As Seis doenças do espírito contemporâneo: 4- Ahorecia

Quarta doença do espírito contemporâneo, segundo o filósofo romeno Constantin Noica.

Agora trata-se das doenças da lucidez. Nas três anteriores havia ausência do sentido do geral, do individual e das determinações apropriadas, agora há a recusa.

A primeira destas três últimas doenças é a Ahorecia, a recusa das determinações.

Noica apresenta os exemplos da peça Esperando Godot, da cultura indiana, dos hippies, dos ascetas, dos estóicos e do espírito científico moderno de ter na matemática uma pureza que tudo explica.

O doente de ahorecia não quer se dar determinação, ele quer se colocar fora do mundo, em alguma forma de indiferença. É o tipo de pessoa que entra em uma batalha está perdida e do lado perdedor. Na horetite havia a tristeza dos vencedores, aqui há a alegria dos derrotados.

Trata-se de uma tendência de superioridade lúcida de se apartar do mundo.

A Torre de Babel e a aliança com Noé

Com Noé, Javé fez uma aliança. Sua família geraria uma nova humanidade, que se dividiria em línguas, clãs e nações. Deus nos diz que é melhor para a humanidade viver em nações independentes do que se unir em uma única língua e nação, como cantou um dos mais ricos filósofos da modernidade, John Lennon.

Para não deixar dúvidas, Deus destrói uma tentativa de unificação dos povos, simbolizada pela Torre de Babel, que não escondia seu propósito, chegar ao céu, ou seja, tomar o poder de Deus. Era uma afronta explícita. Por que Deus se irou com a construção da Torre? (Imagine all the peooopleee…)

Especulo que o sonho de uma única nação seja um perigo para todos nós. O que acontecerá quando este poder for capturado por um tirano? Quem nos protegerá? A história tem vários exemplos de Impérios que se formaram sob o símbolo da justiça e degeneram em monstruosas tiranias. Outros implodiram antes disso, mas nenhum durou eternamente e, nem trouxe a paz que prometia.

Entretanto, o sonho de uma nova Torre de Babel continua a frequentar as mentes ambiciosas. Pior, conseguem, na modernidade, seduzir uma multidão de tolos, que vêem em sua construção a solução do problema do mundo, geralmente reduzido a uma fórmula simples.

Deus não permitiu esta torre na antiguidade, nem ao longo da história, e muito menos permitirá agora. Mas sempre haverá os que insistirão.

Mitos são mentiras?

Quando comecei e me interessar por filosofia, uma das primeiras coisas que li foi que a filosofia era a superação do mito. Até o surgimento de Sócrates, o mundo estava tomado por mitos sobre os deuses do Olimpo e suas aventuras, uma evidente mentira típica de um povo crédulo. Um dia vou escrever um livro sobre todas as mentiras que escrevem sobre a filosofia, particularmente para iniciantes.

Essa concepção é fruto de uma visão progressista da história. Tudo que é mais antigo, é inferior. Esquecem que a condição humana é permanente e os antigos viram primeiro a nossa realidade, expressando-a da forma como puderam, ou seja, criando lendas que formaram os mitos.

Só que mito não é um simples produto da imaginação de um poeta imemorial, como Homero. Eles expressam verdades profundas, em uma estrutura compacta, mas nem por isso menos real. É preciso “descascá-los”, ou na linguagem de Eric Voegelin, diferenciá-los. Ao longo da história, os mitos vão se tornando mais claros e não, como se imagina, substituídos por teorias criadas por mentes privilegiadas de intelectuais. Até porque, deveria ser fundamental entender a experiência que gerou o mito, um dos aspectos que os filósofos modernos menos se ocupam.

A título de provocação deixo uma singela constatação: Édipo não tinha complexo de Édipo. (E muito menos Electra tinha complexo de Electra)!

Conto da Semana: Os Três Staretzi (Tostói)

Também conhecido como os três eremitas, o conto tem uma atmosfera de mistério que apenas os grandes escritores conseguem criar, que vai crescendo em tensão no final até seus surpreendente final.

Trata-se da estória de uma arcebispo que encontra-se em uma viagem de navio. Ele fica sabendo que numa ilhota próxima existem três eremitas que vivem isolados, buscando apenas a salvação de suas almas. Curioso, ele pede que o levem até lá, para conhecê-los.

Tostói constrói o conto cuidadosamente para ilustrar sua teoria religiosa de ligação direta do homem com Deus, sem uma instituição no meio do caminho. É seu cristianismo pessoal, que não tem espaço para nenhuma autoridade religiosa.

O Dilema das Redes – Notas

Nós somos o produto. Ou não?

