Eleição na Câmara: novos ares

Estão dizendo que a velha política voltou, se é que ela foi embora um dia, com a eleição do tal Arthur Lira para a presidência da casa.

Em política, dificilmente eu comemoro vitórias. Sou daqueles que comemora derrota dos outros.

E, convenhamos, a Câmara precisava dar uma arejada. Pode ser que logo mais, precise novamente, é do jogo.

Mas estava demais.

Pena que tem um poder que estaremos presos por décadas…

Papa Francisco: A Alegria do Evangelho

Vejo muitas críticas ao Papa Francisco, especialmente entre católicos, que o enxergam como um agente do comunismo ou do globalismo. Chamou-me atenção a virulência dos ataques nas redes sociais quando o aborto foi aprovado na Argentino, reclamando de uma suposta omissão do Papa. Confesso que dedico-me muito ao pensamento do papa anterior e pouco prestei atenção ao atual vigário de Cristo.

Há algumas semanas assisti um vídeo do Bispo Barron e em determinado momento ele diz que a chave para entender o papado atual é a exortação apostólica que Francisco escreveu em 2013, que seria quase um plano para o que pretendia fazer. Chamada A Alegria do Evangelho, ela tem cerca de 200 páginas e pela primeira vez tive uma compreensão maior do argentino.

Não, ele não é comunista e nem globalista, embora alguns trechos, se distorcidos, como a mídia costuma fazer, pode dar esta impressão. Aliás, lembro que distorcem até Jesus para este propósito como as bobagens que ele foi um imigrante, um líder revolucionário, o primeiro marxista, e outras que já ouvi por aí. Francisco tem uma preocupação muito clara, tirar o catolicismo da arena privada que foi colocado pelo secularismo. Não, diz ele, ser católico não é uma questão exclusiva de foro íntimo para ser vivida dentro de casa. Ela se expressa em nossa vida social e deve se expressar com alegria. O católico tem o dever de passar adiante todo bem que recebe, inclusive, e principalmente, a boa nova.

Francisco analisa a conjuntura atual, os imensos desafios, e a necessidade de levar a mensagem adequada para os tempos que vivemos, em que a cultura do liberalismo-progressismo é dominante, particularmente no ocidente. Resgatando um conceito de São Tomás, ele separa substância da evangelização, as verdades eternas da fé, da forma como ela é disseminada, que deve ser adpatada para o contexto local, seja ele qual for.

Para o Papa, temos um duplo dever: evangelização e caridade. As duas coisas precisam andar juntas. Não se trata de um serviço exclusivo para padres, mas para todos os membros da Igreja. É um chamamento. O católico tem que defender sua fé com alegria e colocá-la a serviço da sua comunidade.

O texto é riquíssimo, com muitos insights interessantíssimos sobre a cultura da modernidade. A Igreja, se confia no Cristo, não pode ser taciturna. Precisa lembrar que a sua história surge da vitória de nosso senhor sobre a morte, sob o símbolo da ressurreição.

Tenho a impressão que Francisco e Chesterton um dia travarão interessantes conversas sobre a alegria do evangelho.

Paulo, Apóstolo de Cristo

Ainda não tinha assistido este filme de 2018, que conta não a história de Paulo, mas foca em seus ensinamentos em um momento muito particular, a perseguição aos cristãos após o incêndio de Roma provocado por Nero.

A grande questão continua bem atual: como suportar a perseguição do mundo sem reagir? Como pregar o amor diante do ódio. O próprio Lucas parece indeciso em alguns momentos. Paulo é forte como uma rocha. Fora do amor não há salvação. Cristo prometeu que haveriam tempos difíceis e Ele suportou a maior das dores. Como seria diferente para seus seguidores?

O que o filme faz, com maestria, é reunir a teologia de Paulo com a situação existencial do povo de Deus em sua época. É a prova do valor de qualquer teoria. A resposta, como fica claro para o Prefeito romano, é aquela que Poncio Pilatos rejeitou, a verdade.

Paulo se mantém firme que a verdade tem uma força que nenhuma crença pode superar. Nem a dos deuses de Roma, nem da Grécia, e muito menos os ídolos de nossa época, pois a verdade é uma das expressões do amor.

Um baita filme.

Eric Rohmer: O amigo da minha amiga

Terminei de rever o último filme da série do Eric Rohmer Comédias e Provérbios. Desta vez, tentei buscar se havia uma temática que comunicasse os 6 filmes e creio que encontrei.

Trata-se de uma longa reflexão sobre a modernidade e uma das suas grandes características, a busca da liberdade absoluta, que se traduz em uma espécie de direito de fazer tudo que desejar.

6 mulheres diferentes, em 6 diferentes filmes, buscam este ideal e o resultado é sempre o mesmo: uma sensação de insuficiência que se traduz em sofrimento.

No entanto, os filmes vão num crescente em busca de uma solução para o dilema colocado por esta modernidade em que nós fazemos nosso próprios destino até chegar em O Amigo de minha Amiga (1987), com a adorável Blanche. Uma comédia inspirada no teatro shakespereano.

