Autor: guersonjr
Fugindo ao controle
Triste de ver a tragédia estrelada por Renan Calheiros, presidente do Senado. Não por pena do senador, afinal nada vem de graça; mas por constatar o nível de amoralidade de nossos homens públicos.
Diante da primeira acusação, de que teria se promiscuído com empreiteiros para inclusive pagar a pensão para quem classificou como “a gestante”, saiu-se com uma estória e uma documentação que ruiu como um castelo de cartas. Nada se manteve em pé. Acusou a mídia de invadir sua privacidade e expôs vergonhosamente sua esposa para se defender. Nunca se questionou o fato de ter tido uma amante e um filho, mas a suspeita de ter utilizado dinheiro de empreiteiros para pagar a conta, com evidente contrapartida do senador no congresso.
Armou-se um simulacro de investigação no conselho de ética, cujo relator e presidente fizeram de tudo para dar um fim rápido ao processo. Ouvir a “gestante”? Nem pensar, todo temem o que ela pode revelar em um depoimento. O caso ainda pode ser arquivado? Pode. Mas o poder de Calheiros nunca mais será o mesmo, e a imagem do Senado será fortemente arranhada.
É claro que já deveria ter se afastado da presidência e se defendido como um senador comum, igual aos outros. O desespero com que se agarra ao cargo só depões contra sua própria pessoa.
Soma-se ainda o desempenho vergonhoso de Sibá Machado, Romero Jucá, Romeu Tuma e Cafeteira. Fizeram de tudo para jogar a sujeira para debaixo do tapete, e ainda podem conseguir. A própria oposição ficou muda no episódio, destacando-se apenas alguns nomes individuais, como Demóstenes Torres.
Enfim, mais uma página vergonhosa da nova república.
Judas Premiado
Se os comunistas que lutaram de armas nas mãos tivessem vencido e o governo fosse deles, certamente não teriam tido as homenagens e os pagamentos que têm recebido, que já ultrapassaram mais de R$ 2 bilhões, pelo fracasso de suas guerrilhas. Homenagens de nomes de ruas e até de placas, como a que marca o local na cidade de São Paulo onde o comunista histórico Carlos Marighella, guerrilheiro e mentor do terrorismo, foi morto, na emboscada a que o levaram os seus comparsas dominicanos do convento das Perdizes, cumprindo, acovardados, ordens da polícia que os havia prendido ao descobrir que pertenciam, com codinomes inclusive, à guerrilha, no itinerário que fizeram de Cristo a Marx.
O presidente Figueiredo pensava ser a anistia a reconciliação da família brasileira, pelo esquecimento mútuo, que foi só dos vencedores. Absurdos têm sido praticados a começar pela de um amigo desde nosso relacionamento no Senado, onde fomos pares. O presidente Itamar Franco promoveu a brigadeiro um tenente, sem os cursos imprescindíveis ao generalato: aprovação em concurso para a Escola de Estado Maior e sua aprovação nela. O ato partido de um presidente que é oficial de artilharia R2 é, em si, inconcebível.
Abriu-se a porteira para as promoções dos vencidos como se heróis fossem. O eminente sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que fora aposentado compulsoriamente como professor da USP, onde pertencia a grupos de estudo e propagação do marxismo, eleito embora com a o auxílio dos partidos que cooperaram com o ciclo militar, sancionou lei que, em vez do esquecimento com que sonhou Figueiredo, viesse a ser indenizatória dos vencidos nas guerrilhas comunistas. Ao assiná-la, disse ser o dia mais feliz de sua vida. Desde então o rio descoberto por Itamar passou a ser torrente. Criaram-se comissões de reparo e de ressarcimento, tão isentas como isento foi Torquemada na alta idade média. Enriqueceram beneficiados paradoxalmente por terem sido vencidos. Mas também por terem matado. A par disso, vieram as promoções por ressarcimento de preterição.
Luiz Carlos Prestes chefiou a Intentona de 1935, causando mortes de militares no Nordeste e no Rio de Janeiro. Passou sua vida na União Soviética servindo a Stalin e a Krushev. Dedicou-a à causa comunista, mas foi no Brasil que recebeu como recompensa a promoção a coronel com vencimentos de general. Chega-se então ao inconcebível. A um capitão desertor, assassino do segurança do embaixador americano Elbrick, que seqüestrou, e de um vigilante de banco, que assaltou, soma-se em seu currículo o roubo de armamento de sua unidade militar, o crime militar mais nefando: o de matar um refém voluntário. Cercado pelo Exército e a PM no Vale da Ribeira, surpreendeu o pelotão do tenente Mendes, da PM de São Paulo, que teve vários soldados feridos gravemente. Para conseguir evacuá-los, parlamentou com o experiente matador, oferecendo-se ficar como refém, o que foi aceito. Estreitando-se o cerco, foi condenado à morte por um “tribunal” e logo executado, de início por uma coronhada de fuzil na cabeça, dada por trás. Logo outros, com a frieza profissional dos verdugos, esfacelaram seu crânio. Dois deles estão vivos.
Àquele que trocou o juramento de defender a pátria pelo celerado que matou, sem direito à defesa, filhos do povo, segurança de embaixador e vigilante de banco, dá-se morte cruelmente. Foi um herói que se sacrificou para salvar seus comandados, confiante na honra dos militares. Carlos Lamarca não mereceu vestir a farda que vestiu na vigília da traição, e agora ganha o traje – mas não a farda – de coronel com a condecoração indelével do perjuro.
Fazem-no merecedor da honraria quem detém temporariamente o poder de transformar um réprobo em herói, um trânsfuga que, jurando dar a vida pela pátria, a ultrajou. Hoje a vilipendiam as comissões de anistia que reverenciam o ultraje. Só resta colocá-los no panteon da pátria.
