Um alerta de Hugo São Vítor

E dizem que a Idade Média era a idade das trevas! Que a ciência moderna salvou o mundo da obscuridade! O capítulo 13, do livro III, de Didascalicon do Hugo de São Vítor é para emoldurar em qualquer faculdade que se prezes. Eis um trecho:

Muitas pessoas se decepcionam, pois desejam parecer sábias antes do tempo. E assim explodem pelo inchaço da arrogância. Começam a simular algo que de fato não são, envergonhar-se do que são e, quanto mais longe ficam da sabedoria, menos se preocupam em ser sábios, preferindo [antes] parecer sábios!
Conheci muitas pessoas deste tipo, isto é, que mesmo não dominando os conhecimentos elementares de uma ciência vangloriam-se, apenas por se interessarem pelos conhecimentos sumos. Ora, pensam ter se tornado grandes homens simplesmente pela leitura ou pela oitiva de palavras ou de escritos dos mais importantes filósofos. E, então, elas nos dizem: “Nós os vimos. Conhecemos a lição destes homens. Eles frequentemente nos proferiam aulas. Os sumos, os famosos: sim, nós os conhecemos!”
Todavia, coisa diversa prezo para mim, porque prefiro conhecer todas as coisas e, ao mesmo tempo, não ser por ninguém conhecido, do que o inverso, a saber, conhecer nada de nada, mas ser conhecido por todos!

Eis um verdadeiro pedagogo!

O poder do medo

Existem três tipos de ações humanas, ensinava São Tomás na Suma Teológica: naturais, voluntárias e violentas. Na Questão 6 do Volume II (Parte 1), ele explica porque as violência não consegue violentar a vontade interna do homem, algo que deveria ser óbvio. O homem quando age por ação da violência, age contra sua vontade.

O mesmo não acontece com o medo. Quando nos deixamos levar por ele, há uma mistura de impulsos voluntários e involuntários, com predomínio do primeiro. É uma vontade condicionada, pois visamos afastar o mal temido. Diz Tomás:

O praticado por violência é absolutamente contra o movimento da vontade, que nisso não consente; ao passo que o praticado por medo se torna voluntário porque tal movimento o visa não em si mesmo, mas por outra causa, i. é, para afastar o mal temido. (…) Por onde, como é claro, no feito por violência a vontade interior não age; mas age, no feito por medo.

Explica muito o que está acontecendo hoje em quase todo o mundo. As autoridades políticas, quase todos ditadores em potencial, descobriram a eficiência do medo para exercer o poder.

Kitty, Daisy and Lewis

Nos fins de 2008 fui passar uma temporada no Haiti. Entre uma missão e outra, passava meus dias na base brasileira da MINUSTAH escutando música. Uma das bandas interessantes que descobri na época foi a formada por 3 irmãos adolescentes que tocavam músicas americanas da década de 50, o rockabilly e outros ritmos que formavam as raízes do que depois se transformaria no rock and roll.

O tempo passou e eis que volto a prestar atenção. Se na época a caçula Daisy tinha 16 anos, agora perto dos 30, o som deles amadureceu bastante e ganhou mais uma autoria. Na época estavam com um único disco lançado; hoje são 4.

A dica que deixo é escutar o último, Superscope de 2017.

Ainda existe boa música com boas bandas. Só não estão na mídia.

Paulo Gustavo: mais um que nos deixa

Paulo Gustavo era um humorista famoso. Contraiu o covid 19 e depois de longa batalha, não resistiu. Mais um que nos deixa. Tinha 42 anos.

Eu não conhecia o trabalho dele. Não assisti seus filmes, mas sei que eram bem famosos. Nada disso importa. Apenas que esta praga levou mais um brasileiro, entre famosos e anônimos, mas todos queridos para alguém.

Tem gente já subindo no caixão para fazer discurso político. Tem que ter alma apodrecida para isso.

O principal culpado por sua morte é um virus. Nunca podemos esquecer este fato fundamental. O mundo inteiro está sofrendo pesadamente com as perdas humanas que esta pandemia nos causa e sofreremos por algum tempo. Buscar bodes expiatórios não vai resolver este problema.

