Precisamos de Frank Capra!

Fazia anos que não assistia um filme do Capra. Big mistake! O homem era um gênio e seus filmes nos fazem refletir sobre o rumo que estamos dando para nossas vidas. Assistir Capra é uma injeção de senso comum, de nos conectar com o que realmente importa.

Mr Deeds goes to Town (1936) é uma das suas pérolas mais preciosas. Um homem bom e inocente só poderá ser visto como um louco na sociedade moderna onde só existe valor material para as coisas.

Capra é puro Chesterton. É o resgate não só do senso comum, mas do homem comum, que é extraordinário justamente por ser comum.

Conto da Semana: Pai contra Mãe (Machado de Assis)

Este conto escrito em 1906 mostra o encontro da pobreza com a escravidão. Há um contraste entre o otimismo de Cândido, que espera o nascimento do primeiro filho, e o desespero de não ter dinheiro para sustentá-lo. Para a tia Mônica, só há uma solução: entregá-lo na roda dos rejeitados.

Na última hora, surge uma chance de manter o filho, a captura de uma escrava fugitiva. Desesperada, ela grita com ele que está grávida, que não pode retornar para seu dono.

Machado narra com amargura esta escolha tão humana e tão desumanizante ao mesmo tempo. Lembra-nos também que ser livre não é muito diferente de ser escravo quando se é oprimido pela pobreza.

COVID: Onde o Brasil errou?

O Brasil é um continente e seus estados são países. O pânico é um terrível conselheiro e o jornalismo inconsequente, preocupado em gerar o caos, piorou ainda mais a situação. O resultado é que no fim de março, todos os estados e municípios acabaram adotando alguma forma de quarentena em um efeito dominó. A maioria deles estava fechando antes de ter uma transmissão comunitária relevante a ponto de ameaçar seus meios de saúde.

Logo de início, ficou claro que o problema ainda estava concentrado no Rio, São Paulo e alguns estados do norte e nordeste, estes últimos por problemas de saneamento e estrutura de saúde.

O resultado é que depois de 100 dias, não há fôlego para continuar e, em muitos lugares, a transmissão está apenas começando. O Brasil tinha que ter agido como se fosse um continente e não como um grande país.

Tanto que estamos a mais de um mês em um falso platô. Por que falso? Por que algumas cidades já passaram pelo pico, especialmente as duas mais populosas, mas a queda dos casos é contrabalançada pelo aumento de outras. Há uma soma de várias curvas de infecção que gera uma falsa percepção de estabilidade.

A quarentena, da forma como foi implementada, deveria ter sido feita apenas em alguns lugares, com picos mais acentuados, EM MOMENTOS DIFERENTES no tempo.

Há uma percepção que acredito equivocada de que mesmo uma cidade sem nenhum caso poderia evitar o covid simplesmente fechando seu comércio e esperando a onda passar. Na verdade, apenas empurrou a contaminação para um futuro incerto e não foi realista na sua capacidade de se manter indefinidamente neste estágio.

Cidades, como Campinas e Porto Alegre, estão voltando atrás nas medidas de flexibilização da quarenta. O problema não foi a decisão de agora, foi a anterior. Deveria estar implantando algumas medidas restritivas SOMENTE agora, e não lá trás quando não tinha uma transmissão comunitária suficiente.

Ainda teremos dias difíceis pela frente, mas a forma como se lidou com a crise apenas gerou uma crise econômica que poderia ter sido evitado. O dado importante é que não há registro de óbitos por falta de vaga em UTI. Ou seja, as vidas que perdemos não poderiam ser evitadas por nenhuma quarentena. Só adicionamos um problema (e que problema!) a mais a um que foi feito o possível para enfrentar. A pobreza que estamos construindo ainda nem começou a mostrar a sua face e temo que ainda vai custar mais vidas do que o próprio covid.

E, por fim, imputo à grande mídia brasileira, incluindo seus principais jornais, grande parte da responsabilidade pelo que aconteceu. Quem vã esperança eu tenho de um dia ela ser responsabilizados por esta desgraça!

5 Notas de Sexta: Green River, Rohmer, Vicente Ferreira da Silva, Parsifal

Olá pessoal!

Eis minha lista semanal de 5 coisas interessantes que andei fazendo (inspirado pelo Tim Ferris 5-bullets friday)

Um disco que estou escutando

Continuando minha jornada pela obra do Creedence Clearwater Rivival, esta semana tenho escutado Green River (1969). Outro baita disco, com grandes canções. Bad Moon Rising tem uma letra bem interessante, onde Fogerty faz uma metáfora de uma tempestade para se referir a crises que uma sociedade atravessa.

Uma série que estou escrevendo

Este assisti novamente os seis filmes de Eric Rohmer que foram a série Comédias e Provérbios. Resolvi escrever uma série de ensaios sobre estes filmes e estou trabalhando no terceiro, que trata de Pauline na Praia (1982). O fio condutor é a mulher européia dos anos 80, livre e empoderada, lidando com a insuficiência de sua forma de amar.

Um Ensaio que li.

Reflexões sobre o Ocultamento do ser, de Vicente Ferreira da Silva trata de como a a exclusão do transcendente faz nosso mundo menor e incompreensível. Amputamos da realidade a chave para compreendê-la, o que nos faz permanecer na ignorância.

Uma ópera que estou escutando

É bem curioso que a última ópera de Wagner tenha um tema profundamente cristão, o que implicou na revolta de Nietzsche, que nunca o perdoou por isso.

