porque se não é enfrentado amanhã vem o arrependimento de que deveria ter dito isso, deveria ter ido à tribuna. Um presidente da república que não leva em conta o Judiciário, que desmoraliza o Judiciário, que pega o Congresso Nacional e o manda trabalhar, como se ele fosse um presidente trabalhador, que não tem o menor respeito à mídia, que tem uma equipe com estrelosos e aloprados. Quando existe alguma coisa com um estreloso desse ou com o aloprado, ele passa a mão na cabeça porque a força dele é de tal natureza na cabeça do Presidente da República que basta a palavra dele para se confrontar com o Judiciário, Tribunal de Contas da União não vale nada e, como disseram dentro do Palácio do Planalto, é um acampamento de políticos aposentados e por aí vai levando. Até quando isso vai chegar ninguém sabe.
Então, é preciso que não se deixe o Presidente fazer – estou falando de 100 dias para cá. Derrotamos a CPMF, o Presidente decretou aumento de impostos em janeiro, disse que não ia fazer mas fez, a arrecadação subiu, diz para os concursados do Brasil que a responsabilidade de não fazer concurso e nem chamar os concursados é da oposição. Lorota, lorota para não dizer mentira. Os concursados podem ser chamados porque a arrecadação está sobrando, o dinheiro sobrou.Basta ler os jornais sobre o excesso de arrecadação já em janeiro e da previsão de uma arrecadação maior ainda em fevereiro e em março.

Então, tudo isso, Senador Mão Santa, tem que ser feito, como V. Exª por dever de justiça tem feito aqui, mas tem feito sozinho. Tem feito é sem dentro de uma orientação. Tem feito sem dentro de uma organização, daqueles que relutam, não é?, e querem enfrentar essa situação que está se criando no País.

Eu não tenho posição de liderança dentro dessa Casa, pertenço a um Partido dissidente, mas não vou ficar calado. Vou me inscrever agora em todos os horários que dispuser e que tiver ao meu alcance para denunciar. Pouco importa para mim se ele já desmoralizou o Judiciário, não liga para o TCU, se ele quer investir contra o Senado, se ele não leva em conta a imprensa, se ele cria uma tevê pública através de medida provisória, não me importa. Nós vamos para o enfrentamento para depois não estar aqui choramingando pelos cantos ou dentro de casa dando satisfações aos familiares e aos eleitores de que ele devia ter feito isso e não fez.

O Presidente da República tem uma formação autoritária, altamente autoritária, tem extravasado essa sua formação autoritária e o Senado não tem por que calar nem tem por que colocar o rabo entre as pernas. Tem que levantar a cabeça, gritar, protestar, pouco importa de que isso vá, o eco disso seja pequeno. É pequeno nesse momento, mas depois cresce.Eu me lembro, eu era Deputado Estadual no Recife, só tive um mandato de Deputado Estadual, e uma vez vi uma pesquisa com Garrastazu Médice, o pior dos Generais, o mais contundente dos Generais, com 84% de avaliação política no meu Estado. Deu no que deu, uma figura repudiada, que hoje… vivia até pouco tempo dentro de um apartamento e de lá saiu para a sua… para o seu túmulo.

De forma, Sr. Presidente, que a gente tem que enfrentar essas coisas porque não é possível que CPMF, ataque ao Poder Judiciário, posição dúbia com relação ao episódio de condenação da Colômbia. Recebe, aqui, um falastrão – o Presidente do Equador – que chama de canalha o Presidente de um Estado e não recebe, aqui, nenhuma repreensão do Itamarati. Vai dizer isto para o seu povo lá no Equador mas não no Brasil, um País que tem a tradição que o Brasil. Por que ele se sentiu à vontade para dizer isto aqui? Porque deu uma declaração pela metade: o apoiou, condenou a Colômbia e exigiu nova desculpa da Colômbia nas não enfrentou os seqüestradores, os bandidos, militantes e freqüentadores da Farc. Por isto é preciso que se diga sempre isto, mesmo que não ecoe de forma maior ou num volume maior como quisermos mas tem que ser enfrentado.

Por isto, Sr. Presidente, agradeço a tolerância de V. Exª e quero, apenas para ajudar o corpo taquigráfico, pedir que faça parte do meu pronunciamento – foi um pronunciamento de improviso – as coisas que aqui me referi.Deixo aqui os documentos. Se a Taquigrafia tiver alguma dúvida, poderá me procurar depois. Eu deixo esses documentos aqui e peço a transcrição desses editoriais, tanto da Folha de S. Paulo como a Coluna de Merval Pereira do O Globo e, também, o Editorial do Estadão.

Muito obrigado, Sr. Presidente.