Rohmer e o Conto da Primavera

Acabei de re-assistir, depois de uns 10 ano, Conto da Primavera, do Eric Rohmer. Minha lembrança da época era que este era o filme mais fraco dos quatros que ele fez nos anos 90 sobre as estações do ano. Eis um grande exemplo de porque deve-se assistir um filme mais de uma vez, mesmo que não tenha gostado tanto assim.

Pois Conto de Primavera é assombroso de bom! No meio de diálogos sensacionais, em que se coloca as questões da certeza e do juízo, Rohmer constrói um ambiente de tensão crescente, com um erotismo sutil, que nos confunde e nos faz duvidar de certezas que tivemos um minuto antes. Da mesma forma que a protagonista Jeanne fica perplexa com as situações, nós também ficamos pois o filme é ambíguo nos pontos centrais.

E que cena entre Jeanne e o pai de Natasha! Que diálogo, que coreografia de sedução, incerteza e ansiedade. É óbvio que os dois estão se apaixonando, mas há uma série de forças que os prendem como a própria Natasha, os namorados de ambos. No entanto, há uma completude entre eles, uma cumplicidade que só crescerá se continuarem se encontrado.

Quando Jeanne troca as flores murchas pelas novas, na última cena do filme, há um sinal que seu espírito se abriu novamente, deixando o tom cinza, conformado e deslocado que ela possui no início do conto. Gosto de pensar que ali se inicia um romance real, em que duas pessoas poderão enfim descansar depois de tantas buscas infelizes.

Uma maravilha de filme. Não fica nada a dever aos outros três.

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