Fort Apache (1948)

Cel Thursday(Henry Fonda) é o irmão do filho pródigo. É um homem honesto e bom, mas que deixou o mal do orgulho se instalar em seu coração. Busca a glória e se deixa cegar para as circunstâncias reais da vida.

Seu contraste é o Capitão York (John Wayne), um homem prático, que procura se colocar no lugar dos apaches e entendê-los. Por isso consegue ver o que Thursday é incapaz: que os indígenas não são seus inimigos. Pelo contrário, são gente honrada que deseja a paz.

Baita filme.

A loucura de quem confia demais em si mesmo

Em tempo: Este filme diz muito sobre o atual movimento conservador brasileiro, que infelizmente está repleto de Cel Thursday.

Atualização:

Ocorreu-me que temos aqui as virtudes aristotélicas-platônicas. Os quatro sargentos se deixam levar pelos desejos. Já o Cel Thursday tem a virtude da temperança (controla seus desejos), mas se prende na vontade, sem abertura para a sabedoria. York é temperante, corajoso (no sentido de Aristóteles, de ter a vontade no lugar certo) e prudente (sabedoria), assim como o Sargento O´Rourke. Justamente por dominas os três aspectos da alma, York e O´Rourke são exemplos de justiça.

O jovem O´Rourke representa o homem comum, que diante dos exemplos tem que decidir que vida vai levar. O casamento dele como Philadelphia representa a escolha pela vida virtuosa, que é simbolicamente premiada pelo filho do casal. É também o símbolo a união da terra ( o jovem tenente) com o céu (a moça virtuosa).

Small is Beautiful: o problema do homem economicus

Alguns livros conseguem nos encantar a cada frase; Small is Beautiful é um desses. É um livro sobre economia, mas num sentido mais amplo do que nos acostumamos. Para Schumacher, a economia é parte de um tudo e não pode ser visto isoladamente, a partir de abstrações como acontece usualmente. Ele rejeita totalmente o homem economicus, assim como qualquer outra simplificação.

Somos um tudo, um ser complexo, que nos ligamos com a matéria, os outros, o mundo, Deus, realidades que são colocadas diante de nós de forma simultânea. Pensar o homem apenas sob o prisma quantitativo, em termos de custos e benefícios, é nos reduzir à humanidade.

Somos muito mais que um homem economicus, ponto de vista que é compartilhado por, entre outros, Guerreiro Ramos em A Nova Ciência das Organizações. Somos a sociedade que foi tomada pela lógica do mercado, algo único na história humana.

3 ensaios do fim de semana

Nos fins de semana costumo interromper um pouco as leituras regulares e focar mais em ensaios, geralmente de autores diferentes das diversas coletâneas que tenho na estante. Gosto particularmente deste gênero porque o autor está mais solto para refletir e especular, nos colocando muitas vezes opiniões provisórias e abertas, de uma forma mais fluída do que um livro tese.

Neste fim de semana que passou fui particularmente feliz com 3 ensaios sensacionais, que de certa forma comunicam um com os outros. São eles.

Dos Estudos Clássicos (Eric Voegelin): uma reflexão sobre a importância da recuperação da compreensão que os antigos gregos tinham da nossa humanidade. O retrato que Voegelin faz da modernidade é cirúrgico e via nos pontos chaves. Infelizmente o quadro que ele visualizou em 1973 só se agravou e fica fácil entender o momento de loucura coletiva que nos encontramos hoje.

In Pursuit of an ideal (Isaiah Berlin): o autor mostra a insuficiência da idéia utópica de promover uma sociedade perfeita a partir da convicção de que se tem o entendimento para seu problema e a solução que se deve implementar. A consequência que chega também é atual: para promover a sociedade perfeita, o que nos impede de remover os obstáculos, aquelas pessoas que se colocam no caminho de uma humanidade mais justa e em paz? Berlin acrescenta: cada vez mais se quebram os ovos e o omete não vem.