Jarbas Passarinho
Defesa
Sibá Machado
Sibá Machado nunca venceu uma eleição. Perdeu a prefeitura de Plácido de Castro e no máximo tinha conseguido uma vaga como suplente de deputado estadual. Em manobra stalinista assumiu a presidência do PT no Acre e o comando do partido. Acabou se impondo como suplente de Marina Silva. Como a senadora assumiu desde o início o Ministério do Meio Ambiente, acabou “herdando” simplesmente o cargo de senador da república.
Sibá Machado é um senador sem voto. Vivia num certo ostracismo até que surgiu a CPI dos correios. Nela destacou-se pela defesa implacável do governo e do PT. A dobradinha com Ideli Salvatti era simplesmente um espetáculo à parte. Ganhou o agradecimento e confiança do planalto.
Sibá Machado é o presidente do Conselho de Ética do Senado. Como nem Cafeteira conseguiu seguir até o fim o papel de relator do simulacro de processo contra Renan Calheiros, assumiu ele próprio a relatoria. O senador sem voto tornou-se o defensor da ética no Senado Federal e relator do processo contra o presidente da casa.
Em poucas linhas mais um absurdo que a política brasileira é capaz, e mais uma mostra de como nosso sistema eleitoral é anacrônico. Em tese, um senador sem um único voto poderia ser presidente do Congresso. O resultado é o que está aí.
Relaxa e goza!
Mais uma…
O Ministro Temporão e o aborto
Comentei sobre a participação do Ministro da Saúde no Roda Viva meses atrás. Temporão foi claro: defendia o debate sobre o assunto, não necessariamente o aborto. Mostrou toda argumentação à favor da ampliação do direito, mas quando perguntado negou-se a se posicionar na questão. Mas defendia um plebiscito.
Levantou novamente o assunto na época da visita do papa. Bento XVI foi taxativo sobre a posição da Igreja: não. Pesquisa da Folha: maioria do povo é contra. As próprias associações e ONGs que defendem a ampliação posicionou-se contra o plebiscito. Na época comentei que o plebiscito deixaria de ser estratégia, partiriam para o congresso onde a população não dá pitaco.
Pois leio hoje que Temporão defende que o Congresso faça a mudança da lei, e urgente. É um democrata não? Vendo que sua tese não encontra respaldo popular, tenta agora que seja feita na surdina, sem um debate nacional à respeito.
Ah, mas os deputados são eleitos para isso, para representar a população. Primeiro que a esmagadora maioria é eleita por votos de sua legenda, e dizer que representam um eleitorado é uma grande falácia. Não digo que deveriam deixar de existir, melhor com eles do que sem Congresso. Mas o fato é que nosso sistema é viciado e não funciona em termos de representação popular.
Mas o principal é que um assunto desses, em qualquer sociedade que se preze, é motivo para debate amplo e irrestrito. Basta lembrar que Portugal ampliou o direito ao aborto através de consulta popular. Não por vontade exclusiva de seu parlamento.
A sociedade deve ficar vigilante. A maioria é contra, mas políticos, o partido do poder, e grande parte da mídia são à favor. Se querem o debate que se faça, mas no arrepio não!
Caso Lamarca
Carlos Lamarca era oficial do Exército. Em 1969, desertou levando com ele parte do armamento da unidade em que servia. Ingressou um dos movimentos revolucionários que tentavam implantar um regime socialista no Brasil, seguindo o modelo cubano. Praticou atos terroristas, matou gente e foi morto em 1971.
A justiça em 1993 resolveu pagar à viúva uma pensão referente a um soldo de Coronel, cerca de R$ 9.500,00. Agora uma comissão do Ministério da Justiça resolveu promovê-lo de fato promovê-lo ao posto e pagar a pensão de General de Brigada, cerca de R$ 12.500,00.
É um total absurdo, e constitui o que fica bem definido como “bolsa terrorista”. No regime militar, de acordo com dados da Comissão foi responsável pela morte ou desaparecimento de 424 pessoas.
Lamarca e seus companheiros lutavam para transformar o Brasil em uma grande Cuba. Aplicada a “taxa” do regime de Fidel (83 a cada 100.000 habitantes), teríamos por aqui cerca de 150.000 mortos ou desaparecidos políticos. Um número bem mais marcante não?
Uma coisa é pagar uma indenização para Vladimir Herzog, que foi torturado e morto, sob a custódia do Estado, por suas convicções ideológicas. Outra bem diferente é indenizar um desertor e terrorista, que foi responsável por mortes de inocentes pelo seu sonho socialista.
Existe um mito plantado no inconsciente coletivo brasileiro de que os que lutaram contra o regime militar lutavam pela liberdade. É falso. Boa parte lutava para substituir o governo existente por uma ditadura socialista. Todos? Claro que não. Gente como Ulysses Guimarães queria o fim do regime e a implantação da democracia. Lamarca, em qualquer país civilizado receberia o título que merece: terrorista.
Mas por aqui já ganhou até filme.
É necessário que este festival de pensões seja revisto, a sociedade precisa saber para quem e por que está pagando fortunas milionárias. E a sociedade precisa decidir se concorda com esta conta, que não é pequena.
Como disse Millôr, eles não estavam fazendo uma revolução, mas um investimento.
“Por toda parte eu vou persuadindo a todos, jovens e velhos, a não se preocuparem exclusivamente, e nem tão ardentemente, com o corpo e com as riquezas, como devem preocupar-se com a alma, para que ela seja o melhor possível, o vou dizendo que a virtude não nasce da riqueza, mas da virtude vêm, aos homens, as riquezas e todos os outros bens, tanto públicos como privados.”
Sócrates
Narrado por Platão em “Apologia de Sócrates”



