Para começar a semana

Frank Sinatra é muito conhecido no Brasil mas pouco escutado. Cai naquela famosa categoria “música de velho”, uma besteira, obviamente.

Uma dica para escutar durante a semana é esta coletânea com a orquestra do genial, para dizer o mínimo, Count Basie.

Em uma palavra: refinamento.

Os 8 falsos deuses

No início do Volume II da Suma Teológica, São Tomás de Aquino discute o que seria a felicidade, ou seja, o sumo bem do homem. Ele apresenta, na ordem, do mais tolo para o mais razoável, do mais externo para o mais interno, 8 candidatos a serem o sumo bem, ou seja, 8 tipos de falsos deuses já que no fim, conclui que o sumo bem só pode ser Deus.

São eles:

  1. Riquezas (o mais popular dos candidatos e mais externo também).
  2. Honra
  3. Fama ou glória
  4. Poder
  5. bens do corpo (saúde)
  6. Prazer
  7. Bens da alma
  8. Algum bem criado

Fica fácil ver que os 4 primeiros são externos ao homem e são justamente os que são mais cultuados em uma sociedade materialista, juntos com o 5 e 6 que referem-se ao corpo.

O erro do 7 e 8 já é mais por não entender a ordem certa das coisas. Por exemplo: ser amado é realmente um bem, mas ser amado por Deus é muito mais. Amar o próprio filho também é um bem, mas amar a Deus é maior. A alma não pode ser a razão última do homem pois ela existe para repousar no Senhor (Agostinho).

Fica, portando, um convite a todos nós. Até que ponto estamos adorando um ou mais destes falsos deuses?

Bom domingo a todos!

Os bens do corpo (saúde) não são o sumo bem do homem

Na questão 2 do Volume II da Suma Teológica, São Tomás discute o sumo bem, meditando sobre a felicidade do homem. O que nos faz realmente felizes? Qual é o bem final que todo homem almeja. Cabe uma observação: ele, como os antigos, não mistura alegria com felicidade. Felicidade é o bem último do homem, aquele definitivo, que o homem não deseja por outra coisa, mas pelo bem em si.

Pois nesta questão (na suma uma questão é mais ou menos um artigo ou ensaio no sentido moderno) ele explora possíveis candidatos para serem o sumo bem, ou seja, a felicidade do homem. O quinto que ele cita tem muito a ver com os dias de hoje, os bens do corpo, ou seja, a saúde.

Saúde é felicidade? O que importa é ter saúde e nada mais?

Parece que sim. A existência é o maior bem do homem e só a saúde garante que continuemos a existir. Continuar a existir é que todo homem mais deseja.

São Tomás discorda e nos lembra que não somos simples animais, somos algo além. Somos guiados por nossa razão e vontade, não somos máquinas. Acima de tudo, nosso corpo existe para a alma e não o contrário (como imaginava Hobbes, entre outros). Significa, e isto é muito importante, que a alma pode existir sem o corpo e não o contrário.

Somente uma mentalidade tomada pelo materialismo, que considera o homem como um animal como todos os outros, pode conceber que a saúde seja o fim último do homem, a razão de sua felicidade. E pelo que temos visto, esta concepção está entranhada nas pessoas a ponto de olharmos para tudo que está acontecendo e entrarmos em histeria pois temos nosso suposto maior bem ameaçado.

Uma aniversário que comemoro profundamente

Hoje um dos meus heróis intelectuais comemora seu aniversário. Trata-se de um caso raríssimo pois a maioria das minhas referências já não mais vive entre nós. Se pensar bem, só ele e Jesus estão vivos.

Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, é um dos autores que mais impactaram minha vida. É um dos responsáveis por minha reconciliação com a Igreja de Roma e um dos meus guias espirituais. Minha admiração por ele só cresce a cada linha que leio (e releio). Ninguém me ensinou a ler a Bíblia como ele.

Com ele me tornei uma pessoa melhor em muitos sentidos, não dá nem para começar a descrever o gigantesco impacto que ele teve na minha vida.

Sempre digo que ele é um dos dois grandes do século XX. O outro é Eric Voegelin. Teologia e filosofia nunca mais foram a mesma coisa para mim depois de ler os livros absurdamente maravilhosos de Ratzinger. É difícil não estar lendo (ou relendo) um livro dele. Faz parte de meus rituais de vida. A trilogia sobre Jesus, por exemplo, leio todo ano, desde 2016. Todo ano. Sem exceção.

Quando me deparo com um texto dele pela primeira vez, seja um livro, uma homilia, uma carta, fico profundamente admirado. Ele realmente me toca no fundo da alma.

Agradeço a Deus por tamanho presente. Um dia os católicos terão a consciência da grandeza de sua alma e pensamento.

Fugir para onde?

Há tempos tenho este pensamento, mas se tornou mais intenso na pandemia.

Estou cada vez mais me sentindo sem lugar na sociedade. Uma opressão que chega a ser sufocantes algumas vezes. A violação da realidade causa nas pessoas comuns uma angústia que não consigo descrever. O sentimento do absurdo é cada vez mais intenso.

A questão que me ocorre é que parece que está assim no mundo inteiro. Eu poderia até sair do país e largar isso tudo. Mas fugir para onde? Parece que a loucura é geral. A doença espiritual do homem moderno é a grande pandemia nos dois últimos séculos, como previu Nietzsche.