O primeiro passo para fazer um juízo de valor sobre uma teoria, ou denúncia, é entender o que está sendo dito. Ontem assisti o documentário O Dilema das Redes (The Social Dilemma, 2020) e baixo tento resumir, em forma de notas, o que nos foi apresentado:

  1. Nós não pagamos pelo uso das redes sociais (e do google), o que significa que não somos os consumidores. Afinal, o que está sendo vendido? Qual o produto?
  2. O produto não somos nós, os usuários, e nem os nossos dados como se fala. O verdadeiro produto é nossa atenção. Além disso, nossa previsibilidade.
  3. A inteligência artificial é cada vez mais eficiente para:
    1. captar nossa atenção;
    2. expandir a rede através da nossa atuação; e
    3. apresentar o produto mais provável de adquirirmos e no momento mais propício.
  4. Com o tempo, percebeu-se que também é possível induzir nosso comportamento pelo conteúdo que nos é apresentado. Tudo isso através de algoritmos.
  5. Os criadores originais não tinham estas intenções, trata-se de efeitos adversos que não foram pensados. A própria eficiência dos algoritmos proporcionou possibilidades não planejadas mas extremamente lucrativas.
  6. As grandes plataformas (facebook, instagram, pinterest, twitter, youtube, google) monopolizaram o mercado e passaram a ter um poder de influência sem precedentes na história.
  7. Estas plataformas não são responsabilizadas por suas práticas e conteúdo exibido, nem pelas consequências de sua atuação.
  8. Os algoritmos geram polarização ao seguimentar as informações que recebemos, gerando radicalização ao facilitar a reunião de pessoas que pensam da mesma forma (efeito manada).
  9. O radicalismo político se traduziu nos últimos anos com a eleição de líderes populistas, que colocam em risco a democracia.
  10. A tecnologia está potencializando o que a humanidade tem de pior ao invés de nossas virtudes.
  11. As redes sociais são viciantes, gerando como consequência fenômenos de isolamento, depressão e suicídios.
  12. Soluções apontadas:
    1. responsabilização das plataformas;
    2. regulamentação das tecnologias digitais; e
    3. taxação pelo acúmulo de dados.
  13. Dicas para as pessoas comuns:
    1. desligar as notificações;
    2. desinstalar redes sociais do celular;
    3. seguir pessoas que não concorda nas redes (especialmente twitter);
    4. usar plataformas de busca que não criam histórico de navegação;
    5. sair das redes sociais.

Acho que é isso? Esqueci alguma coisa?

Secura e calor

São os últimos dias da secura de Brasília. Está insuportável. Pelo que vi no clima tempo, segunda deve começar a chover. Sempre é um espetáculo ver a vegetação amarela tornar-se verde novamente; o ciclo da natureza é sempre algo a ser apreciado.

Por outro lado, o calor começa a apertar. Ainda está longe de ser intenso, mas já consigo senti-lo. Não lembro de tê-lo notado tão cedo no ano, ainda em setembro. A natureza é assim, tem seus ciclos e suas variações.

Só sei que no momento estamos vivendo o auge da secura com um pouco de calor. A vinda das chuvas deve refrescar um pouco e trazer a natureza de volta a seu esplendor.

É uma pena que tantos filósofos, como Nietzsche, tenham reparado bem esses aspectos cíclicos da natureza, mas tenham errado tão gravemente na generalização a ponto de achar que nossa existência também tem esse aspecto cíclico. Somos mais que matéria, somos espírito, e o espírito está sempre em busca. Pois essa busca é que dá sentido para nossa existência e nos faz transcender esta vida de ciclos.

Notas de Sexta

Olá pessoal!

Eis minha lista semanal de 5 coisas interessantes que andei fazendo (inspirado pelo Tim Ferris 5-bullets friday)

1. Uma música que escutei sem parar

Stone Dead Forever, do Motorhead. Eu já a conhecia, mas nunca tinha realmente prestado atenção. Riff perfeito, a parede sonora que Lemmy tanto falava, letra inspirada, ou seja, baita canção!

2. Um ensaio que li

Quem me conhece sabe que sou profundo admirador de Eric Voegelin, uma das duas maiores mentes do século XX. Pois o ensaio Evangelho e Cultura é uma das melhores coisas que li do Voegelin. Difícil um elogio maior que esse.

3. Uma aula que escutei (podcast)

José Monir Nasser explicando Teogonia, do Hesíodo. Preciso dizer mais?

4. Um documentário que não vi:

Nem sei o nome ainda, mas é aquele do netflix que fala das redes sociais e seu males. A semana foi pesado no trampo e não deu para assistir. Do fim de semana não passa.