Vou escrever um ensaio sobre este filme. Enquanto isso, seguem um ensaio sobre a série.

Comédias e Provérbios

Léa e Blanche

Mandalorian: O que há de errado com o cinema?

Quando vemos uma série como O Mandaloriano uma dos resultados, para qualquer pessoa de bom senso, é de espanto. O que fizeram com o cinema?

Ainda estou no meio da primeira temporada, mas o que vejo é uma estória bem contada, que cativa, e equilibra momentos de ação, suspense e reflexão. Coisas que o cinema sempre nos trouxe, até agora.

A loucura das elites também se manifesta em Hollywood, mudando a maneira de fazer filmes. Saem a boa estória para entrar o desejo de marcar posição. O que são as tais sequels de Guerra nas Estrelas que não uma estória sem pé nem cabeça para fazer proselitismo da agenda progressista de nossos tempos?

O maior mérito de Mandalorian é nos fazer entender que não dá para salvar praticamente nada das sequels. Uma gigantesca porcaria a ser esquecida.

Orestes Brownson e a sociedade justa

No último domingo li um ensaio interessante do Russell Kirk sobre um certo Orestes Brownson, um filósofo político americano, coisa rara, que viveu no século XIX, convivendo com toda questão da guerra civil. Ele não admirava Lincoln, mas deplorava inda mais os democratas sulistas e a escravidão.

Seu pensamento pareceu-me bem atual para a época em que vivemos. Seus principais adversários intelectuais foram os democratas-socialistas e os utilitaristas, que poderíamos chamar hoje de libertários.

Os primeiros querem promover a igualdade radical, que na verdade era uma forma de submeter os homens aos caprichos de alguns. Os segundos querem promover a prosperidade através da competição egoísta entre pessoas e empresas. Nenhum deles promoverá o principal, uma sociedade justa.

Segundo Brownson apenas com a base em uma ordem permanente e transcendente uma sociedade pode realmente ser justa. Os Estados Unidos foram criados como uma nação sob Deus, e esta era sua principal virtude, mas que era atacada especialmente por socialistas e utilitaristas.

Ele refutava a idéia de que o governo era um mal necessário. Ao contrário, o governo é um instrumento formidável para promover a prosperidade de uma nação, um verdadeiro presente de Deus, que só perdia para a religião. Toda nação tem uma missão especial e a da América era promover a conciliação de liberdade com a lei. Esta seria a grande régua para medir o seu avanço.

Vendo para a América de hoje, não deixo de perguntar, estará conseguindo?

O que nos faz chegar a uma determinada opinião?

Gostamos de pensar que chegamos a uma determinada opinião por força de nossa razão, por ter chegado a uma determinada conclusão depois de ter ponderado os argumentos a favor e contra. Será?

Há diversos fatores que contribuem para nossa assentimento. A cultura que estamos inseridos, a opinião de nossos amigos ou pessoas por quem temos admiração, ganhar admiração dos colegas, o conforto de reforçar opiniões anteriores, covardia de não enfrentar verdades incômodas.

Fico imaginando quanto de nossas crenças são frutos de nossa ponderação racional.

Se fossemos honestos com nós mesmos, chegaríamos a conclusões surpreendentes.

Cristianismo, a moral dos mais fracos?

Nietzsche dizia que o cristianismo era uma moral apropriado aos mas fracos, especialmente mulheres e escravos. Em sua visão, o homem tinha que se libertar dos valores cristãos e tradicionais, para ser dono de seu próprio destino, transformando-se no super-homem.

Passados 150 anos, o homem, especialmente no ocidente, nunca esteve tão afastado destes valores. O cristianismo virou uma crença particular de alguns e não mais a grande cultura que nos abarca.

E o resultado?

O homem de hoje, além do bem e do mal, como ele queria, se tornou mais forte?

O cristão dos primeiros séculos eram capazes de enfrentar leões em um picadeiro para não negarem a divindade de Cristo. Isso era ser covarde?

Em Lepanto, cristãos enfrentaram uma armada islâmica 3 vezes superior, com pouca chance de sobrevivência, rezando o terço antes da batalha.

E o homem de hoje?

Tornou-se mais corajoso ao se libertar de qualquer valor?

A guitarra de Rory Gallagher

A Fender Stratorcaster que Rory usou a carreira inteira foi adquirida por ele em 1961, muitos anos antes de gravar seu primeiro disco, com o Taste. O fato de tê-la usado até sua morte, em 1995, mostra que tinha por ela um respeito profundamente religioso.

Mostra também que era, antes de tudo, um artista. A música nunca foi para ele uma realização comercial, mas parte fundamental de sua própria existência.

Sempre haverão os objetos sagrados, mesmo onde não esperamos. Há toda uma realidade que o espírito hodierno quer ignorar, mas nunca conseguirá de fato.

PS: pequeno ensaio sobre Rory Gallagher no forno!