Copacabana sitiada (ou quase)

Andando de taxi por Copacabana hoje pude constatar uma triste realidade: o bairro está tomado por marginais. Nem adianta dizer que sempre foi assim, pois a coisa está em outro nível. Dá para perceber o clima tenso, carros de polícia passando, gangues andando pelas ruas sem a menor preocupação. Não temem mais nada. Moradores de rua também se espalharam pelas esquinas e praças.

O pior disso tudo é que não vejo perspectiva nenhuma de melhora. Acho que caminhamos para um desastre. Não algo isolado, como tantos casos que já aconteceram no Rio, de vítimas individuais. Dessa fez tenho a sensação que será diferente. Sinto uma tragédia de alguma proporção se aproximando na cidade e muitos amigos que ficam até ofendidos quando se fala mal do Rio estão quietos agora, concordando tristemente com um diagnóstico que sempre relutaram em aceitar.

Um amigo disse outro dia: o Rio de Janeiro é ruim, mas é bom. Acho que essa mentalidade tem que mudar. É muito conformismo. Não adianta falar de Belo Horizonte, São Paulo, Nova Iorque, Chicago. A coisa aqui tem outra dimensão, que ultrapassa estatísticas. Enquanto não se aceitar a verdade, por mais dolorida que seja, não teremos nenhuma chance.

O Rio de Janeiro é uma grande massa humana, pintada com manchas de sangue. 

Uma nota sobre o Nobel de Dylan

Uma nota sobre o Nobel de Dylan

Qualquer prémio está sujeito a injustiças, o que volta e meia rende boas discussões. Não sei bem por qual motivo, o Nobel possui um nível de credibilidade maior, e alguns o crêem incontestável. Discordo, pois qualquer obra submetida ao julgamento humano pode gerar erros e injustiças. Só isso seria suficiente para nos fazer desconfiar de qualquer prêmio. No que se refere ao Nobel, duas categorias são particularmente polêmicas, pela alta subjetividade, os Nobel da paz e de literatura.

Sobre o Nobel da paz deste ano, acredito que o povo colombiano se manifestou politicamente em plebiscito. Mais uma vez, privilegiou-se intenções sobre ações, um dos males da atualidade. O assunto da semana foi o outro, o Nobel de literatura conferido ao músico Bob Dylan.

Os puristas reclamaram. Como puderam? Um músico? Aí está o grande erro. O Nobel não foi dado a Dylan pela qualidade de suas músicas, mas a suas letras. A questão, portanto, precisa começar por uma questão: pode uma letra de música ser considerada literatura?

Dylan

A meu ver, qualquer forma de expressão escrita pode ser considerada literatura, desde que entendamos que ela pode ser boa ou ruim. A letra de uma música, por exemplo, pode ser uma poesia __ não significa que toda letra o seja, que fique claro. Elas podem variar imensamente de qualidade; sem prejudicar a música, diga-se de passagem. Basta colocar uma letra do Lou Reed ao lado de uma de Lady Gaga para perceber a diferença. É possível até que um mau músico seja um bom letrista.

Assim sendo, dizer que um compositor não pode concorrer ao Nobel de literatura pela qualidade de suas letras parece-me um preconceito. Por que não? A questão não é o gênero literário, mas sua qualidade. Portanto, para julgar o Nobel do Dylan, deve-se discutir não sua condição de músico, mas a qualidade de suas letras. E não adianta pegar um refrão conhecido para mostrar que é ruim, é preciso analisar pelo menos uma boa amostra das composições de um autor.

O que achei do Nobel? O problema é justamente esse. Conheço algumas músicas esparsas do Dylan e nunca tive vontade de me aprofundar. Seus fãs dizem que sua força está justamente nas letras e talvez seja por isso que sua música nunca tenha me encantado, por não ter prestado atenção no que ele dizia. Ou seja, não tenho condições de analisar a decisão dos sábios do Nobel por não conhecer a obra suficientemente. Não sei se fizeram bem aos premiê-lo, apenas acho que não se pode condenar a premiação, como tenho visto, pelo fato de ser um músico popular. Mostrem que suas letras são ruins, ou que não possui nada de extraordinário, e terão um argumento. Mostrem que há melhores, terão outro. Mas, por favor, pelo menos leiam seu trabalho!