5. Uma frase que ando refletindo

Na verdade, este homem era Filho de Deus.

Matheus (27,54)

Seis Doenças do Espírito Contemporâneo: 3- Horetite

Projeto 6 doenças do espírito contemporâneo, by Constantin Noica.

A terceira doença é a Horetite, que se caracteriza pela ausência de determinações. Confesso uma certa dificuldade em entendê-la plenamente.

O homem que sofre desta doença tem o sentido geral e o sentido individual, mas falta-lhe a capacidade de realizar suas determinações, ou seja, de alinhar através de suas ações os dois sentidos citados.

Por isso Noica diz que é uma doença da vontade, enquanto que ausência de um sentido geral é uma doença dos sentimentos e a ausência do sentido individual é uma doença da inteligência, fazendo uma ligação com as 3 dimensões da alma em Platão.

O grande exemplo aqui é Dom Quixote, mas Noica cita também o Zaratrusta de Nietszche, Luis XIV, Pigmaleão, os espartanos e os vikings.

Conto da Semana: The Enduring Chill (Flannery O’Connor)

Asbury retorna de Nova Iorque para a fazenda da mãe, no sul americano, para morrer. Aos 25 anos, está com uma doença incurável, coisa que a mãe se recusa a acreditar e insiste em chamar o Dr Block, típico médico de interior. “Minha doença está acima da capacidade dele”, diz o moribundo.

Ele é um escritor fracassado que vê na morte trágica sua forma de ter o fim de um poeta. Já que não tem o conteúdo, o talento, fia-se na forma, emular a vida de um poeta, o que já demonstra que sua doença está realmente acima da capacidade do doutor, é espiritual.

Tanto o Dr Block quanto o estranho padre jesuíta que o jovem chama para irritar sua mãe e ter uma conversa intelectual, são formas como a graça aparece para Asbury. O padre ao invés de jogar o jogo proposto pelo rapaz lhe diz poderosas verdades: ele tem que pedir pela graça para recebê-la. No fundo, está dizendo que ele precisa se abrir para a realidade espiritual.

No fim, ma surpresa que coloca Asbury diante de sua própria finitude e tendo que escolher como viverá o resto de sua vida.

Mais uma profunda reflexão de Flannery sobre a graça e a forma como ela nos toca, e como a recusamos em função das coisas do mundo.

Princípios e ideais

Quando pensamos em ideais, olhamos para o futuro, em algo que entendemos como desejável, um objetivo que gostaríamos de ver concretizados.

Na política está muito associado ao pensamento de esquerda: “sociedade sem classes”, “igualdade absoluta”, “justiça social”, “novo homem e novo mundo”. Podemos dizer que a esquerda é uma busca por realizar ideais.

Uma grande exemplo é a letra de Imagine, do John Lennon. É praticamente uma lista de ideais.

Já quando falamos em princípios, não pensamos em futuro. Não é algo a ser alcançado. É antes um ponto de partida, uma base para entender uma situação e ter um guia para a atitude a tomar. Um princípio não é um dogma, ele não deve ser aplicado a todas as situações, mas deve ser ponderado para o caso concreto. É como se disséssemos em princípio seria A, mas nesta situação, fica melhor B.

Daí fica a diferença entre um pensamento realmente conservador, no sentido da tradição inglesa de Burke. Para um conservador, não existe uma solução universal para os problemas do homem, mas princípios para entendermos a sociedade e guiar nossas ações.

Por exemplo, em princípio, um conservador tem a prudência como principal virtude do estadista. Sempre? Não. Dependendo da situação terá que se guiar pelos sentimentos, pela vontade, pela intuição. É a situação concreta que vai dizer.

Um conservador que coloca ideais acima dos princípios está apenas emulando a forma de pensar da esquerda, muitas vezes apenas mudando o sinal.

Manter tudo como está não é um pensamento aceitável para um conservador, e sim para um reacionário. O conservador deve ponderar, e mudar com a convicção que é a melhor solução, depois de ter analisado as opções. É necessário tanto as mudanças quanto a permanência. O segredo é dosar tudo isso.

Eu não gosto de rótulos, como usei aqui de esquerda e direita. A coisa é muito mais complexa que isso. Talvez a grande divisão seja entre aqueles que colocam os ideais acima dos princípios e aqueles que colocam os princípios acima dos ideais.

Eu, de minha parte, me alinho mais com o segundo comportamento, até porque é comum formular ideais que ignoram a condição humana, tratando o homem como uma espécie de massa que pode ser moldada, um tipo de pensamento que conduz, muitas vezes, ao fenômeno da desumanização, tão comum no século XX nos regimes totalitários.