On T. S. Eliot Wasted Land (Russel Kirk): analisando o poema enigmático de Elit, Kirk procura lhe dar um sentido geral, entendendo que há linhas obscuras que nos deixam perplexos, mas que há uma clareza no poema como um tudo. Os grandes críticos literários são justamente aqueles que nos conseguem fazer ver a unidade de uma obra enquanto a maioria só consegue produzir textos gigantes que não conseguem chegar nem perto da essência do que o autor quis comunicar, o que só revela a falta de sensibilidade e poder de reflexão. Para Kirk, Wasted Land não é uma simples descrição do estado de espírito do poeta, mas uma reflexão sobre o problema da modernidade e suas raízes, colando uma luz nas causas de uma decadência civilizacional.

Covid: não foi desta fez

Depois de 3 dias isolado no quarto, finalmente fiz o exame do covid, aquele do cotonete. Deu negativo, vida que segue; não foi desta vez.

Digo isso porque é bem possível que boa parte de nós tenhamos o covid de uma forma ou de outra. Cada vez sou mais descrente da eficácia destas medidas de restrição. Acho que nossa melhor arma continua sendo água e sabão (e a invermectina, que tomamos todos aqui em casa).

Falam do positivismo dos militares, mas ninguém foi mais positivista nessa crise que governadores, prefeitos, médicos mandetianos, intelectuais, juízes e jornalistas ao colocar a ciência como valor absoluto, ignorando seus princípios e limites metodológicos.

Room office

Ficar preso em casa já é ruim, imagine preso no quarto?

Na segunda tive contato com alguém que foi positivado para covid. Significa que tenho que cumprir um protocolo agora de 14 dias de isolamento para não ter risco de contaminar ninguém, CASO eu tenha sido infectado.

Por segurança, somos 6 aqui em casa, fui isolado em um dos quartos. Como é suíte, não saio nem para ir no banheiro. Estou com zero sintomas e amanhã vou fazer exame (o ideal é entre o 5 e 7 dia). Fazer antes é besteira. Provavelmente vai dar negativo.

É uma experiência interessante se isolar dessa maneira. Minha esposa deixa a comida em uma mesinha colocada na porta. Ela toca o sino e se retira. Só então posso abrir e pegar a bandeja. Estou há 3 dias sem contato com ninguém.

Faz parte desta praga que nos atingiu. Ela vai embora.

Brasil: o jeitinho é realmente nosso grande problema?

O problema do Brasil é o jeitinho, a confusão do público com o privado, a tendência de entender a vida pública como extensão da família, etc. Assim nos dizem os grandes intérpretes da cultura brasileira (e muitos asnos palpiteiros também).

E se for o inverso? Explico. Queremos ser a Europa, impessoais no trabalho, verdadeiros autômatos, que cumprem regras fielmente, sem fazer distinção de pessoas ou seguir as próprias percepções. Não por acaso há tantas distopias com ambientes “hospitalares”, tudo muito arrumadinho, limpo e… desumano!

Temos mil problemas com nosso jeito de ser, mas será que somos um fracasso tão grande? Outro dia Dom Bertrand disse uma frase que ficou gravada na minha memória: um país que alimenta um terço da humanidade não pode ser considerado um fracasso. Eu acrescentaria, um país que se torna a sétima ou oitava economia do mundo com índices educacionais tão ridículos tem algo a ser estudado. Se tirássemos a violência, este sim um problema crônico, mesmo com todas as nossa mazelas, ainda seríamos um bom lugar para morar. Será que queremos ser realmente primeiro mundo? Queremos ser um europeu rico, sem filhos, sem Deus, com ajuda estatal para tudo e usar nossas férias para fazer turismo?

Luis Sérgio Coelho de Sampaio foi o primeiro a me despertar para este problema em seus vídeos sobre antropologia cultural no youtube (considero esta série de vídeos um dos maiores tesouros da rede). Guerreiro Ramos em A Nova Ciência das Organizações me dá outro insight, o da lógica de mercado invadindo toda a vida social. Não somos este tal de homem econômico, somos muito mais ricos que isso. E talvez o Brasil ainda tenha algo de preciosos que o tal primeiro mundo perdeu faz tempo.

Antes do sol nascer

Escutei em um podcast que acordar antes do sol nascer é uma boa prática. Nos torna despertos e mais produtivo ao longo do dia. É um momento para ler, pensar, se preparar para o que vem pela frente.

Resolvi experimentar. Estou no segundo dia.