De minha parte, é o que farei. Nos próximos dias vou estudar algumas de suas composições para formar meu juízo. Mortimer Adler ensinava que temos primeiro que entender, para só então julgar. Acredito nisso.

Presente, de Antonio Cicero

Por que não me deitar sobre este

gramado, se o consente o tempo,

e há um cheiro de flores e verde

e um céu azul por firmamento

e a brisa displicentemente

acaricia-me os cabelos?

E por que não, por um momento,

nem me lembrar que há sofrimento

de um lado e do outro e atrás e à frente

e, ouvindo os pássaros ao vento

sem mais nem menos, de repente,

antes que a idade breve leve

cabelos sonhos devaneios,

dar a mim mesmo este presente?

Hitler e os Alemães

No verão de 1964, Eric Voegelin proferiu uma série de conferências na Universidade Ludwig-Maximilian, em Munique. O tema foi o problema experiencial central do povo alemão: a ascensão de Hitler ao poder.

Como uma socieade pode aceitar ser liderada por um tipo com Adolf Hitler? Esse é o vídeo de apresentação das conferências e do livro Hitler e os Alemães. Na minha página do facebook,  Paideia, você acompanhará um curso completo sobre o assunto.

 

Mais um clássico do bardo: Sonho de uma noite de verão

Passei o fim de semana com mais um clássico de Shakespeare: Sonho de uma Noite de Verão. Não entendi ainda tudo que está na peça, até porque é impossível em apenas duas leituras. Trata-se de uma dessas obras para você estudar a vida inteira. Minha mente está viajando em interpretações possíveis, que anotei no meu caderno de leituras para refletir sobre elas, com calma, nos dias que virão.

Chamou-me atenção a existência de três grupos distintos: os atenienses, os seres

Oberon, Titania and Puck with Fairies Dancing circa 1786 by William Blake 1757-1827

Oberon, Titânia, Puck e fadas. William Blake, 1786

fantásticos e os mecânicos (trabalhadores manuais). O que representam? Há uma certa incompreensão com a presença dos atenienses na peça e há versões que eles são substituídos, o que é uma bobagem. Há alguma razão para Shakespeare tê-los colocados, assim como o extrato da peça de Ovídio. Há um choque de culturas na peça, os gregos, os místicos e os científicos. A tri-partição da alma de Platão? As três eras de Comte? Se assim for, é curioso que a terceira era, da ciência, seja a retratada de forma mais ignorante, enquanto que a sabedoria está nas fadas. Mas tudo isso são direções para investigar, apenas idéias que me ocorreram.

Afinal, o que representa o menino roubado do rei indiano?

Outro aspecto é a força das imagens. Poucas peças geraram tantas obras de arte como pinturas, músicas, filmes, poemas e etc. É quase uma matriz para a imaginação de artistas de todas as eras.

Se é possível ver uma unidade na peça através da narrativa, muito mais complicado é encontrar o tema central; se é que existe. O amor e seus obstáculos parece ser um forte candidato, mas a simbologia e as imagens são tão impressionantes que sugerem muito mais significados e interpretações. Há um universo inteiro nessa peça e é plenamente concebível passar anos estudando cada passagem. É próprio dos sonhos o aspectos caótico, misturado a iluminações profundas. Como Puck sugere no final, como realmente diferenciar sonho de realidade?

Talvez o componente do mistério seja o grande elo entre os grupos e histórias e apenas um artista, do tamanho de Shakespeare, poderia criar obra com tamanha força e poder de imagens. Uma obra prima.