Parem.

Felicidade não depende só da vontade

Nós não somos os únicos responsáveis por nossa própria felicidade, pelo menos a que podemos ter aqui nesta vida. Há uma série de fatores que estão fora do nosso alcance, como a família que nascemos, a sociedade que vivemos, fatores físicos diversos.

Aristóteles já dizia que para termos uma boa vida precisamos desenvolver os bons hábitos, mas precisamos também ter sorte. Precisamos dos dois. Há gente que tem tudo que a sorte pode dar, mas não consegue ser feliz.

Já São Tomás de Aquino, na Suma Teológica, dizia que nesta vida só podemos ter uma felicidade imperfeita, pois estaremos sempre sujeitos ao mal, uma característica de nosso mundo. Felicidade mesmo, perfeita, só em outra vida.

O que tanto Aristóteles quanto Aquino concordam é que o homem não se basta para ser feliz. Precisa de sorte, ou da graça, para juntamente com a prática das virtudes viver a boa vida.

Portanto devemos ter muito cuidado com a promessa, muito viva nos livros de auto ajuda, que tudo está à alcance de nossas mãos, que basta querer e se aplicar. Pior, há muitos livros que ainda dizem que devemos buscar nossa felicidade sem levar em conta a dos outros. O homem é um animal social e jamais será completamente feliz sozinho.

Enfim, algumas leituras que tenho feito nestas semanas.

Covid: Eu Acuso

O maior erro desta pandemia, comum aos políticos e jornalistas, é achar que alguma coisa pode de fato ser feito para deter a pandemia. Estou cada vez mais convencido que nada pode ser feito. Foi assim na Europa, Estados Unidos, América Latina e, agora, na Índia.

A única coisa que realmente se pode fazer é tratar da doença desde os primeiros sintomas, com todo o conhecimento que a medicina tem no momento. Não estou falando de nenhum kit específico, mas que cada médico recomende o que julga melhor. A esta altura, depois de milhões de casos em todo mundo, já há conhecimento acumulado para fazer alguma coisa e pelo menos tentar, ao invés de deixarem as pessoas desassistidas para se tentar fazer algo quando já estão na fase aguda.

Eu acuso.

Eu acuso boa parte dos médicos de recusarem tratamento a doentes por razões ideológicas.

Eu acuso cientistas de distorcerem pesquisas por razões financeiras e ideológicas.

Eu acuso grandes farmacêuticas de conflito de interesse em qualquer tipo de tratamento por razões comerciais.

Eu acuso políticos e governantes de terem a pandemia como uma plataforma política.

Eu acuso governantes de não terem coragem de enfrentar o clima de opinião que se criou.

Eu acuso especialistas de… serem especialistas! São incapazes de ver a coisa globalmente e ficam concentrados em um único fator.

Eu acuso a quase todos de vaidade. Não querem admitir que estavam errados e só aprofundam seus erros.

Eu acuso boa parte da população de falta de solidariedade.

Eu acuso boa parte da população de inveja.

E, sobretudo, eu acuso a maior parte da mídia de ser hoje o que há de pior na nossa sociedade, mais até que os políticos. Sem seu trabalho sujo, e desumano, não se poderia criar este clima de pânico e histeria coletiva que nos levou todos a sermos prisioneiros de comissários de saúde e governantes que misturam interesses e medo.

O que o mundo, e o Brasil em particular, precisa de fato é o retorno do mínimo de bom senso para enfrentar este flagelo até que possa ser detido pela imunidade coletiva, seja pela doença (via ruim) ou pela vacina (se funcionar). Todo o resto apenas evidencia a podridão que a modernidade se tornou. Somos vaidosos, ansiosos, histéricos e materialistas. Essa é a verdadeira tragédia do mundo.