Acordo pouco antes das seis. Faço um café sem açúcar e me coloco a ler; minha mesa fica em frente à janela. O primeiro dia foi ok, não senti sono e realmente fiquei bem animado. Repararam no trabalho.

Vamos ao segundo.

Small is Beautiful – Notas

Do livro de E. F. Schumacher, publicado em 1973

  1. A equação de produção infinita de bens de consumo com recurso finitos não vai fechar.
  2. Uma sociedade baseada em consumo crescente e sem limites tem um sério problema.
  3. A economia não pode ser o centro da organização social.
  4. Se todos os países do terceiro mundo se tornassem desenvolvidos, não haveria recursos naturais para sustentar
  5. Cidades são um problema quando passam de um certo número de habitantes (algo como 500 mil). Agregam mais problemas que benefícios.
  6. O principal recurso produtivo sempre será a educação.
  7. A educação não se confunde com a instrução técnica da modernidade. Ela se dirige à sabedoria.
  8. A paz não é resultado da prosperidade, mas de sociedades mais sábias.
  9. O trabalho tem um valor intrínseco e não deve ser eliminado da vida das pessoas.
  10. A idéia de ajuda para o terceiro mundo tem por base replicar os esquemas dos países desenvolvidos e ignoram a cultura local.
  11. A ajuda tem por foco as grandes cidades do terceiro mundo e pouco fazem para fixar o homem no interior.
  12. Mesmo nos países desenvolvidos, o foco nas grandes cidades gera um desequilíbrio perverso.
  13. É saudável que grande parte da sociedade esteja em atividades produtivos, inclusive no campo.
  14. Implementar tecnologias intermediárias é mais importante no terceiro mundo do que tecnologias de ponta.
  15. O pequeno é natural e bom. O grande é problemático.
  16. Proposta de acabar com propriedade privada para as grandes empresas e corporações (metade tem que ser pública).
  17. Incentivar os pequenos negócios.

5 Notas de Sexta: alienígenas, Guerreiro Ramos, Capra e rock medieval

Olá pessoal!

Eis minha lista semanal de 5 coisas interessantes que andei fazendo (inspirado pelo Tim Ferris 5-bullets friday)

Uma música que estou escutando

O disco Creedence da semana é o Willy and the Poorboys, outro baita trabalho de 1969. A segunda faixa “It Come Out The Sky” trata da chegada de um alienígena em uma pequena fazenda do interior e como cada seguimento da sociedade interpreta este fato segundo sua visão de mundo. É uma excelente metáfora para a forma ideológica de tratar a realidade. No youtube aqui.

Um filme que assisti

Fazia tempo que não via um filme do Frank Capra. Considerando o absurdo que a mídia está tratando estes tempos de pandemia, foi necessário retornar à sabedoria do senso comum e deixar os loucos de lado, ou seja, foi necessário retornar ao Galante Mr Deeds (1936). Que filme maravilhoso!

O senso comum

Um livro que estou estudando

Sim, porque já li antes e agora estou aprofundando. A Nova Ciência da Administração, do Guerreiro Ramos, é inspirado em A Nova Ciência da Política, do Eric Voegelin. Só isso já era suficiente para ler. Mas o que o Guerreiro Ramos faz vai além disso, ele segue o método proposto por Voegelin e vai nos símbolos que servem de base para análise da administração e propõe uma nova ciência com base na estrutura da realidade e não conceitos vazios, despidos de conteúdo concreto. Obra de gênio.

Um banda que descobri no youtube

Stary Olsa é uma banda de música medieval. Os vídeos que assisti no youtube tratam de versões medievais para clássicos do rock. Coisa fina e vale a visita!

Rock medieval?

Um pensamento

O homem moderno é o tolo enganado por uma fé mal colocada.

Guerreiro Ramos

2020, o ano que a máscara do terceiro poder caiu

Sempre se falou da corrupção nos poderes executivo e legislativo. Sempre símbolos da corrupção que assola a nossa sociedade.

Este ano, apesar de tudo de ruim que vem acontecendo, caiu a máscara do terceiro destes poderes, aquele que costumava ser visto como o fiel da balança.

O brasileiro está acordando para seu judiciário.

E não está gostando do que vê.

(Em tempo: o quarto poder está enfiando o pé na jaca e também vai terminar arrasado. Especialmente a Rede Covid de Televisão)