Midnight

Edwin Landseer, Titania e Bottom (1848)

O mal no coração humano

Em Crime e Castigo, a narração do crime cometido por Raskolnikov (sim, precisei googlar para acertar o nome) é impressionante, e angustiante. Aliás, é interessante como em toda primeira parte do livro, Dostoievsky vai colocando aqui e ali, quase que por acaso, os sinais do que ia no coração de seu trágico herói. Só quando ele toma a resolução final é que compreendemos que o germe do mal já estava em sua alma desde as primeiras páginas.

Em um ensaio maravilhoso sobre MacBeth, Chesterton aponta a grande tentação do homem. Abrir mão da moralidade por um único instante, cometer um ato vil, e depois retomar sua vida como se nada tivesse acontecido. Desde o começo dos tempos essa tentação está presente em nossas vidas, e sempre se revela um engodo, como na peça de Shakespeare. A cenatumblr_m2heyhxfxp1qlqq6eo1_400 da Lady MacBeth tentando lavar as mãos incansavelmente é simbólica: não há como lavar totalmente o sangue das mãos. Uma vez cometido o crime não há retorno, o caminho é sempre para baixo. Não raramente, quando menos se espera, já está matando novamente.

Não pude deixar de lembrar um caso que acompanhei, de um amigo que matou outro amigo. Sim, isso mesmo. Já tive um amigo que assassinou outro. Fiquei pensando se não passou por ele sentimentos parecidos com os que Raskolnikov sentiu naquele episódio terrível. O mal sempre está à espreita, tentando o homem de todas as formas. Apenas um coração vigilante pode evitar sua ação. Não é possível cometer um assassinato e depois retomar a vida normal. O mal deixa marcas e uma hora o infeliz terá que lidar com seus demônios.

No filme Crime e Pecados, Woody Allen sugere que não, que é possível esquecer o crime e deixar o arrependimento se esvair se tiver força suficiente para suportar os primeiros meses. Aliás, recomendo a trilogia que o cineasta fez sobre esse tema, com três soluções diferentes (Match Point, Crimes e Pecados e O Sonho de Cassandra).

E tudo retorna novamente a grande questão colocada por Dostoievsky, é possível uma vida moral sem um fundamento na transcendência? Ou, em outras palavras, morto Deus, é possível falar em moralidade? Uma questão sempre atual.

Hitler e os Alemães

Em 1964, Eric Voegelin proferiu um curso de verão na Universidade Ludwig Maximilian de introdução à Ciência Política. Ao invés de seguir o esquema tradicional de apresentar a teoria, com definições e conceitos, e exemplos de sua aplicação, ele fez diferente. A partir da experiência concreta que os alemães estavam vivendo naquele tempo, ele levanta alguns problemas de ordem política, sendo o principal dele a cumplicidade dos alemães como regime nazista, assunto que considerava longe de estar superado.

Posteriormente, Voegelin transformou esse curso no livro Hitler e os Alemães. Esse livro trata não só do problema da ascensão de Hitler ao poder, mas da problemática da ideologia política. Serve mais do que entender o fenômeno particular de Hitler, mas para entender como um líder estúpido e criminoso chega ao poder, com a cumplicidade de parte da população. 

Pois este tema continua atual. 

Estou elaborando um curso sobre este livro. Em breve, mais novidades. 

O Vltava (ou Moldau)

O poema musical Vltava é uma composição do século XIX do compositor tcheco Bedrich Smetana e faz parte de um conjunto de 6 peças entitulado Má vlast (minha terra natal). Trata-se de uma obra de cunho nacionalista, que Smetana tenta traduzir seu amor por sua pátria.

Vltava ou Moldau é o rio que nasce na Bohemia e termina na cidade de Praga e a música de 12 minutos acompanha a trajetória do rio. Trata-se de uma das mais belas composições musicais já feitas na história, e minha preferida. Ela aparece no filme A Árvore da Vida, remetendo ao rio como símbolo da própria existência humana.