Artigo Científico: questões

Sobre a Introdução

Vou aproveitar o blog para organizar alguns pensamentos sobre um tema que assusta muita gente: como escrever um artigo científico. Eu ia colocar o título como dicas, mas seria pretenciosos demais. Não sou expert do assunto e definitivamente não me considero em condições de dar dicas ao pobre leitor destas linhas. No entanto, de vez em quando reflito sobre o tema e procuro ler sobre, o que é suficiente para levantar algumas questões relevantes e criar a tal síntese confusa, origem de todo conhecimento.

Uma primeira questão é sobre a introdução. Em que momento devo escrever a introdução? É a primeira coisa que escrevo ou deixo para o final? Há duas abordagens dominantes.

Uma turma defende arduamente que a introdução é a última coisa a ser escrita no artigo. Só depois de ter o artigo pronto e editado, com a visão definitiva de seu conteúdo, é que devo escrevê-la. Antes disso, é perda de tempo.

Uma outra turma defende que a introdução é a primeira e a última coisa que se deve escrever no artigo. Paradoxal? Explico. Antes de escrever um artigo você tem que ter pelo menos uma noção do que vai escrever, como vai escrever, seu propósito, sua pergunta de pesquisa, uma idéia geral. Ah, mas durante o trabalho tudo pode mudar. Pela minha experiência, garanto que vai mudar. Mas o importante, nesta visão, é que a introdução neste ponto é um rascunho imperfeito que sofrerá uma alteração final quando o artigo ficar pronto. Na verdade, pode ser revista constantemente durante todo o processo. Perda de tempo? Pode ser. Mas é uma maneira de manter uma visão principalmente do propósito sempre à sua frente. Na fase de edição, será a última parte a ser arrumada. Quando realmente estiver tudo pronto.

Um fato é que muita gente fica empacado na hora de escrever o artigo justamente na introdução. No primeiro método, você não precisa nem se preocupar com isso e parte logo para o corpo do artigo. No segundo, você escreve de qualquer jeito mesmo, entendendo que ela vai mudar muito durante o trabalho.

Pessoalmente acho que é uma questão de escolha, de temperamento. O que acho complicado mesmo é querer partir de uma introdução perfeita. Se optar pela segunda metodologia, o objetivo é escrevê-la toda e não escrevê-la corretamente. Deixe isso para depois.

Meu adeus ao Oscar

Sempre gostei de acompanhar a entrega dos Oscar. Nunca me iludi, sei que não premia realmente os melhores, etc. Mas nos últimos anos a agenda progressista passou a ser onipresente, dominando todos os espaços possíveis.

O resultado é a impressionante redução de 58% da audiência de um ano para o outro.

Acho que a situação é irremediável. Já foram longe demais e já criaram um ambiente cultural que não permite mais volta. Hollywood (diretores, atores, produtores, roteiritas, etc) resolveram soltar seu ressentimento contra a maior parte de seu público. O resultado está aí.

O que dá tempo para repensar são as ligas esportivas americanas. Estão indo pelo mesmo caminho da hollywood. Na cabeça destes loucos, isso não vai afetar a audiência, que é perfeitamente possível zombar com as crenças mais profundas das pessoas e ficar por isso mesmo.

O Oscar para mim, acabou. Não acredito que consigam consertar o estrago. Foram longe demais, passaram do “point of no return”.

O vicário aborígene

No Evangelho de hoje, Pedro afirma que somente em Jesus seremos salvos. É uma afirmação poderosa, e um tanto desconfortável. Significa que judeus, budistas, ateus, muçulmanos e outros não podem ser salvos? Como pode a mensagem cristã ser tão restrita, deixando de fora a maior parte da população mundial?

O segredo, nos conta o bispo americano Robert Barron, está numa afirmação curiosa de John Henry Newman, que viveu na Inglaterra do final do século XIX. Dizia ele:

A consciência é o vicário aborígene representante de Cristo na alma.

O segredo está na nossa consciência. Quando ela fala conosco, é Cristo que nos fala, seja qual for nossas crenças pessoais. E por ela nós poderemos ser salvos. Ela é o vicário do próprio Cristo e está conosco antes de qualquer religião, mesmo a católica.