As vezes me pergunto se não são realmente os sinais dos tempos.

Machine Head(Deep Purple): um disco perfeito

Eu nem acho que seja o melhor disco do Deep Purple, mas é o mais perfeito. Contradição? Explico.

Um disco perfeito é aquele que não tem falhas. Além da sonoridade, é preciso que todas as canções sejam excelentes e que de uma certa forma, “se encaixem”.

É o que acho do Machine Head. Nem vou perder tempo falando dos clássicos. Smoke in the Water, Highway Star, Lazy, Space Truckin´ dispensam apresentações. É nas outras canções, as menos badaladas, que conferem ao disco a sua perfeição.

Maybe I´m a Leo, Pictures of Home e Never Before são maravilhosas. Em qualquer outro disco seriam destaques. Deram o “azar” de vir junto com obras primas da banda. Ficam um pouco ofuscadas, mas não para um legítimo fã da banda.

Ultimamente tenho escutado bastante Never Before, uma pérola que nunca dei devida atenção. Um grito de socorro de quem sofreu uma desilusão amorosa.

O Brasil de 2021: crise sacrificial

No capítulo 3 de a violência e o sagrado, Rene Girard utiliza a peça Édipo Rei para explorar a hipótese da crise sacrificial, onde a violência de todos contra todos parece que vai explodir a qualquer momento.

Surge então um mecanismo, onde as pessoas vão ficando cada vez mais parecidas entre si e passam a canalizar seu ódio para uma única pessoa, que reúne as condições ideais para que possa receber toda culpa. Ela será apontada como a grande responsável e sua eliminação será a condição para estabelecer a paz novamente. É o que Girard chamou de vítima propiciatória. Ela é propícia para canalizar toda a violência.

O antagonismo de cada qual contra cada qual é substituído pela união de todos contra um. (…) Os homens querem convencer-se de que seus males dependem de um responsável único do qual será fácil se desembaraçar.

Não falta no capítulo inclusive uma menção à peste que assola Tebas, uma das formas que a violência de todos contra todos se manifesta.

O Brasil está vivendo um alinhamento onde forças vistas como antagonistas (sorry, não resisti) passam a não somente se alinhar, mas a se tornarem indiferenciadas (onde termina o MBL e começa o PSOL, ninguém mais sabe). No movimento é preciso que todos tenham claro que o responsável é um só, que deve ser violentamente afastado.

O que segura este mecanismo é que para funcionar a sociedade deve realmente acreditar na culpa da vítima. As castas já estão convencidas, mas falta aquele detalhe: o povo.

Mas os abutres não precisam ficar tristes. Parece que estão, aos poucos, conseguindo o convencimento que precisam.

Suma Teológica: um esquema bem precário por zap

Outro dia, em uma discussão por grupo de whatsapp, tentei fazer um esquema rápido de como seria a estrutura da suba teológica. O resultado é o que se segue (sem edição).

Estrutura Básica da Suma Teológica.

É divida em questões, que seriam algo como um artigo moderno.

Cada questão é dividida em artigos, que são na verdade perguntas que dividem a questão. O artigo é a unidade básica da suma teológica. Podem ser lidos independentemente.

Bem, o artigo tem sempre 5 partes. São elas.

  1. Uma pergunta. Só admite resposta sim ou não. Isso é feito assim para que não tenha inúmeras respostas possíveis e impeça um pensamento dialético.
  2. Uma resposta aparente. É a tese que São Tomás quer refutar. Por isso tem a fórmula “parece que (sim ou não)”. Ele está admitindo que esta tese é aparentemente convincente.
  3. Argumentos em contrário: Ele apresenta, numerada, os argumentos (não são opiniões) que defendem a tese que ele quer refutar.
  4. Posição de São Tomás. Ele geralmente começa com um argumento de autoridade, geralmente citando a Bíblia. Só que ele sabe que o argumento de autoridade é o mais fraco. Ele faz uma explicação detalhada porque aquele argumento de autoridade estaria certo. Dividindo e explicando toda a questão. É o ponto onde ele usa a argumentação racional para explicar porque aquele argumento está correto.
  5. Lembram que os argumentos em contrário foram numerados? pois agora, depois de dar sua posição, ele refuta cada argumento um a um, explicando onde estaria o erro e porque não é assim.

Se usássemos o método dele, seria algo mais ou menos assim.

Questão: sobre o enfrentamento da pandemia.

Artigo 1: O lockdown funciona?

Parece que sim.

  1. Com menos pessoas na rua, há menos possibilidade… etc etc
  2. Com o comércio fechado tem menos circulação…
  3. Sem o funcionamento dos meios de transporte…

No entanto, a publicação X afirma que não há relação entre lockdown e transmissão do virus.

São tomás aqui faria todo o detalhamento da frase anterior. Usando a argumentação racional para explicar porque o lockdown não funciona.

Refutação dos argumentos em contrário:

  1. Apesar de haver menos pessoas nas ruas, não é possível isolar toda uma unidade familiar, e uma única pessoa que tenha contato com virus transmitirá com mais facilidade para toda sua família e ….
  2. Mesmo com o comércio fechado…
  3. Com menos transporte disponível há uma maior aglomeração….