Uma letra de música

I hear hurricanes a blowing

I know the end is coming soon

I fear rivers overflowing

I hear the voice of rage and ruin

Bad Moon Rising

Tem horas que menos é mais

A pior coisa para uma boa causa é ter um falso símbolo.

Imagine que uma no meio de maçãs boas, apareça uma ruim. Mas uma ruim a ponto de parecer a mais bela de todas.

Todos a exaltarão. Que bela maçã! Ela representa tudo que nós gostaríamos. Queríamos que todas fossem como ela.

Até o momento que damos a mordida e percebemos que ela é podre por dentro. Nos enganamos! Olhamos para o cesto, com raiva, e jogamos todas fora.

A causa da maçã está perdida para sempre.

É tudo que gostaria de dizer no dia de hoje.

Bayou Country (1969)

Escutei muito este disco na semana que passou. Segundo album do Creedence Clearwater Revival, as sete faixas são excelente.

Impressionante como o californiano John Fogerty conseguiu captar o espírito do sul com Born on the Bayou e Proud Mary. A Louisiana sempre será um lugar meio místico para o norte-americano. Além de sua culinária característica, é o berço da música do país. Afinal, lá nasceu o jazz, o blues, o country e a combinação de tudo isso, o rock´n´roll.

Fogerty nos presenteia com um excelente blues em Graveyard, Train. A cozinha está afiadíssima, dando segurança para que as guitarras dor irmãos deslizem pelas faixas, sempre com as notas nos lugares certos. O disco tem ritmo, balanço e a virtuosidade de um líder que começava a se afirmar como a nova voz da música americana.

A minha favorita do disco é Bootleg. O ritmo hipnótico e o riff que vai serpenteando pela canção me conquistou. O rock renascia na América depois de uma década inglesa.

10 Erros Filosóficos

O livro Ten Philosophical Mistakes, do Mortimer Adler, estava na fila há alguns anos. Compreio-o nos Estados Unidos, pelo usados da Amazon. Nota mental: por que os livros usados são tão caros no e-comerce brasileiro? O que se tornou a Estante Virtual? Retomando.

É impressionante a capacidade do Adler em explicar as coisas. Não conheço um autor mais claro e didático do que ele. Resolvi ler um erro a cada sábado pela manhã, começando por hoje. Em 10 sábados, a leitura estará concluída. Ainda ganho uma semana para refletir sobre cada um dos erros.

O primeiro trata do problema da consciência, de como percebemos as coisas e formamos as idéias. O erro começa com Locke, ou talvez Descartes, que considerava que tudo que temos na mente são idéias e que são fruto de experiências subjetivas, ou seja, tudo é subjetivo. Já dá para perceber onde vai dar, né?

Para entender o erro e suas consequências, só lendo Adler. Eu seria incapaz de explicar melhor e mais claro do que ele. Você vai entender porque é impossível discutir com quem acha que a verdade é relativa, que cada um tem a sua verdade.

5 Notas de Sexta: Creedence, uma montanha, Schumacher e arte

Olá pessoal!

Eis minha lista semanal de 5 coisas interessantes que andei fazendo (inspirado pelo Tim Ferris 5-bullets friday)

Um disco que estou escutando

Em 1969, o Creedence Clearwater Revival lançou 3 discos, todos conseguindo platina. Foi uma explosão impressionante de criatividade de John Fogerty que compôs quase todo material dos albuns e o primeiro deles, e segundo da banda, foi Bayou Country. Além de Born on the Bayou, tem uma viciante Bootleg e o primeiro clássico com as digitais do guitarrista: Pround Mary. Como este californiano consegui captar a alma do rio Mississippi será sempre um mistério para mim.

Um filme que revi

Imagine morar numa pequena aldeia no País de Gales em 1917. Os jovens estão lutando na guerra, muitos já morreram. Os que ficaram trabalham para manter o esforço e se dividem em pequenas brigas próprios da tensão que envolve todos. Quando dois topógrafos ingleses chegam na aldeia e verificam que a montanha ao lado era na verdade uma colina pois não tinha 1.000 pés (tinha 980), a aldeia se une para um esforço em comum: aumentar a montanha em 20 pés. Irracional? Não para quem entende um pouco de espírito humano e da necessidade de ter um projeto em comum que dê sentido a uma existência em sociedade. O filme? The Englishman Who Went Up a Hill But Came Down a Mountain (1995)

Um quadro que estou admirando

Agnus Dei (1639), do pintor espanhol Francisco de Zurbarán. Uma lembrança eterna de até onde chega a maldade humana.

Um livro que estou lendo

Small is Beautiful, de E. F. Schumacher. Tem livro que você percebe na primeira página que te transformará. Este é um deles.

Um pensamento que estou refletindo

É uma falsa piedade conservar a paz em detrimento da verdade.

Pascal

O Brasileiro

Neste pandemia tem ficado evidente como o brasileiro é mal visto pelo… brasileiro! É a velha estória: o brasileiro sempre é o outro.

Eu discordo frontalmente. Acho que o Brasil vive à beira do desastre e só não descarrilhamos até hoje porque nosso povo é bom e tem um senso comum intuitivo extraordinário, que nunca foi estudado a fundo.

É por ser um povo bom que se deixa governar por tantos patifes. O dia que entender quem realmente é, coloca esse bando todo para correr. O esforço para mantê-lo na ignorância é cada vez maior, mas está ruindo. Haverá uma enorme revolução silenciosa por vir e quando acordarmos, será um novo Brasil.

Apesar de todos os abutres.